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Vamos conhecer a Bíblia | DEZEMBRO


CARTAS DE PAULO (3)

Introdução às Cartas

A atividade apostólica de Paulo não se esgotou na evangelização oral, na fundação e direção de suas Igrejas: tal como os outros Apóstolos - mas em medida notavelmente mais rica - desenvolveu-se também por escrito, chegando assim, viva e palpitante, até nós, mediante o epistolário Paulino.

De início, é importante não se esquecer que Paulo escreveu antes que fossem redigidos os nossos evangelhos canônicos. Seus escritos são os primeiros livros do Novo Testamento, naturalmente ele não tinha essa pretensão, mas o Espírito, porém
sabia o que estava fazendo.

Assim, Paulo, chamado ao apostolado fora do grupo dos Doze, foi o primeiro que fixou por escrito - dentre os escritos canônicos que chegaram até nós - os ensinamentos do Mestre, dos quais os Doze tinham sido os imediatos depositários.

Paulo fundou outras comunidades além das que conhecemos a partir dos textos do Novo Testamento. E, pelo que se sabe, grande parte delas jamais recebeu uma carta. Além disso, deve-se recordar que as cartas (com raras exceções, como Romanos) são uma etapa posterior ao contato primeiro, à fundação e consolidação das comunidades. De modo geral, Paulo chegava a uma cidade que ainda não se ouvira falar de Jesus e fundava aí uma comunidade cristã. Dava-lhe uma catequese básica, um mínimo de organização e encarregava-a de levar adiante essa proposta, abrindo novas fronteiras.

Quando podia, retornava a essas comunidades, a fim de dar continuidade ao processo de crescimento e de amadurecimento na fé. Às vezes, enviava pessoas de sua confiança, a fim de que a caminhada das comunidades não parasse no tempo e na história. Não podendo agir dessa forma, enviava uma carta, respondendo a dúvidas, ajudando a superar tensões, ordenando o que devia ser feito. As cartas, portanto, são a segunda ou a terceira etapa na evangelização de uma comunidade ou cidade, sem nos dar uma visão abrangente da etapa anterior. Suas cartas, nada mais são do que confirmação e ampliação da mensagem transmitida de viva voz às comunidades. As cartas tinham sempre um portador de confiança que Paulo escolhia.
As cartas de Paulo nascem de uma provocação, ou seja, são a tentativa de responder a questões próprias de cada comunidade. Elas respondem a problemas concretos do momento. Todas elas têm por objetivo iluminar a caminhada das comunidades, em meio a tensões e conflitos, alegrias, esperanças e sofrimentos. Nesse sentido, todas as cartas de Paulo são pastorais, e não apenas as que foram endereçadas a pastores (Timóteo e Tito). Esse modo de ver as cartas de Paulo o tira do pedestal de teólogo e o põe no chão cotidiano da pastoral. Por exemplo, na 1ª carta aos Coríntios, procura esclarecer conflitos e tensões da comunidade vividos naquele momento histórico. Esta é a primeira preocupação de Paulo. Não se trata de um teólogo profissional, mas de um pastor e agente de pastoral que se sente profundamente envolvido com a vida da comunidade.

Suas cartas obedecem a um motivo especial: respondem a consultas que lhe fizeram ou tomam posição frente a acontecimentos que provocaram a reação do Apóstolo. Sempre mostram seus sentimentos pessoais ao lado do seu interesse vivo pela comunidade.

Ainda que tratando eventos triviais, ele aproveitava a carta para dizer coisas essenciais, aprofundando teologicamente a pregação oral, completando-a e interpretando-a.

As cartas de Paulo não têm absolutamente a intenção de competir com as cartas contemporâneas e de brilhar literariamente. Elas desempenham uma função muito imediata, de utilidade prática: dar respostas claras, encorajar ou condenar nas diferentes situações, diante das diferentes exigências, dos diferentes problemas das comunidades cristãs fundadas por Paulo.

A maior parte das epístolas de Paulo foram originariamente ditadas. À redação do texto ditado, Paulo acrescenta depois, para confirmar a autenticidade da carta, as saudações e a assinatura do próprio punho: "Vede com que letras grandes eu vos escrevo, de próprio punho" (Gl 6,11) " A saudação é do meu próprio punho" (1 Cor 16,21).

