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Natal só para pensar, pensar em acolher... | DEZEMBRO


Há dois mil anos um menino nasce numa gruta, na cidadezinha de Belém. Sua mãe Maria ainda grávida e seu pai adotivo José, para lá viajaram atendendo a um decreto do imperador romano César Augusto para o recenseamento. O imperador morava em Roma, a aproximadamente três mil quilômetros de distância. Ignorava completamente o sacrifício que imporia a milhares de pessoas frágeis e doentes. Mas era ele quem mandava a ferro e a fogo, e assim foi feito.

A viagem do casal foi de Nazaré a Belém. Considerando o estado da jovem mãe e os meios de locomoção da época um jumento ou a pé porque eram pobres é de se supor que não pôde ser rápida. Maria completava seu último mês de gravidez. E o percurso era de 120 km. Quantos dias levaram? Certamente muitos dias. Vento, pó, a fome, o frio da noite, o medo de assaltantes... as dores nos pés, nas pernas... Que viagem, Santo Deus!...

Triste é que em lá chegando não havia lugar para eles nas hospedarias. Não dá para imaginar que José, um homem justo, tivesse procurado uma só e não tivesse insistido em todas elas. Nem dá para dizer que uma jovem como Maria não demonstrasse desconforto e cansaço em andar e sentar-se. As grávidas são cheias de cuidados. E com razão. E todo mundo percebe isso.

Aí começa um novo drama . Depois de procurar em todas as vielas e becos de Belém e receber irredutíveis "nãos" , o que fazer? Voltar a insistir? Qualquer um se cansa de tentar mostrar o óbvio. A necessidade de ambos, ou melhor, dos três, já era por demais evidente. O que fazer? Onde ir? Até passa por nossa cabeça: não gostaríamos de estar na pele deles. Só que o menino que ia nascer estava na pele nossa, na pele da nossa humanidade. O que será que ambos conversaram? Pela santidade deles penso que eles rezaram, talvez o Salmo 117,1: " É melhor buscar refúgio no Senhor, do que contar com os homens, do que contar com os poderosos."

Contar com a "compreensão" e "boa vontade" dos estalajeiros não dava. Nem pensar mais neles. Ninguém queria perder a oportunidade de faturar com tanta gente chegando. É claro , não havia lugar.. Se até houvesse lugar sobrando, quem sabe...? Mas outra coisa soava como prioritária... a moeda, ou melhor, as muitas moedas.

Nos arredores de Belém os pastores aproveitavam as grutas das encostas escarpadas para acomodar os rebanhos. Lá colocavam forragens em manjedouras para alimentar os animais no inverno.
Numa dessas grutas, numa dessas manjedouras, numa noite fria, nasce Jesus. Como todo bebê cujos pais aguardavam com muito carinho e com muito amor Ele nasce e é envolto em simples faixas. Quase a gente arrisca a dizer, como um simples mortal. Mas não era exatamente. Era divino. A Bíblia diz, seu nome é Deus Conosco. Filho do Altíssimo, herdará o trono do Rei Davi, poderoso Salvador, o Cristo Senhor.

Ora, é claro que se os donos de pensões e hotéis de Belém soubessem quem era o menino que ia nascer até despediriam algum hóspede e providenciariam o melhor quarto e a melhor parteira da cidade. É, certamente nenhum cidadão deixaria de improvisar um quarto a tão ilustre conterrâneo. Já pensaram que marketing maravilhoso, ficar para a história, com placa comemorativa e tudo: Hospedaria Belém acolhe jovem de Nazaré, grávida, e ali nasce o Cristo, o Messias? É, certamente ninguém perderia esta chance. Esse hotel ficaria então permanentemente lotado, lucro líquido e certo.

Jesus cresceu, se tornou adulto. Nas histórias familiares certamente José e Maria contaram a ele como foi a viagem antes do nascimento, como foi a recepção em Belém e onde ele havia nascido.

Como o leitor se sentiria se soubesse que seu pai e sua mãe tivessem passado pelo constrangimento de Maria e José? No caso de Jesus já sabemos. Sem o mínimo trauma, sem raivas ele mostrou que o certo é acolher. Acolheu a todos que a sociedade egoísta e individualista excluía e marginalizava. Acolheu aos pobres, aos que choravam, aos humildes, aos injustiçados, acolheu aos de coração puro, aos pacíficos, aos perseguidos e difamados por causa da justiça. Até acolheu aos pecadores arrependidos... Acolher um pequenino que simboliza o extremamente dependente é acolher o próprio Messias, é acolher o Pai do céu (Mc 9,27).

O Natal é um acontecimento muito especial por isso ele levanta questões.

O que dizer de uma sociedade "cristã" que não acolhe os pequeninos?

O que dizer de "cristãos" que vão festejar o natal estão "nem aí" com quem vem de longe, com fome e cansados?

Nem precisa responder, porque o nosso texto é só para pensar! Pensar! Pensar!........

Cláudio Gregianin

 
 
VEJA NO MÊS DE DEZEMBRO/2003:

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