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CARTAS DE PAULO (3)
Introdução às Cartas
A atividade apostólica de Paulo não se esgotou na
evangelização oral, na fundação e direção
de suas Igrejas: tal como os outros Apóstolos - mas em medida
notavelmente mais rica - desenvolveu-se também por escrito,
chegando assim, viva e palpitante, até nós, mediante
o epistolário Paulino.
De início, é importante não se esquecer que
Paulo escreveu antes que fossem redigidos os nossos evangelhos canônicos.
Seus escritos são os primeiros livros do Novo Testamento,
naturalmente ele não tinha essa pretensão, mas o Espírito,
porém
sabia o que estava fazendo.
Assim, Paulo, chamado ao apostolado fora do grupo dos Doze, foi
o primeiro que fixou por escrito - dentre os escritos canônicos
que chegaram até nós - os ensinamentos do Mestre,
dos quais os Doze tinham sido os imediatos depositários.
Paulo fundou outras comunidades além das que conhecemos a
partir dos textos do Novo Testamento. E, pelo que se sabe, grande
parte delas jamais recebeu uma carta. Além disso, deve-se
recordar que as cartas (com raras exceções, como Romanos)
são uma etapa posterior ao contato primeiro, à fundação
e consolidação das comunidades. De modo geral, Paulo
chegava a uma cidade que ainda não se ouvira falar de Jesus
e fundava aí uma comunidade cristã. Dava-lhe uma catequese
básica, um mínimo de organização e encarregava-a
de levar adiante essa proposta, abrindo novas fronteiras.
Quando podia, retornava a essas comunidades, a fim de dar continuidade
ao processo de crescimento e de amadurecimento na fé. Às
vezes, enviava pessoas de sua confiança, a fim de que a caminhada
das comunidades não parasse no tempo e na história.
Não podendo agir dessa forma, enviava uma carta, respondendo
a dúvidas, ajudando a superar tensões, ordenando o
que devia ser feito. As cartas, portanto, são a segunda ou
a terceira etapa na evangelização de uma comunidade
ou cidade, sem nos dar uma visão abrangente da etapa anterior.
Suas cartas, nada mais são do que confirmação
e ampliação da mensagem transmitida de viva voz às
comunidades. As cartas tinham sempre um portador de confiança
que Paulo escolhia.
As cartas de Paulo nascem de uma provocação, ou seja,
são a tentativa de responder a questões próprias
de cada comunidade. Elas respondem a problemas concretos do momento.
Todas elas têm por objetivo iluminar a caminhada das comunidades,
em meio a tensões e conflitos, alegrias, esperanças
e sofrimentos. Nesse sentido, todas as cartas de Paulo são
pastorais, e não apenas as que foram endereçadas a
pastores (Timóteo e Tito). Esse modo de ver as cartas de
Paulo o tira do pedestal de teólogo e o põe no chão
cotidiano da pastoral. Por exemplo, na 1ª carta aos Coríntios,
procura esclarecer conflitos e tensões da comunidade vividos
naquele momento histórico. Esta é a primeira preocupação
de Paulo. Não se trata de um teólogo profissional,
mas de um pastor e agente de pastoral que se sente profundamente
envolvido com a vida da comunidade.
Suas cartas obedecem a um motivo especial: respondem a consultas
que lhe fizeram ou tomam posição frente a acontecimentos
que provocaram a reação do Apóstolo. Sempre
mostram seus sentimentos pessoais ao lado do seu interesse vivo
pela comunidade.
Ainda que tratando eventos triviais, ele aproveitava a carta para
dizer coisas essenciais, aprofundando teologicamente a pregação
oral, completando-a e interpretando-a.
As cartas de Paulo não têm absolutamente a intenção
de competir com as cartas contemporâneas e de brilhar literariamente.
Elas desempenham uma função muito imediata, de utilidade
prática: dar respostas claras, encorajar ou condenar nas
diferentes situações, diante das diferentes exigências,
dos diferentes problemas das comunidades cristãs fundadas
por Paulo.
A maior parte das epístolas de Paulo foram originariamente
ditadas. À redação do texto ditado, Paulo acrescenta
depois, para confirmar a autenticidade da carta, as saudações
e a assinatura do próprio punho: "Vede com que letras
grandes eu vos escrevo, de próprio punho" (Gl 6,11)
" A saudação é do meu próprio punho"
(1 Cor 16,21).
