- Carta de Judas II
Destinatários e Data
Sobre os destinatários imediatos desta carta faltam-nos indicações precisas, já que a saudação inicial emprega uma designação genérica válida para todos os cristãos. Pode-se pensar, com bastante probabilidade, que se tratava, pelo menos na sua maioria, de cristãos convertidos do judaísmo.
Outros estudiosos afirmam que os leitores desta Epístola são cristãos de origem pagã, dada a facilidade com que se propagava entre eles a licenciosidade de costumes (vv. 8.12.16.18) e de origem judaica, por causa do amplo uso do Antigo Testamento e dos apócrifos judaicos (vv. 5.7.9.11.14).
Esta Epístola é dirigida a uma comunidade cristã, sem qualquer referência à diferença entre judeus e gentios, que vive no fim do século I em um ambiente pagão, sendo ameaçada por múltiplas falsas doutrinas e contestações.
A referência explicita a Tiago (v.1) poderia indicar que a carta se dirigia ao mesmo grupo de leitores que a de Tiago, entre as quais esta deve ter gozado de uma especial autoridade.
Quanto à data, na hipótese de que fosse dirigida aos mesmos leitores, parece lógico datá-la pouco depois da morte de Tiago, acontecida no ano 62. Neste sentido, alguns opinam que ela deve ter sido escrita antes do ano 70, já que não alude à destruição de Jerusalém. Para outros,esse silêncio não prova nada. Em qualquer dos casos, não se está longe da verdade se colocamos por volta do ano 70.
Finalidade e Conteúdo
O autor propõe-se a exortar os fiéis a combater pela fé transmitida de uma vez para sempre (v.3), recordando-lhes o que já tinham predito os Apóstolos sobre a aparição de homens malvados, dominados pelas suas paixões.
O motivo concreto podem ter sido as notícias chegadas a Judas de que tais homens ímpios se tinham infiltrado naquelas comunidades cristãs (v. 4) e que então procuraram dividi-los com falsas doutrinas sobre Cristo e os poderes celestiais e ela sua vida libertina formavam um perigo para a fé. Tratava-se de indivíduos arrogantes, imorais, que pretendiam possuir um conhecimento superior, hostis à autoridade, ávidos de lucro, muito egoístas, prontos para sustentar as teses mais absurdas, se isto lhes conviesse.
Segundo os dados da carta, os seus erros referiam-se sobretudo ao campo moral: são ímpios “que convertem em libertinagem a graça do nosso Deus” (v. 4), e que propugnam uma falsa interpretação da liberdade cristã. Mencionam-se sobretudo os vícios impudicos (vv. 4.8.11.13.23) e a avareza (vv. 11.16). A carta ameaça-os com um castigo divino ilustrado com precedentes da tradição judaica (vv. 5-7).
Em qualquer dos casos, parece que se trata de um movimento ainda incipiente: produzem divisões (v. 19), mas ainda participam na vida da comunidade (v. 12), e segundo parece existe a esperança de salvar uma boa parte deles (vv. 22-23)
Tem por objetivo prevenir os cristãos em geral contra o perigo de uma doutrina que estava prejudicando gravemente a integridade do Evangelho.
Sem primar pela profundeza teológica, a carta é um documento precioso das lutas entre a Igreja e as heresias, visando a conservação integral do Evangelho numa época desorientada.
A carta é um escrito contra falsos doutores: mais violento no tom que na substância. Recrimina, em lugar de refutar com argumentos; lança ataques genéricos, sem determinar; ameaça com exemplos terríveis. Contudo, procura temperar seu rigor com a compreensão e compaixão (vv.22-23). A carta não é atraente. Talvez nos ensine que, diante de certos erros doutrinais e morais, é mister tomar posição clara e firme.
O autor lembra os castigos que no passado vieram sobre tais pregadores do erro e que virão futuramente sobre esses intrusos.
Paralelo entre 2 de Pedro e Judas
O problema dos falsos mestres e a sua influência perniciosa entre os fiéis é também abordado na 2 Carta de Pedro; entre ambas há uma grande semelhança de idéias e, inclusive, de terminologia, especialmente entre Judas 4-18 e 2 Pedro 2,1-3,3. A comparação de ambos os textos induz a pensar que a de Judas influi em 2 Pedro, onde se elaboram e matizam algumas das expressões.
Comparem-se entre outros:
Jd 4 - 2 Pd 2,1
6 - 2,4.9
7 - 2,6
8 - 2,10
9 - 2,11
10 - 2,12
11s - 2,13-15
13 - 2,17
16 - 2,18
17 - 3,1s
18 - 3,3
2 Pedro e Judas citam, cada qual, três exemplos do Antigo Testamento (2 Pd 2,4-8; Jd 5-7),dos quais dois em comum.
Continua no próximo número
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