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Evangelho de João (6)
Glorificação de Jesus A Hora
Em vários momentos, João faz referência à
hora de Jesus. Nas Bodas de Caná diz que sua hora ainda não
chegou. A hora de Jesus é sem dúvida exatamente a
da sua Páscoa (13,1;17,1). O acontecimento de sua Paixão,
Morte e Res-surreição formam um todo uno e indissolúvel.
A hora é esse momento em que Jesus é, ao mesmo tempo,
elevado à cruz, que parece a hora das trevas e é na
realidade a hora da glória. A cruz é a passagem para
a glória. Ao morrer transparece a glória do Pai, que
é amor e fidelidade até o fim.
Por diversas vezes tentam prender Jesus, mas só o conseguem
quando chega a hora. Ele próprio reconhece este momento e
toma a iniciativa de ir para o Horto das Oliveiras onde será
preso. Ele se perturba diante dessa hora de sofrimento mas imediatamente
aflora à sua consciência o significado profundo dessa
hora: " mas foi precisamente para esta hora que eu vim"
(12,27). É nesta hora que sua missão chega à
sua realização máxima. Dentro desta perspectiva,
compreende-se que João nos capítulos 18 e 19 não
faça menção à agonia no horto, fale
pouquíssimo das humilhações sofridas por Jesus,
e omita qualquer alusão às trevas no momento da crucifixão.
João desde o início do seu Evangelho afirma que a
glória de Deus se manifestou em Jesus (1,14) foi nEle que
o próprio Deus se tornou definitivamente visível,
pronunciável, atingível; Ele é a manifestação
suprema do Pai: Jesus é o Filho que revela ao mundo o mistério
do amor do Pai. Ora, este amor atinge sua expressão máxima
precisamente na cruz. O amor de Deus revela o seu esplendor e a
sua força vitoriosa, a sua glória.
Contra todas as aparências, a morte de Jesus é na realidade
instauração da sua realeza: Pilatos o declara Rei
(18,36s) e manda fazer um letreiro: Jesus Nazareno Rei dos Judeus
(19,19-22) e o príncipe deste mundo será derrotado.
(12,31-33), isto porque à cruz se segue a ressurreição.
Na cruz o Cristo aparece plenamente obediente, transparente ao Pai,
em tudo e por tudo a sua imagem, capaz da mais completa doação.
A hora da morte e ressurreição tem um valor revelatório,
soteriológico e escatológico:
Revelatório - ir ao Pai é a revelação
mais do que manifesta dEle ter saído do Pai. A glória
que recebe é a glória de Deus, seu Pai, que Ele possuía
desde antes da criação.
Salvífico consiste no seguinte: morrendo, Jesus possui a
plenitude da vida e dá a vida aos que nEle crêem.
Soteriológico consiste nisto: agora o Filho do Homem é
julgado (12,31), é glorificado, isto é, daqui em diante,
a ação de Jesus já esta cheia de sua glória
e dos plenos poderes do Filho do Homem, o juiz dos últimos
tempos; a hora é o início do fim dos tempos.
Igreja
Em João existe um senso vivo de Igreja, ele não ignora
as grandes imagens eclesiológicas: reino, povo de Deus, rebanho
etc. Ele a vê de seu peculiar ponto de vista; ele vê
a Igreja em Cristo, ou seja, a Igreja é o Cristo morto e
ressuscitado que continua sua atuação. Cristo personifica
e recapitula a Igreja. João tem a convicção
de que Jesus continua hoje realizando na Igreja os gestos realizados
na sua vida terrena. Para ele, a Igreja está toda incluída
em Cristo (cap. 15); ela nasce da cruz de Cristo (12,32ss); nela,
através de Cristo, prolonga-se o diálogo trinitário
(17,20ss).
A Igreja e os sacramentos aparecem neste Evangelho como parte essencial
da vida em Cristo, a vida em seu nome (20,31), a vida eterna, o
poder de nos tornarmos filhos de Deus ( 1,12). Assim, a imagem da
verdadeira videira cujos ramos somos nós (cap. 15) exprime
o mistério da união com Cristo na Igreja e contém
uma alusão a que ela é o novo Povo de Deus . O mesmo
se diga da alegoria do Bom Pastor e do seu rebanho (10,1-18), onde
aparece a nota da sua expansão e da sua unidade: um só
rebanho e um só pastor (10,16 cf 17,20-23); a Pedro é
confiada a missão de apascentar todo o rebanho, cordeiros
e ovelhas (21,15-17)
Sinais e Simbolismo
A linguagem deste Evangelho é altamente simbólica:
Jesus se apresenta como Luz (8,12;9,5), Ressurreição
e Vida (11,25), Caminho, Verdade e Vida ( 14,6) Pastor (10,11) Porta
(10,7.9) Pão da Vida (6,35) Pão Vivo ( 6,51).
Nos acontecimentos narrados notam-se muitos sinais, assim, por exemplo,
em Caná , a abundância exagerada do vinho revela, em
forma de sinal, os bens salvíficos que a sua hora operará.
Além disso a transformação da água em
vinho simboliza a passagem do Antigo para o Novo Testamento; João
Batista chama Jesus de esposo (3,29). A imagem que no Antigo Testamento
serviu para traduzir a relação entre Javé e
seu povo. No quadro dos sinais, estão duas belas cenas de
diálogo com Nicodemos e com a Samaritana.
Sacramentos
João refere-se aos sacramentos em narrações
que evidenciam motivos cristológicos, especialmente a cruz
e a ressurreição, O fato é que ele não
relaciona os sacramentos com um momento ou mandamento particular
de Cristo, mas com o evento Cristo em sua globalidade, cujo centro
é exatamente a cruz e a ressurreição; ao mesmo
tempo, que significa que os sacramentos fazem o fiel participar
do mistério de Cristo em sua totalidade. João afirma
que antes dos sacramentos vem a fé e nos sacramentos o que
importa é encontrar a pessoa de Cristo e a Ele aderir.