Como naquele tempo era difícil pensar e escrever ao mesmo
tempo, o Apóstolo ditava a um escrevente. Pelo nome conhecemos
apenas um certo Tércio (Rm 16,20) que resolveu colocar por
escrito uma saudação sua, de amamiense, saindo assim
do anonimato. Pode-se supor que uma carta breve como Filemon, tenha
sido escrita por Paulo pessoalmente, mas o uso do escriba era habitual.
As mãos de Paulo estavam mais acostumadas ao tear, ou a outro
instrumento grosseiro, do que a dirigir o estileto ou a pena.
Com exceção do bilhete a Filemon, as cartas paulinas
eram endereçadas à Igreja; e não é apenas
uma suposição que elas eram lidas pelas comunidades
reunidas em assembléia para a celebração litúrgica.
Uma expressa indicação a respeito encontramos na carta
aos Tessalonicenses: "Em nome do Senhor imploro que a carta
seja lida para todos os irmãos" (1 Ts 5,27) e que isso
não seria um caso isolado, mas a norma comum, o que fica
claro pela presença de fórmulas litúrgicas
na introdução e na conclusão das cartas.
Pode-se afirmar, quase com certeza, que Paulo só dispunha
de tempo livre à noite, aliás, quando esta não
fosse ocupada por reuniões do culto e conferências
prolongadas, como em Troade (AT 20,7-10). Durante o dia pregava
e trabalhava.
A tarefa de escrever, na Antiguidade, era difícil e lenta,
pois se usava papiro ou pergaminho, a que se aplicavam estiletes
de plantas ou penas de ganso que exigiam atenção e
habilidades que não eram tão comuns assim. A luz de
azeite era fraca e as posições para escrever sobre
o chão ou almofadas eram muito incomodas.
Os escritos podiam demorar vários dias ou até meses
para se concluírem. Alguns eram redigidos por etapas, com
diversas interrupções no fio das idéias, fatos
estes, que explicavam a falta de conexão entre certas passagens,
a transição brusca de um tema para outro, as repetições,
as mudanças repentinas de estilo e sintaxe do espistolário
Paulino.
Em suas cartas, Paulo interessava-se acima de tudo no conteúdo
dos vocábulos e a doutrina a ser transmitida. A todos impressionava
não tanto pela forma literária, mas pela profundidade
do conteúdo.
Pela sua admirável eloqüência merecem destaque
Rm 8,31-39 o hino de vitória de Cristo; 1 Cor 13,1-13 o hino
à Caridade e 1 Cor 1,18-30 loucura da Cruz.
As cartas de Paulo apresentam a seguinte estrutura, conforme era
uso no helenismo:
Preâmbulo endereço da carta
Agradecimento
Corpo da carta:
a) ensino doutrinal da mensagem de Cristo (querigma).
b) incitamento à conduta de vida cristã.
Conclusão da carta.
Depois da morte do Apóstolo, as comunidades guardaram zelosamente
suas cartas. Algumas, porém se perderam, não sabemos
bem através de quais circunstâncias. As outras foram
recolhidas e o complexo processo levou a fusões de cartas,
nascendo assim, progressivamente, o corpus epistolar Paulino, que
rapidamente atingiu um grau tão grande de autoridade que
passou a ser considerado Sagrada Escritura.
Os Padres Apostólicos já conheciam um complexo de
treze escritos paulinos, e no Fragmento Muratoriano da segunda metade
do século II ela está presente.
Autoria
A Tradição cristã, desde as suas origens reconheceu
a paternidade de Paulo sobre 14 das 21 epístolas do Novo
Testamento. Há mais de um século, quando os estudos
bíblicos começaram a se sofisticar, várias
cartas atribuídas a Paulo tiveram sua autoria contestada.
Surgiram assim dois grupos de cartas: as paulinas e as deuteropaulinas.
Estas últimas são assim chamadas porque se supõe
tenham sido escritas por um discípulo de Paulo, em tempos
e situações diferentes. O primeiro livro do Novo Testamento
a sofrer esse impacto foi a Carta aos Hebreus, cujo autor é
desconhecido.
Um unânime consenso atribui a Paulo sete cartas, sem sombra
de dúvida, são elas: 1 Tessalonicenses, Romanos, 1
e 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses e Filemon. As outras
cartas: Efésios, Colossenses, 2 Tessalonicenses, 1 e 2 Timóteo
e Tito são consideradas deuteropaulinas. Sobre elas pesa
alguma desconfiança à autenticidade de sua autoria.
