Apocalipse (16)
A questão dos mártires
Foi uma condição de perseguição que motivou o Apocalipse, embora João, pela sua Carta apostólica de cunho pastoral, até em vista de sugerir a forma certa para viver a expectativa da Vinda do Senhor, se preocupe, também, com o arrefecimento da caridade e com as falsas doutrinas, sugerindo, para isso, a conversão às igrejas às quais escreve. Antes mesmo de falar da primeira visão, João lembra a sua condição de “companheiro na tribulação” (1,9) aos servos de Deus chamados, como ele, ao testemunho de Jesus Cristo. Nas cartas às igrejas da Ásia, lugar onde mais grassava a perseguição de Domiciano no ano 95 d.C., são lembradas as tribulações pelas quais elas passaram ou logo estarão passando: “Conheço tua conduta, tua fadiga e tua perseverança” (2,2); “Conheço tua tribulação, tua indigência...
Eis que o diabo vai lançar alguns de vós na prisão” (2,9.10); “... não renegaste a minha fé” (2,13); “...guardaste minha palavra e não renegaste o meu nome” (3,8). No momento em que o Cordeiro abre o quinto selo, os “que tinham sido imolados por causa da Palavra de Deus e do testemunho que dela tinham prestado...clamam: “Até quando, ó Senhor santo e verdadeiro, tardarás a fazer justiça, vingando nosso sangue contra os habitantes da terra?” (6,9s). No momento em que João fala da sorte dos profetas do Novo Israel diz: “Quando terminarem seu testemunho, a Besta que sobe do abismo combaterá contra eles, vencê-los-á e os matará” (11,7). Quando fala da sorte dos fiéis diz do perseguidor: “Deram-lhe permissão para guerrear contra os santos e vencê-los” (13,7). As referências constantes ao livro de Daniel, que se intensificam em Ap 12-13, nos revelam que João utilizou Daniel para expor a sua escatologia. Notamos a influência de Daniel desde a formulação da primeira visão. O Senhor das Igrejas que fala a João é descrito com as características do anjo Gabriel de Dn 10,5. A explicação que dá diz respeito aos tempos de perseguição por parte de um rei iníquo, como acontece em Ap 13, e que pode ser identificado com Antíoco IV Epífanes o qual, no tempo do autor de Daniel, ano 175 a.C., desencadeou uma perseguição contra o povo judeu. Embora a questão dos mártires não resuma em si a finalidade da Carta apostólica de João, ela a marca de tal forma que dá o tom a toda ela. É continuamente relembrada nos hinos que explodem no fim de cada situação tratada por João a respeito da Igreja perseguida. Quem canta esses hinos são “os que lavaram suas vestes e a alvejaram no sangue do Cordeiro” (7,14) (notamos que é o mesmo hino que João canta no Endereço (1,5-6), na condição de companheiro na tribulação dos servos de Deus). Em todos os hinos que eles cantam lembram os sofrimentos que padeceram pelas mãos dos perseguidores e manifestam a alegria de vê-los castigados: “As nações tinham-se enfurecido, mas a tua ira chegou... para exterminar os que exterminam a terra” (11,18). “O Diabo os acusava dia e noite diante do nosso Deus. Eles, porém, o venceram, pois desprezaram a própria vida até a morte' (12,10s).
“Estes derramaram sangue de santos e profetas e tu lhes deste sangue para beber. Eles o merecem” (16,6). “Ele julgou a grande Prostituta... e nela vingou o sangue dos seus servos!” (19,2).
Perguntas para uma reflexão:
1ª) Nas Cartas às Igrejas (Ap 2-3), de que forma são lembradas as perseguições?
2ª) Em que sentido Daniel inspira João quando fala das perseguições?
3ª) Com que palavras os hinos dos mártires celebram o seu triunfo?
Pe. Fernando Capra/CRSP
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