Dos sete sacramentos o Quarto Evangelho faz referência de
modo explícito ao Batismo, Eucaristia e Penitência,
os outros não o faz a não ser de modo indireto.
No que se refere ao Batismo a conversa com Nicodemos (3,1-21) é
considerada como uma verdadeira catequese batismal: é preciso
nascer de novo da água e do Espírito para poder entrar
no Reino dos Céus. Também o episódio da piscina
de Betesda (5) prefigura o rito batismal da Igreja primitiva.
O capítulo 6 é praticamente dedicado à Eucaristia:
o milagre da multiplicação dos pães e peixes
serve para expor com amplitude a doutrina do Pão da Vida,
o Pão descido do céu que dá a vida eterna.
Quanto à Confirmação recolhe a promessa de
Jesus de enviar o Espírito Santo aos Apóstolos (14,26;
16,13) que os confirmará na missão confiada e os guiará
para a verdade plena.
No que diz respeito ao Matrimônio nas Bodas de Caná
(3,1-11) O Senhor ao aceitar o convite para o casamento, quis dar
maior realce e confirmar de novo que o matrimônio é
obra Sua, diz Santo Agostinho.
Quanto à Ordem, é tida em conta na "Oração
sacerdotal de Jesus" (17), em que o Senhor intercede como Sumo
Sacerdote diante do Pai Eterno por todos os Seus e se oferece como
vítima para que também eles sejam santificados na
verdade (17,19).
No sacramento da Penitência é mencionado quando o Senhor
ressuscitado aparece aos apóstolos no Cenáculo: "Como
o Pai me enviou, também Eu vos envio. Dizendo isso, soprou
sobre eles e lhes disse: "recebei o Espírito Santo.
Aqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados;
aqueles aos quais retiverdes ser-lhes-ão retidos" (20,21-23).
Maria
João descreve as personagens femininas com fina sensibilidade:
a samaritana, Marta e Maria de Betania, Maria Madalena e principalmente
Maria, a Mãe de Jesus.
No Prólogo, ao dizer que o Verbo se fez carne, a figura da
Mãe de Deus oculta-se discreta entre linhas. É o papel
ordinário de Maria no Evangelho: passar despercebida, especialmente
nos momentos de glória do Filho. Depois, como nenhuma outra
criatura, participará do triunfo de Cristo, e será
também João quem a descreve em todo o seu esplendor
no livro do Apocalipse (12,1) "um grande sinal apareceu no
céu: uma mulher vestida com o sol, tendo a lua sob os pés
e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas".
Ela é mencionada em duas cenas extremamente significativas:
2,1-11 narra as Bodas de Caná onde ela aparece no seu papel
de intercessora atenta e em 19,25-27 a presença de Maria
no Calvário como corredentora junto à cruz. Ambos
os relatos tem entre si um claro paralelismo. Ela é a referência
de Jesus ao entrar e ao sair da sua atividade pública.
Ela é chamada de Mulher: a maioria dos estudiosos veem neste
título uma clara alusão ao "Proto-Evangelho":
Maria é a nova Eva, num paralelismo semelhante ao que se
dá entre Adão e Jesus. Ela é mãe da
nova humanidade resgatada.
O Quarto Evangelho contempla a maternidade divina de Maria em toda
a sua plenitude. Mãe não só da Cabeça
mas também de todos os membros do Corpo Místico de
Cristo. Jesus moribundo entrega ao discípulo o que mais ama:
sua Mãe. Ao fazer isso Jesus não se limita a cuidar
de que sua Mãe não fique desamparada com a morte do
Filho único: acima de tudo, quer proclamar a sua maternidade
espiritual sobre todos os redimidos. Este é o momento em
que a corredenção da Virgem Maria adquire toda a sua
força e sentido. A Virgem Santíssima é constituída
Mãe espiritual de todos os crentes. O discípulo amado
representa aqueles que seguirão o Mestre e no Apóstolo
João recebem Maria como Mãe. Só depois disso,
Jesus dá por consumada a sua missão (19,28).
Escatologia
Quanto à Escatologia João insiste mais na salvação
presente do que na consumação futura. O Quarto Evangelho
é um enérgico e poderoso apelo a viver o presente,
a permanecer fiel ao hoje, porque a plenitude da graça e
da verdade, aparecida em Jesus Cristo, é tão disponível
hoje quanto ontem, e mais do que ontem, porque a perfeição
dos bens futuros é dada à fé hoje, como o será
amanhã.
Alguns Textos Seletos
Dos sete milagres narrados no livro cinco não constam nos
Sinóticos:
2,1-11 Bodas de Caná
4,46-54 cura do filho do funcionário real de Cafarnaum
5,1-9 cura de um enfermo na piscina de Betesda
6,1-13 - multiplicação dos pães as margens
do lago
6,16-21- Jesus caminha sobre as águas do lago.
9,1-7 cura de um cego em Jerusalém
11,33-34- ressurreição de Lázaro.
Somente os do capítulo 6 estão também nos Sinóticos
Outros textos:
1,1-18 Prólogo
3,1-21 Diálogo com Nicodemos
4,1-42 - Encontro com a Samaritana
5,19-47 Discurso sobre a obra do Filho.
10,1-18 O Bom Pastor
13,1-16 - O lava-pés
17,1-26 Oração de Jesus
Que nós possamos, como o discípulo amado, sentir o
que é amar a Jesus e por Ele ser amado.
Jane do Tércio
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