Novena de Natal, 1981. Nosso Círculo Bíblico comemorava o seu 1º ano. Um jovem, pois éramos todos jovens, sugeriu que ao invés de nos reunirmos em nossas casas, cada dia a Novena fosse realizada na casa de um irmão necessitado, em uma comunidade carente, próxima ao nosso bairro. Assim aconteceu.
Uma agente pastoral que lá morava, providenciou tudo e nos reunimos por 9 dias com famílias desconhecidas, que nada sabiam sobre círculos bíblicos, nem sobre novenas, mas que sabiam o que era o Natal, data em que colocariam as crianças para dormir mais cedo, para que não sofressem a dor de não poderem compartilhar de uma ceia, simples que fosse, ou ganhar um presente.
Dura realidade! Fomos falar sobre o SIM de Maria, sobre a bondade de Deus em nos enviar Seu Filho para nos salvar e as pessoas sabiam que dia 25 de dezembro era a data da comemoração do nascimento de Jesus e mais nada! Os demais testemunhos eram de lembranças tristes de uma infância pobre, em que o papai Noel nunca veio.
Até que no 9º dia "Eu Vi o Cristo"! E escrevi no jornal da minha paróquia sobre isso, exatamente como faço hoje aqui.
Era um barraco pobre, de dois cômodos. Não vi se tinha banheiro. Lembro de quatro crianças, sendo uma delas um bebê de aproximadamente 3 meses. A mãe segurava um outro no colo, que pelo grau de desnutrição não me permitia calcular a idade.
Podia ter 1 ou 4 anos... o marido de cama a mais de dois meses com uma doença renal, que tempos depois vim saber irreversível.
Eles não tinham nada! As crianças não tinham sequer registro de nascimento. Dormiam no chão de terra batida. Tinham as barrigas enormes e os olhos úmidos. O nome daquilo era miséria! E ela estava a menos de 2 km da minha igreja e a menos de 3 km da minha casa.
Lembro como chorei quando um amigo entregou um pacote que levou e vi a mãe dividir o pão doce que tinha dentro, entre os meninos famintos e o marido pálido. Ela LAMBEU OS DEDOS quando terminou a partilha, já que não sobrara nada para ela.
Meu sentimento naquele momento era de total impotência e eu senti pena várias vezes e me envergonhei por isso. Me surpreendeu o fato de que ela sabia rezar. Ela rezou com a gente... e naquele turbilhão de sentimentos que eu não compreendia , em meio às lágrimas que eu tentava disfarçar, olhei a criança no berço improvisado... e ela sorriu para mim... e eu vi o Cristo nela! Era o Senhor que me dizia que está entre nós o tempo todo, onde menos imaginamos e nós não o reconhecemos!
Homilia do Pe. Francisco, domingo, 04/11/2007.
Ele relata com detalhes as mesmas cenas que eu vivi a tantos anos atrás. Família pobre, crianças famintas, uma mãe que divide o alimento e LAMBE OS DEDOS, que é a parte que lhe cabe na divisão.
Chorei de novo, agora com as lágrimas do Pe. Francisco e não mais pela família que com o meu círculo tive a oportunidade de ajudar e evangelizar, após aquela Novena de Natal inesquecível.
Chorei com as lágrimas de quem vê se repetir, tão próximo, a 2 km da minha paróquia, a mesma história A PRÁTICA DO LAMBER OS DEDOS, a história da pobreza, da falta de amparo que o Estado deveria proporcionar aos menos favorecidos, da sensação de impotência, mas principalmente por continuar me envergonhando.
Queridos irmãos, que neste Natal possamos, de fato, vivenciar o amor de Deus e aprender com Sua imensa sabedoria, quando trouxe ao mundo seu filho em berço pobre. Que não esqueçamos do nosso irmão, tão próximo de nós e que na maioria das vezes clama pelo nosso sorriso e não pelas nossas lágrimas. Pelo nosso serviço e não pela nossa pena. Peçamos ao Senhor que neste Natal venha renovar a nossa vida! Vem Senhor, reformar a nossa história! Vem Senhor Jesus, ser a luz do nosso caminho! Feliz Natal!
Ana Clébia - Fé e Dons
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