"Os partidos políticos e a privatização
dos sonhos"
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso escreveu
recentemente um artigo na revista americana "Foreign Policy" abordando
a relação entre a sociedade e os partidos políticos no Brasil
e no mundo. Nesta matéria, ele sugere que a crise em que os partidos políticos
estão mergulhados é decorrente da falta de envolvimento e articulação
destes com a sociedade. Ele também coloca que o desinteresse da sociedade
pela estrutura partidária como via de democracia direta ocorre única
e exclusivamente pela crise de representatividade dos políticos e dos partidos.
Concordo em parte com o artigo. A constatação da crise de
representativi-dade existente na política atual, em especial no Brasil,
e a falta de articulação dos partidos políticos junto à
sociedade são evidentes e corretas. Entretanto, o que eu gostaria de discordar
e, ao mesmo tempo, trazer para a reflexão da nossa coluna é exatamente
os motivos que levam a essa crise de relacionamento envolvendo os partidos políticos
e a sociedade.
Não vejo a origem do problema do distanciamento entre
os partidos e a sociedade como sendo responsa-bilidade única e exclusiva
da falta de capacidade das organizações partidárias em captar
o desejo da sociedade, conforme afirma o ex-presidente em seu artigo. Muito pelo
contrário, a origem deste distanciamento se dá na própria
sociedade que busca, cada vez mais, o individualismo pregado pelo neo-liberalismo
e claramente condenado na Doutrina Social da Igreja ao invés do coletivismo
e as práticas de promoção do Bem Comum tão claramente
explicitadas como um dever de toda a sociedade, e não apenas dos partidos
políticos. Quantos de nós acabamos nos tornando escravos desse ritmo
desenfreado do capitalismo que nos obriga a lutar com unhas e dentes por uma melhor
preparação para o mercado de trabalho em função do
crescente desemprego mundial que assusta a cada dia? Esse clima de competição
criado pelas "novas relações de trabalho" acentua a competição
e estrangula a capacidade de coletivização dos sonhos. Quem de nós
tem tempo para participar de uma reunião de condomínio ou associação
de bairros? Muito menos de algum partido político ou organização
de terceiro setor. Os MBAs, cursos de extensão, pós-graduação
e etc ocupam todo o tempo que poderia estar sendo reservado para as atividades
ligadas a articulações para melhoria do coletivo. Essa falta de
tempo generalizada faz com que as pessoas escolham os seus representantes na política
como sendo responsabilidade deles suprir a nossa falta de tempo na condução
dos assuntos da nossa sociedade. Com isso, sem a nossa fiscalização
e acompanhamento, os partidos e os mandatos acabam se tornando essas máquinas
eleitorais que funcionam apenas de 4 em 4 anos (ou de 2 em 2 se levarmos em conta
as eleições municipais).
Outro aspecto extremamente relevante
nessa constatação da desarticulação do coletivo é
o egoísmo reinante da nossa sociedade consumista e "neo-liberal".
As pessoas não primam pelo Bem Comum simplesmente porque uma parte considerável
leva a cabo aquele triste ditado já abordado em nossa coluna: "Farinha
pouca, meu pirão primeiro". Essas atitudes, amplamente condenadas
nos princípios da Doutrina Social da Igreja e no próprio Evangelho,
compõem o pecado social que transforma a nossa sociedade nesse sistema
vil e desagregador de valores éticos e morais. O preconceito, a discriminação,
a fome, a violência e o desemprego estão enraizados nessas atitudes
egoístas fomentadas pela corrupção e pela ganância
da própria sociedade. Adaptar os partidos políticos a essa "nova
realidade social" é reconhecer a vitória de todo esse sistema
"neo-liberal" que privilegia o capital ao trabalho; o individual ao
coletivo.
Precisamos mudar os partidos políticos, mas mudá-los
através da participação popular consciente e coletiva. Se,
conforme disse o Santo Padre João Paulo II, o Cristão leigo é
convocado a participar ativamente da política para a promoção
do bem comum, isso se dará pela via de democracia direta, ou seja, através
dos partidos políticos.
Somente assim, através da transformação
da base e da sociedade para um melhor engajamento político, é que
conseguiremos levar à frente a instalação do Reino de Deus
em nossa sociedade.
Um forte abraço a todos e a Paz de Cristo!
Robson
Campos Leite Email : feepolitica@terra.com.br
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