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O Natal de Jesus ou o Jesus do Natal|DEZEMBRO


Caríssimos irmãos, neste encerramento do ano de 2005, façamos uma reflexão nesta oportunidade que é propícia. O Natal se aproxima. Bem antes do tempo as vitrines enfeitadas convidam as pessoas a se lembrarem da época dos presentes. Nesta fase aguda de crise é preciso recordar mais vivamente que o tempo do Natal está chegando e é necessário provar aos parentes e amigos que pensamos neles. Para muitos, a pequena frase "Feliz Natal!" não se realiza tão facilmente quando é pronunciada.
Cercado de presentes, diante de guloseimas, o ser humano não está feliz. Nele, vai uma emoção de profundo vazio, como se algo ou alguém estivesse faltando. Na noite, noutras casas onde a luz escasseia e a mesa é pobre também se ouve: "Feliz Natal!". Lá e aqui a Noite Feliz parece não significar quase nada, a não ser o estranho paradoxo de se ter que aparentar felicidade porque assim é estabelecido. Afinal, o que se está comemorando? Se fizermos uma enquete e perguntarmos às pessoas que saem das lojas com embrulhos e sacolas, o que se comemora no dia 25 de dezembro, possivelmente obteríamos respostas variadas entre estas; alguém se lembraria de dizer que é a data do nascimento de Jesus. Por mais que se procure o aniversariante, Ele não é encontrado, pois não há qualquer sinal e evidências nas ruas e lojas. A exata compreensão do Natal sugere uma averiguação histórica quanto a data do nascimento de Jesus. Os pesquisadores não são unânimes em afirmar que ocorreu em dezembro, porque, na história do Cristianismo primitivo, os primeiros cristãos não tinham o hábito de celebrar o Natal, por considerarem a comemoração um costume pagão. As primeiras observações acerca do nascimento aparecem por volta do ano 200. O dia 25 de dezembro foi mencionado em 336, o que não impedia que em outras datas também ocorressem os festejos, como, por exemplo, no dia 06 de janeiro, que até hoje é mantido pelas igrejas ortodoxas orientais. Com o passar dos séculos, o Natal foi deixando de ser uma festa de cunho religioso e passou a ganhar novos contornos, originários de culturas anteriores ao Cristianismo. Na Inglaterra, durante a Idade Média, o Natal transformou-se no dia mais alegre do ano, mas como esse estado de alma não era muito compatível com o "espírito sombrio" da época, os puritanos que encaravam a festa como pagã proibiram-na no país. No ocidente, a celebração do Natal, anteriormente ligada ao nascimento de Jesus, aos poucos foi sendo modificada. A figura do Papai Noel, o bom velhinho, tornou-se um atrativo maior para as crianças, logo também para os adultos. As festas natalinas assumiram um caráter notadamente comercial, onde se estimula o consumismo desenfreado sob o pretexto de que esta é a época de se presentear os amigos e parentes. Com tudo isso, Jesus foi sendo gradualmente substituído, de motivo central da festividade a elemento secundário na preferência popular, que resolveu homenagear outros ídolos. Jesus porém, dissera com convicção em Jo 14, 2: "Na casa de meu Pai há muitas moradas. Não fôra assim, e Eu vos teria dito; pois vou preparar-vos um lugar". Ao fazer tal afirmação, o Cristo garantiu que há lugar para todos no céu, que a Ele cabe preparar. Mas, e Ele? Que lugar ocupa no mundo atual? Será um lugar específico? Numa escala de valores, está em primeiro lugar? Na civilização ocidental rotulada como cristã, todavia, é muito difícil encontrarmos o Cristo no Cristianismo presente. Parece que os homens o baniram, substituindo-o por outros modelos de heróis, que na verdade, não expressam nenhum dos valores cristãos. Cultuam-se ídolos que se sobressaem pela força de seus músculos, pela facilidade de manter grande número de pessoas, pelas conquistas amorosas, pela adoção deliberada de extravagantes atitudes eróticas para a venda milionária de discos, livros e o sucesso.
Longe está o modelo do herói cristão, que traz à memória as figuras do Papa João Paulo II, Madre Tereza de Calcutá e outros mais. Por isso o Natal se distancia cada vez mais do seu real significado. O aniversariante, por certo, não se importaria de ser presenteado. Lembremo-nos daquele episódio narrado nas Escrituras, onde uma mulher pecadora rendeu-lhe homenagens perfumando os seus pés com essência de nardo puro, diante dos fariseus estupefatos e dos apóstolos um tanto constrangidos. O Mestre aceitou a oferenda porque sabia da atitude que a impulsionava. Todavia, quão distante esse gesto de humildade, respeito e amor da comercialização desenfreada que ocorre em nossos dias! Onde está Jesus neste Natal? Ele nos prepara o lugar. E que lugar lhe damos em nossa vida? No momento em que nossa cultura comemora esta data, vale a pena guardar na memória e no sentimento uma certeza: Essa região, que o Mestre prepara para nós, começa no território do coração, e só com muito trabalho e comprometimento com o amor genuíno é que ampliamos horizontes seguros de nossa paz. Isto equivale dizer que o homem reconheceria, então, o lugar do Cristo como o legítimo Senhor da vida e da história. Na verdade, o Natal não significa somente o nascimento de Jesus, em um dia específico, diante das datas do mundo, mas também o nascimento do Cristo na consciência renovada e no coração do homem integral, em qualquer dia, a qualquer hora. É com essa visão que devemos nos associar ao exército celeste e com a alegria que os anjos cantam, em poesia, a festa real de Jesus: "Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens, objetos da benevolência divina" (Luc 2, 14).

A todos os irmãos queridos, um Santo e Feliz Natal com Jesus!

Ricardo da Liturgia das 10h
ricardomoyses@globo.com

 
 
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