Cristologia - Introdução II
Deus
que se revelou a Israel a partir da vocação de Abraão, que,
pela história do seu povo nos fez entender qual é a condição
em que se encontra toda e cada criatura e que pela profecia nos anunciou um Redentor,
"nos últimos tempos, que são os nossos, nos falou pelo Filho,
que é o herdeiro, pelo qual fez os séculos. Resplendor da sua
Glória e Expressão do seu Ser sustenta com a sua palavra o universo"
(Hb 1,1-3). A condição divina d´ Aquele que se apresenta segundo
a condição humana é a surpreendente realidade que nos obriga
a criar uma Cristologia que responde à seguinte questão: quem é
Jesus de Nazaré que, enquanto, segundo a linha profética, à
qual se liga pelo testemunho de João Batista, prova ser o Messias, se revela
de condição divina pela sua Ressurreição, que sela
a sua Morte como imolação redentora? Foi segundo esta linha de raciocínio
que procedeu a reflexão apostólica a partir da tumba vazia. Isto
nos é ensinado pelo próprio Evangelho do domingo da Ressurreição.
Vemos que o discípulo que ama chega mais depressa à fé, enquanto
é seguido por todos os outros que, depois de ter renegado o Cristo na sua
Paixão, embora ela fosse exatamente uma das últimas realizações
das Escrituras em Jesus, após ter-se revelado Profeta e Messias, voltam
a amá-lo. Retomam o caminho da fé que tinham abandonado ao ver o
Messias sucumbir diante dos seus inimigos e começam a amadurecer, meditando
as Escrituras: realmente o Cristo devia sofrer para entrar na Glória. Estamos
diante da seqüência dos evangelhos dos domingos depois da Páscoa.
Os Apóstolos perscrutam as Escrituras, exatamente da forma que o Senhor
ressuscitado lhes ensina, seja aparecendo aos discípulos de Emaús
como a eles mesmos reunidos no cenáculo. Corrigem então o seu messianismo
terreno e começam a encontrar o pleno sentido do Reino de Jesus. Diante
da condição divina do seu Mestre que se revelava na sua ressurreição,
entendem todo o peso do seu ensinamento profético. Jesus veio levar à
perfeição a própria Lei que, numa outra teofania, o Deus
único e verdadeiro tinha ditado a Israel no Monte Sinai. Desta vez a revelação
ocorre de forma definitiva. As Escrituras que servem para meditar sobre a Morte
e a Ressurreição do Messias, à luz a Divindade de Jesus,
que fulgura na sua ressurreição, adquirem seu sentido pleno: Jesus
é o Adão novo do qual o Adão antigo era figura. Enquanto
podíamos dizer com Paulo, mas só por alegoria, que todos morremos
em Adão, nos referindo ao Adão de Gn 3, devemos dizer, mas desta
vez de forma real, que todos, em Cristo têm a vida. A Descendência
da Mulher, realmente, esmaga a cabeça da serpente e o Mal é definitivamente
vencido porque Jesus é de condição divina; o Emanuel anunciado
por Is 7,14 é uma presença real de Deus no meio dos homens porque
a sua Palavra se fez carne. Por esta última verdade chegamos àquilo
que a Encarnação traz de totalmente novo: o mistério da Vida
Trinitária em Deus.
A reflexão apostólica sobre as
Escrituras acaba criando vocábulos teológicos mediante a transformação
interna do conteúdo das figuras sugeridas pela Profecia, à luz da
condição divina de Jesus, revelada pela sua Ressurreição.
Grandiosa
era a visão que a Profecia tinha apresentado enquanto Deus, pedagogicamente,
preparava a vinda do Redentor. Mas ainda faltava ser conhecida em todo o seu esplendor
porque não era iluminada pela luz da divindade daquele que a mesma anunciava.
Agora, como diz São Paulo aos Romanos, estamos diante do Senhor Jesus Cristo
que, segundo a Profecia é o Evangelho de Deus anunciado, enquanto, na sua
Pessoa é o Evangelho realizado, e que, pela Igreja, é o Evangelho
proclamado. Não é algo de grandioso somente porque nos traz a salvação.
É grandioso, também, e, sobretudo, porque revela o Plano sapientíssimo
do Pai e toda a santidade com que age o Filho de Deus.
Deus que é
a Caridade, isto é Vida Trinitária, quer, para as suas criaturas,
o máximo da realização da qual são capazes. São
Paulo fala de uma glorificação de toda a criação atrelada
à glorificação do homem. Conseqüentemente, Deus canaliza
todo o seu Poder e Sabedoria para alcançar o seu objetivo que visa à
divinização o homem. O amor de Deus resplandece ainda mais quando,
diante da rebeldia do homem ele é chamado a agir na Misericórdia.
A expressão máxima do amor misericordioso do nosso Deus é
a Encarnação pela qual a Palavra que se fez carne vem nos visitar,
colocando a sua tenda entre nós. O Plano de Deus contempla uma reconciliação
mediante uma justificação. Mas é exatamente o contexto da
redenção que nos dá a oportunidade de ver toda a riqueza
da Sabedoria de Deus através do seu Mistério que é Cristo
em nós esperança da Glória.
Perguntas para uma reflexão:
1ª)
Quais são as primeiras descobertas da Igreja apostólica que aprofundam
sua fé no Senhor ressuscitado?
2ª) Além da salvação,
quais são os outros valores que nos são participados em Jesus?
3ª)
Por que a Misericórdia é a expressão máxima da Caridade
divina?
Pe. Fernando Capra/CRSP
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