Como naquele tempo era difícil pensar e escrever ao mesmo tempo, o Apóstolo ditava a um escrevente. Pelo nome conhecemos apenas um certo Tércio (Rm 16,20) que resolveu colocar por escrito uma saudação sua, de amamiense, saindo assim do anonimato. Pode-se supor que uma carta breve como Filemon, tenha sido escrita por Paulo pessoalmente, mas o uso do escriba era habitual. As mãos de Paulo estavam mais acostumadas ao tear, ou a outro instrumento grosseiro, do que a dirigir o estileto ou a pena.

Com exceção do bilhete a Filemon, as cartas paulinas eram endereçadas à Igreja; e não é apenas uma suposição que elas eram lidas pelas comunidades reunidas em assembléia para a celebração litúrgica. Uma expressa indicação a respeito encontramos na carta aos Tessalonicenses: "Em nome do Senhor imploro que a carta seja lida para todos os irmãos" (1 Ts 5,27) e que isso não seria um caso isolado, mas a norma comum, o que fica claro pela presença de fórmulas litúrgicas na introdução e na conclusão das cartas.

Pode-se afirmar, quase com certeza, que Paulo só dispunha de tempo livre à noite, aliás, quando esta não fosse ocupada por reuniões do culto e conferências prolongadas, como em Troade (AT 20,7-10). Durante o dia pregava e trabalhava.
A tarefa de escrever, na Antiguidade, era difícil e lenta, pois se usava papiro ou pergaminho, a que se aplicavam estiletes de plantas ou penas de ganso que exigiam atenção e habilidades que não eram tão comuns assim. A luz de azeite era fraca e as posições para escrever sobre o chão ou almofadas eram muito incomodas.

Os escritos podiam demorar vários dias ou até meses para se concluírem. Alguns eram redigidos por etapas, com diversas interrupções no fio das idéias, fatos estes, que explicavam a falta de conexão entre certas passagens, a transição brusca de um tema para outro, as repetições, as mudanças repentinas de estilo e sintaxe do espistolário Paulino.

Em suas cartas, Paulo interessava-se acima de tudo no conteúdo dos vocábulos e a doutrina a ser transmitida. A todos impressionava não tanto pela forma literária, mas pela profundidade do conteúdo.

Pela sua admirável eloqüência merecem destaque Rm 8,31-39 o hino de vitória de Cristo; 1 Cor 13,1-13 o hino à Caridade e 1 Cor 1,18-30 loucura da Cruz.

As cartas de Paulo apresentam a seguinte estrutura, conforme era uso no helenismo:

Preâmbulo endereço da carta
Agradecimento
Corpo da carta:
a) ensino doutrinal da mensagem de Cristo (querigma).
b) incitamento à conduta de vida cristã.

Conclusão da carta.
Depois da morte do Apóstolo, as comunidades guardaram zelosamente suas cartas. Algumas, porém se perderam, não sabemos bem através de quais circunstâncias. As outras foram recolhidas e o complexo processo levou a fusões de cartas, nascendo assim, progressivamente, o corpus epistolar Paulino, que rapidamente atingiu um grau tão grande de autoridade que passou a ser considerado Sagrada Escritura.
Os Padres Apostólicos já conheciam um complexo de treze escritos paulinos, e no Fragmento Muratoriano da segunda metade do século II ela está presente.


Autoria

A Tradição cristã, desde as suas origens reconheceu a paternidade de Paulo sobre 14 das 21 epístolas do Novo Testamento. Há mais de um século, quando os estudos bíblicos começaram a se sofisticar, várias cartas atribuídas a Paulo tiveram sua autoria contestada.

Surgiram assim dois grupos de cartas: as paulinas e as deuteropaulinas. Estas últimas são assim chamadas porque se supõe tenham sido escritas por um discípulo de Paulo, em tempos e situações diferentes. O primeiro livro do Novo Testamento a sofrer esse impacto foi a Carta aos Hebreus, cujo autor é desconhecido.

Um unânime consenso atribui a Paulo sete cartas, sem sombra de dúvida, são elas: 1 Tessalonicenses, Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses e Filemon. As outras cartas: Efésios, Colossenses, 2 Tessalonicenses, 1 e 2 Timóteo e Tito são consideradas deuteropaulinas. Sobre elas pesa alguma desconfiança à autenticidade de sua autoria.

