"Um tiro na mão da sociedade"
No último dia 8 de outubro eu fui surpreendido com a notícia de que uma senhora aposentada havia reagido a um suposto assalto baleando, na mão, um morador de rua que a abordava no bairro do Flamengo. A minha surpresa só não foi maior do que o triste e lamentável ato da nossa Câmara Municipal que, para minha perplexidade, duas semanas depois do fato, concedeu a medalha Pedro Ernesto a essa senhora pelo "simbolismo do ato" por ela praticado, conforme as palavras do próprio Vereador, autor da iniciativa em conceder a medalha, ao justificar a sua atitude.
Não quero aqui avaliar os riscos que são nítidos ao se reagir a um assalto. Tampouco analisar os aspectos investigativos do possível crime, mas refletir sobre essa lamentável atitude da Câmara Municipal e os discursos proferidos durante a entrega da referida medalha em "honra a atitude desta senhora".
Gostaria de começar pela fala do Presidente da sessão, o Vereador autor da iniciativa, durante a entrega da medalha quando lamentou o fato da bala ter atingido a mão e não o coração, pois, segundo ele, "assim teríamos um vagabundo a menos no mundo".
Essa afirmação, originária em uma linha de pensamento conservador da época do Brasil Império escravocrata e utilizada em alguns governos militares da América Latina na década de 70, se justifica na equivocada visão de que os problemas sociais, ainda muito comuns no nosso País de hoje, devem ser tratados como casos de polícia e não com políticas públicas de inclusão social. No fundo, essa idéia preconceituosa e totalmente limitada, se baseia na falsa premissa de que só é pobre quem quer. Ela ignora os indicadores sociais que apontam para um número considerável de pobres e desempregados que vivem, segundo o IBGE, com uma renda mensal inferior a R$ 100,00 e que ainda se encontram longe das oportunidades que podem ser geradas com uma educação pública de qualidade e investimentos sérios e consistentes na área de saúde, saneamento e, principalmente, em projetos para distribuição de renda. Porém, o mais triste disso tudo é que essa afirmação não partiu de um cidadão comum que poderia estar exercendo a sua liberdade de expressão, mas de um parlamentar da Câmara Municipal do Rio de Janeiro que, naquele momento, representava o parlamento carioca. Representava a opinião de uma casa que, ao invés desse tipo de atitude, deveria ser a primeira a propor políticas e projetos de inclusão social que visassem combater a miséria e a pobreza.
Outro aspecto interessante para analisarmos está no discurso da aposentada que disse, logo depois de receber a medalha, que os moradores de rua deveriam ser jogados no mar, caso não quisessem ir para um albergue. Não quero aqui criticá-la, pois entendo que vivemos em uma democracia e todos, sem exceção, têm o direito de expressar a sua opinião. Entretanto, gostaria de analisar o forte "eco" que esse tipo de discurso encontra na sociedade moderna que, revestida de uma hipocrisia sem igual, tem a coragem de ainda se dizer Cristã. Esse tipo de pensamento serve bem de desfecho para essa lamentável história que acabamos de refletir. Ele agride o Evangelho de forma clara e direta: Na nítida opção preferencial do Cristo pelos pobres e excluídos. Cabe lembrar aqui, para ilustrar essa nossa reflexão, a passagem do Juízo Final em Mateus 25, 31-46 onde Deus privilegiará, no Juízo Final, àqueles que vêem o Seu rosto Divino no rosto do irmão pobre, presidiário e excluído da nossa sociedade.
Precisamos rever as nossas práticas e as conseqüentes responsabilidades que temos ao agirmos de forma egoísta em não nos voltarmos efetivamente para a população de rua com uma atitude de inclusão e fraternidade. Ninguém vive na miséria por que quer. E cabe principalmente a nós, que temos a ousadia de nos definirmos como Cristãos, mudar ao menos a forma de enxergarmos esses irmãos pobres, carentes e mergulhados na mais profunda miséria. Só assim, através da nossa atitude, é que poderemos construir um reino de Paz, Justiça e Amor, conforme o próprio Cristo nos prometeu nos evangelhos.
Um forte abraço a todos e a Paz de Cristo!
Robson Campos Leite
Email: feepolitica@terra.com.br
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