Não era exatamente um grande Natal, mas para
mim estava sendo. Não era exatamente os presentes que eu queria ganhar,
mas não tinha escolha. Não era a animação que tantos
exibiam, mas dava pra cantar um "u-tererê". Não era muita
coisa que havia imaginado, mas era sim, o meu Natal.
Querendo ou não
ele chegaria e passar em branco não seria uma decisão minha. Não
havia muito o que pensar, entrou dezembro e o mês percorreu sua trilha como
um trem desgovernado e acelerado, querendo ou não aquele seria o meu Natal
de todos os anos, o Natal de todas as famílias e a minha estava incluída
nisso.
A expectativa que se faz comercial-mente sobre o Natal é
de um terrorismo que abate qualquer ser humano normal. é Natal, é
Natal, "jingobel, jingobel" - e o jogo não pára. Realmente
era um Natal "daqueles". O ano estava terminando num zero a zero sem
fim; pouco dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender, mas ninguém
quer comprar.
Os dias de dezembro que passam rápido como mês,
passam muito lentos como dia-a-dia. "o tempo não pára e, no
entanto, ele nunca envelhece", já dizia o poeta.
E não
tinha mais jeito, o Natal estava ali e não pediu licença pára
entrar, simplesmente chegou, afinal os comerciais na TV não nos deixavam
esquecer disso; -é Natal, é Natal, "jingobel, jingobel"
e pronto.
Como não havia o que fazer restava apenas aceitar e tentar
entrar no clima e tinha que estar preparado para tudo, inclusive o principal do
dia que chegava a me dar arrepios, ir a missa no Loreto, a tal missa do Galo (até
hoje não sei o porquê deste nome). Eu não gostava porque começava
tarde e terminava tarde, o Loretão ficava apinhado de gente, o estacionamento
ficava lotado e eu levando toda a família inclusive as crianças,
que acabavam dormindo e ainda tínhamos que ficar em pé, pois, chegar
na hora nem pensar. Eram muitas as coisas para juntar e sair.
Mas, como
diz minha mãe; o que não tem remédio, remediado está,
então era engolir o tal espírito do Natal, afinal; -é Natal,
é Natal, "jingobel, jingobel".
De fato o Loretão
estava lotado. Com muito custo conseguimos um lugar espremido na arquibancada
com toda a família; esposa, filhos, irmãos, mãe, cunhados,
cachorro e papagaio; não o cachorro e o papagaio foram espertos e ficaram
em casa.
Já nas preliminares da missa deu pra perceber que a volta
seria pior, pois o tempo estava mudando e vinha chuva da boa no horizonte. E assim
foi, padre Victor (saudades), é quem estava no comando, tudo ia bem até
que uns tufões de vento passaram a varrer o local. Era vento forte que
fazia vibrar os galhardetes que estavam pendurados no teto. Acompanhado do vento
veio uma chuva daquelas que vem de cima para baixo, de baixo para cima, de lado
e de través. Como não podia deixar de ser, acabou a luz. Estava
pronto o meu Natal, não faltava mais nada, eu no Loretão chovendo,
ventando e sem luz, o que mais poderia acontecer?
Assim, meio que do nada,
as pessoas começaram a ligar seus celulares como ajuda para iluminar o
local. Aliado a isso, ao sabor do vento e da chuva, um coro de vozes alegres e
emocionadas cantavam com vontade: se vê, se sente, Jesus está
presente. Parecia que a cada verso acontecia uma rajada de vento quase que
no mesmo ritmo.
Perdoem-me a heresia, mas, parecia o sopro do Espírito
Santo, chegava até a arrepiar. Os galhardetes tremulando, o barulho da
chuva, o vento e as luzes piscando. Olha, meu coração inchou de
tal forma que meus olhos transbordaram (novidade), e já não havia
mais motivo para reclamar. O calor que emana na comunidade do Loreto é
algo assim indescritível, é algo que transborda literalmente, é
uma coisa que nós, loretanos, podemos experimentar. Uma noite maravilhosa
e inesquecível, uma noite pra ficar guardada naquela prateleira especial
do nosso coração.
A luz voltou, o padre Vitor retomou a
missa e nós voltamos para casa. Não havia mais como negar: se vê,
se sente, Jesus está presente e estava mesmo.
Esse foi um dos natais
mais marcantes da minha vida. Só no Loreto mesmo!
P.S. É
Natal, é Natal, "jingobel, jingobel" pra vocês.
P.S.
do P.S. Tem coisas que só o Loreto pode nos dar.
PAULO SOBRINHO
E SOLANGE loretando@oi.com.br
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