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Fé e Política|DEZEMBRO


"Os partidos políticos e a privatização dos sonhos"

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso escreveu recentemente um artigo na revista americana "Foreign Policy" abordando a relação entre a sociedade e os partidos políticos no Brasil e no mundo. Nesta matéria, ele sugere que a crise em que os partidos políticos estão mergulhados é decorrente da falta de envolvimento e articulação destes com a sociedade. Ele também coloca que o desinteresse da sociedade pela estrutura partidária como via de democracia direta ocorre única e exclusivamente pela crise de representatividade dos políticos e dos partidos.

Concordo em parte com o artigo. A constatação da crise de representativi-dade existente na política atual, em especial no Brasil, e a falta de articulação dos partidos políticos junto à sociedade são evidentes e corretas. Entretanto, o que eu gostaria de discordar e, ao mesmo tempo, trazer para a reflexão da nossa coluna é exatamente os motivos que levam a essa crise de relacionamento envolvendo os partidos políticos e a sociedade.

Não vejo a origem do problema do distanciamento entre os partidos e a sociedade como sendo responsa-bilidade única e exclusiva da falta de capacidade das organizações partidárias em captar o desejo da sociedade, conforme afirma o ex-presidente em seu artigo. Muito pelo contrário, a origem deste distanciamento se dá na própria sociedade que busca, cada vez mais, o individualismo pregado pelo neo-liberalismo e claramente condenado na Doutrina Social da Igreja ao invés do coletivismo e as práticas de promoção do Bem Comum tão claramente explicitadas como um dever de toda a sociedade, e não apenas dos partidos políticos. Quantos de nós acabamos nos tornando escravos desse ritmo desenfreado do capitalismo que nos obriga a lutar com unhas e dentes por uma melhor preparação para o mercado de trabalho em função do crescente desemprego mundial que assusta a cada dia? Esse clima de competição criado pelas "novas relações de trabalho" acentua a competição e estrangula a capacidade de coletivização dos sonhos. Quem de nós tem tempo para participar de uma reunião de condomínio ou associação de bairros? Muito menos de algum partido político ou organização de terceiro setor. Os MBAs, cursos de extensão, pós-graduação e etc ocupam todo o tempo que poderia estar sendo reservado para as atividades ligadas a articulações para melhoria do coletivo. Essa falta de tempo generalizada faz com que as pessoas escolham os seus representantes na política como sendo responsabilidade deles suprir a nossa falta de tempo na condução dos assuntos da nossa sociedade. Com isso, sem a nossa fiscalização e acompanhamento, os partidos e os mandatos acabam se tornando essas máquinas eleitorais que funcionam apenas de 4 em 4 anos (ou de 2 em 2 se levarmos em conta as eleições municipais).

Outro aspecto extremamente relevante nessa constatação da desarticulação do coletivo é o egoísmo reinante da nossa sociedade consumista e "neo-liberal". As pessoas não primam pelo Bem Comum simplesmente porque uma parte considerável leva a cabo aquele triste ditado já abordado em nossa coluna: "Farinha pouca, meu pirão primeiro". Essas atitudes, amplamente condenadas nos princípios da Doutrina Social da Igreja e no próprio Evangelho, compõem o pecado social que transforma a nossa sociedade nesse sistema vil e desagregador de valores éticos e morais. O preconceito, a discriminação, a fome, a violência e o desemprego estão enraizados nessas atitudes egoístas fomentadas pela corrupção e pela ganância da própria sociedade. Adaptar os partidos políticos a essa "nova realidade social" é reconhecer a vitória de todo esse sistema "neo-liberal" que privilegia o capital ao trabalho; o individual ao coletivo.

Precisamos mudar os partidos políticos, mas mudá-los através da participação popular consciente e coletiva. Se, conforme disse o Santo Padre João Paulo II, o Cristão leigo é convocado a participar ativamente da política para a promoção do bem comum, isso se dará pela via de democracia direta, ou seja, através dos partidos políticos.

Somente assim, através da transformação da base e da sociedade para um melhor engajamento político, é que conseguiremos levar à frente a instalação do Reino de Deus em nossa sociedade.

Um forte abraço a todos e a Paz de Cristo!

Robson Campos Leite
Email : feepolitica@terra.com.br

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