De qualquer forma em todas se encontra a marca do Apóstolo. Os escritos foram e permanecem sendo uma voz importante e significativa do século I. As que estão na Sagrada Escritura foram reconhecidas como inspiradas por Deus, fonte de Revelação Cristã, de valor permanente, sendo ou não autenticamente paulinas.

Os que defendem Paulo como autor de todas as cartas costumam agrupá-las por temas: Grandes Epístolas, Epístolas do Cativeiro e Epístolas Pastorais.

Grandes Epístolas são chamadas assim as Cartas aos Romanos, Gálatas, 1 e 2 Coríntios; escritas todas durante a terceira viagem missionária (primavera do ano 53 à primavera do ano 58). A elas se une 1 e 2 Tessalonicenses, ligadas entre si pela data de composição e afinidade de conteúdo. A fé em Cristo morto e ressuscitado, como único caminho para a salvação, é, nas Grandes Epístolas tema de confrontação como as outras duas vias salvíficas propostas até então: a "Lei" dos judeus, e a "Sabedoria" dos gregos. É inquestionável a unidade de doutrina, estilo e mentalidade transparecendo em todas a forte personalidade de Paulo.

Epístolas do Cativeiro são chamadas assim as Cartas aos Filipenses, Filemon, Colossenses e Efésios escritas enquanto ele esteve prisioneiro no chamado primeiro cativeiro romano (entre 61 e 63). Essas Cartas aprofundam no ser de Jesus: a sua existência divina eterna, a sua vinda ao mundo, a sua humilhação até à morte na cruz, a sua exaltação como Senhor e a sua mediação na obra da criação e salvação. Toma então consciência da projeção "cósmica" da Redenção que realiza, e da dimensão "eclesiológica" da salvação através da metáfora do "corpo", acrescentando a imagem da "cabeça" e dos "membros". Ninguém se pode salvar por si próprio, senão com o auxílio da "comunidade de salvação", a Igreja. E ao refletir sobre Cristo, esposo da Igreja na Nova Aliança, projeta a sua luz sobre a natureza do matrimonio cristão.

Epístolas Pastorais são chamadas assim as cartas 1 e 2 Timóteo e Tito. São assim chamadas porque se dirigem a pastores de comunidades, aos quais propõe conselhos e instruções, normas administrativas, tratando principalmente dos deveres pastorais dos endereçados. Contém diretrizes sobre a cura das almas, a luta contra as heresias e a organização da hierarquia. São dirigidas a dois dos mais íntimos colaboradores de Paulo, Timóteo e Tito. Nas Cartas Pastorais a noção de salvação é já fundamental. Deus é mencionado como o Salvador, que "quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade". Este querer divino constitui um plano que foi manifestado e realizado por Jesus Cristo, o único Mediador que veio ao mundo para salvar os pecadores. Estas Cartas servem como ponte entre o "corpus" Paulino e as "Cartas Católicas".Em todas são dadas instruções sobre a vida cristã; o exercício da piedade é contemplado dum ponto de vista cristológico que assinala a imitação de Jesus Cristo-modelo.


Data
A tentativa de datar as cartas de Paulo é cheia de riscos. Naquele tempo não era costume iniciar uma carta citando o local e a data em que se está escrevendo. Temos, portanto, hipóteses e datas aproximativas, elas serão vistas oportunamente em cada carta. Todos os estudiosos antigos e modernos estão de acordo em que as duas primeiras cartas de Paulo foram a 1 e 2 aos Tessalonicenses, escritas em Corinto, nos anos 50-52, mais ou menos 20 anos depois da morte de Jesus, sendo portanto os dois escritos mais antigos do Novo Testamento.


Ordem
A ordem em que costumam ser editadas, nas nossas Bíblias, as Epístolas de Paulo, é artificial, não tendo nada a ver com a ordem cronológica. Agrupam-se, em primeiro lugar, as dirigidas às diversas comunidades; depois as enviadas a pessoas particulares. A ordem dentro deste agrupamento atém-se à extensão delas, vai da maior (Rm) para a menor (Fm) e à freqüência do seu uso na literatura Cristã.

Continua no próximo número.

Jane do Térsio

 
 
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