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Há
dois mil anos um menino nasce numa gruta, na cidadezinha de Belém.
Sua mãe Maria ainda grávida e seu pai adotivo José,
para lá viajaram atendendo a um decreto do imperador romano
César Augusto para o recenseamento. O imperador morava em
Roma, a aproximadamente três mil quilômetros de distância.
Ignorava completamente o sacrifício que imporia a milhares
de pessoas frágeis e doentes. Mas era ele quem mandava a
ferro e a fogo, e assim foi feito.
A viagem do casal foi de Nazaré a Belém. Considerando
o estado da jovem mãe e os meios de locomoção
da época um jumento ou a pé porque eram pobres é
de se supor que não pôde ser rápida. Maria completava
seu último mês de gravidez. E o percurso era de 120
km. Quantos dias levaram? Certamente muitos dias. Vento, pó,
a fome, o frio da noite, o medo de assaltantes... as dores nos pés,
nas pernas... Que viagem, Santo Deus!...
Triste é que em lá chegando não havia lugar
para eles nas hospedarias. Não dá para imaginar que
José, um homem justo, tivesse procurado uma só e não
tivesse insistido em todas elas. Nem dá para dizer que uma
jovem como Maria não demonstrasse desconforto e cansaço
em andar e sentar-se. As grávidas são cheias de cuidados.
E com razão. E todo mundo percebe isso.
Aí começa um novo drama . Depois de procurar em todas
as vielas e becos de Belém e receber irredutíveis
"nãos" , o que fazer? Voltar a insistir? Qualquer
um se cansa de tentar mostrar o óbvio. A necessidade de ambos,
ou melhor, dos três, já era por demais evidente. O
que fazer? Onde ir? Até passa por nossa cabeça: não
gostaríamos de estar na pele deles. Só que o menino
que ia nascer estava na pele nossa, na pele da nossa humanidade.
O que será que ambos conversaram? Pela santidade deles penso
que eles rezaram, talvez o Salmo 117,1: " É melhor buscar
refúgio no Senhor, do que contar com os homens, do que contar
com os poderosos."
Contar com a "compreensão" e "boa vontade"
dos estalajeiros não dava. Nem pensar mais neles. Ninguém
queria perder a oportunidade de faturar com tanta gente chegando.
É claro , não havia lugar.. Se até houvesse
lugar sobrando, quem sabe...? Mas outra coisa soava como prioritária...
a moeda, ou melhor, as muitas moedas.
Nos arredores de Belém os pastores aproveitavam as grutas
das encostas escarpadas para acomodar os rebanhos. Lá colocavam
forragens em manjedouras para alimentar os animais no inverno.
Numa dessas grutas, numa dessas manjedouras, numa noite fria, nasce
Jesus. Como todo bebê cujos pais aguardavam com muito carinho
e com muito amor Ele nasce e é envolto em simples faixas.
Quase a gente arrisca a dizer, como um simples mortal. Mas não
era exatamente. Era divino. A Bíblia diz, seu nome é
Deus Conosco. Filho do Altíssimo, herdará o trono
do Rei Davi, poderoso Salvador, o Cristo Senhor.
Ora, é claro que se os donos de pensões e hotéis
de Belém soubessem quem era o menino que ia nascer até
despediriam algum hóspede e providenciariam o melhor quarto
e a melhor parteira da cidade. É, certamente nenhum cidadão
deixaria de improvisar um quarto a tão ilustre conterrâneo.
Já pensaram que marketing maravilhoso, ficar para a história,
com placa comemorativa e tudo: Hospedaria Belém acolhe jovem
de Nazaré, grávida, e ali nasce o Cristo, o Messias?
É, certamente ninguém perderia esta chance. Esse hotel
ficaria então permanentemente lotado, lucro líquido
e certo.
Jesus cresceu, se tornou adulto. Nas histórias familiares
certamente José e Maria contaram a ele como foi a viagem
antes do nascimento, como foi a recepção em Belém
e onde ele havia nascido.
Como o leitor se sentiria se soubesse que seu pai e sua mãe
tivessem passado pelo constrangimento de Maria e José? No
caso de Jesus já sabemos. Sem o mínimo trauma, sem
raivas ele mostrou que o certo é acolher. Acolheu a todos
que a sociedade egoísta e individualista excluía e
marginalizava. Acolheu aos pobres, aos que choravam, aos humildes,
aos injustiçados, acolheu aos de coração puro,
aos pacíficos, aos perseguidos e difamados por causa da justiça.
Até acolheu aos pecadores arrependidos... Acolher um pequenino
que simboliza o extremamente dependente é acolher o próprio
Messias, é acolher o Pai do céu (Mc 9,27).
O Natal é um acontecimento muito especial por isso ele levanta
questões.
O que dizer de uma sociedade "cristã" que não
acolhe os pequeninos?
O que dizer de "cristãos" que vão festejar
o natal estão "nem aí" com quem vem de longe,
com fome e cansados?
Nem precisa responder, porque o nosso texto é só para
pensar! Pensar! Pensar!........
Cláudio Gregianin
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