De qualquer forma em todas se encontra a marca do Apóstolo.
Os escritos foram e permanecem sendo uma voz importante e significativa
do século I. As que estão na Sagrada Escritura foram
reconhecidas como inspiradas por Deus, fonte de Revelação
Cristã, de valor permanente, sendo ou não autenticamente
paulinas.
Os que defendem Paulo como autor de todas as cartas costumam agrupá-las
por temas: Grandes Epístolas, Epístolas do Cativeiro
e Epístolas Pastorais.
Grandes Epístolas são chamadas assim as Cartas aos
Romanos, Gálatas, 1 e 2 Coríntios; escritas todas
durante a terceira viagem missionária (primavera do ano 53
à primavera do ano 58). A elas se une 1 e 2 Tessalonicenses,
ligadas entre si pela data de composição e afinidade
de conteúdo. A fé em Cristo morto e ressuscitado,
como único caminho para a salvação, é,
nas Grandes Epístolas tema de confrontação
como as outras duas vias salvíficas propostas até
então: a "Lei" dos judeus, e a "Sabedoria"
dos gregos. É inquestionável a unidade de doutrina,
estilo e mentalidade transparecendo em todas a forte personalidade
de Paulo.
Epístolas do Cativeiro são chamadas assim as Cartas
aos Filipenses, Filemon, Colossenses e Efésios escritas enquanto
ele esteve prisioneiro no chamado primeiro cativeiro romano (entre
61 e 63). Essas Cartas aprofundam no ser de Jesus: a sua existência
divina eterna, a sua vinda ao mundo, a sua humilhação
até à morte na cruz, a sua exaltação
como Senhor e a sua mediação na obra da criação
e salvação. Toma então consciência da
projeção "cósmica" da Redenção
que realiza, e da dimensão "eclesiológica"
da salvação através da metáfora do "corpo",
acrescentando a imagem da "cabeça" e dos "membros".
Ninguém se pode salvar por si próprio, senão
com o auxílio da "comunidade de salvação",
a Igreja. E ao refletir sobre Cristo, esposo da Igreja na Nova Aliança,
projeta a sua luz sobre a natureza do matrimonio cristão.
Epístolas Pastorais são chamadas assim as cartas 1
e 2 Timóteo e Tito. São assim chamadas porque se dirigem
a pastores de comunidades, aos quais propõe conselhos e instruções,
normas administrativas, tratando principalmente dos deveres pastorais
dos endereçados. Contém diretrizes sobre a cura das
almas, a luta contra as heresias e a organização da
hierarquia. São dirigidas a dois dos mais íntimos
colaboradores de Paulo, Timóteo e Tito. Nas Cartas Pastorais
a noção de salvação é já
fundamental. Deus é mencionado como o Salvador, que "quer
que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade".
Este querer divino constitui um plano que foi manifestado e realizado
por Jesus Cristo, o único Mediador que veio ao mundo para
salvar os pecadores. Estas Cartas servem como ponte entre o "corpus"
Paulino e as "Cartas Católicas".Em todas são
dadas instruções sobre a vida cristã; o exercício
da piedade é contemplado dum ponto de vista cristológico
que assinala a imitação de Jesus Cristo-modelo.
Data
A tentativa de datar as cartas de Paulo é cheia de riscos.
Naquele tempo não era costume iniciar uma carta citando o
local e a data em que se está escrevendo. Temos, portanto,
hipóteses e datas aproximativas, elas serão vistas
oportunamente em cada carta. Todos os estudiosos antigos e modernos
estão de acordo em que as duas primeiras cartas de Paulo
foram a 1 e 2 aos Tessalonicenses, escritas em Corinto, nos anos
50-52, mais ou menos 20 anos depois da morte de Jesus, sendo portanto
os dois escritos mais antigos do Novo Testamento.
Ordem
A ordem em que costumam ser editadas, nas nossas Bíblias,
as Epístolas de Paulo, é artificial, não tendo
nada a ver com a ordem cronológica. Agrupam-se, em primeiro
lugar, as dirigidas às diversas comunidades; depois as enviadas
a pessoas particulares. A ordem dentro deste agrupamento atém-se
à extensão delas, vai da maior (Rm) para a menor (Fm)
e à freqüência do seu uso na literatura Cristã.
Continua no próximo número.
Jane do Térsio
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