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Em quem votar | AGOSTO

Quero deixar bem claro que este artigo expressa exclusivamente a minha opinião pessoal. Desta vez, não estou falando em nome da Igreja, como é meu costume. Isso não significa que minha opinião não esteja de acordo com a da Igreja, mas sim que nunca vi ninguém abordar o assunto por esse ponto de vista. O que desejo dizer, nunca li em nenhum documento...

Não é de hoje que a Igreja vem tentando e conseguindo derrubar o antigo preconceito segundo o qual Igreja e Política seriam realidades incompatíveis, e que levava a considerar a política como coisa pecaminosa e suja, campo de trabalho proibido, portanto, para os cristãos dignos desse nome.

Isso já está superado. Graças a Deus, hoje, a Igreja compreende ser seu dever formar a consciência política dos católicos, para que exerçam sua cidadania e cumpram seu dever de ser agentes transformadores da sociedade. A justiça e a fraternidade, a "vida em abundância" que Jesus veio trazer para todos, não se tornarão realidade sem envolver as estruturas sociais, políticas e econômicas...

Este ano, iremos eleger novos governantes para o nosso país. E, mais uma vez, a Igreja vem procurando orientar a população sobre os critérios que devem nortear a escolha dos candidatos a quem daremos nossos votos. Saiu um documento da CNBB sobre esse assunto, com o título: "Eleições 2002 Propostas para Reflexão", que já vem sendo estudado nas paróquias de nossa diocese.

O documento apresenta a situação atual do Brasil e do mundo, os problemas que precisam ser superados, os pontos positivos e sinais de esperança que já existem, os valores que precisam ser defendidos e os objetivos que precisam ser buscados. Por exemplo: é preciso resolver o problema da reforma agrária, da injusta distribuição de renda, da dívida externa, da seca, da fome, da exclusão, da corrupção. Tudo muito bem colocado, muito bem analisado. É claro que o candidato ideal será aquele que estiver realmente comprometido com o bem comum, com a defesa da vida, com a justiça, com a solução de todos esses problemas...

Até são apontados alguns caminhos realmente práticos: organizar associações de bairros e outros movimentos para defender interesses da comunidade, vigiar de perto as atuações dos governantes, apresentar reivindicações e denúncias, fazer uso dos possíveis mecanismos de controle para evitar a corrupção e o descumprimento das leis... enfim, busca-se despertar as pessoas para a necessidade de uma maior e mais consciente participação política. Mas isso é dito de passagem, sem receber muita ênfase.

A mensagem central, como sempre, resume-se naquilo que é apresentado como "voto consciente": saber escolher o candidato que preencha os requisitos...

E é aqui que entra a minha perplexidade: não consigo entender como é que ninguém parece considerar a hipótese de que não haja nenhum candidato que preencha os requisitos... como exercer o voto consciente, quando não há em quem votar? De que adianta saber exatamente do que precisamos, se isso não nos é oferecido?

Pior: vejo, com tristeza, a perigosa tendência de optar pela mais ingênua e enganosa das conclusões: se os problemas de nosso país são conseqüência do "sistema" vigente, então a solução estaria em votar nos defensores do "sistema" oposto...

Não concordo com isso. E não posso compreender como é que tantos ainda embarcam nessa ilusão... especialmente depois que a experiência já mostrou, concretamente, a ineficácia prática de ideologias do tipo marxista, aparentemente tão humanitárias...

É claro que não estou pretendendo defender o neo-liberalismo. O que é evidente, para mim, é que nunca será o "sistema", seja ele qual for, que irá garantir a justiça e o direito... de nada adiantam os ideais escritos no papel, se eles não estiverem escritos no coração das pessoas...

Teoricamente, os partidos deveriam expressar os princípios defendidos por seus membros. Na prática, porém, todo mundo sabe que eles não passam de meros instrumentos de que se servem os candidatos para defenderem seus interesses pessoais. Escolhe-se o partido que melhor convém, o que mais oferece oportunidades de projeção política, e, por isso mesmo, troca-se de partido como se troca de roupa... o que significa que os "ideais" desses partidos não são realmente assumidos.

Não há possibilidade alguma de mudar a política, se não se mudam as pessoas. Não adianta apresentar os objetivos, se não há ninguém interessado em defender esses objetivos. O próprio documento da CNBB mostra (no nº 47) que as únicas iniciativas que realmente dão resultado são aquelas que partem da Igreja, que são fruto de trabalho voluntário... como as atividades da Cáritas, da Pastoral da Criança e outras ações similares. É ilusão esperar uma ação política realmente desinteressada e vista como serviço ao próximo (e não como promoção pessoal!) de pessoas que não vivem os valores cristãos... Para poder resistir à pressão dessa máfia de corrupção e de jogo de interesses que envolve as estruturas de poder, é necessário pessoas realmente disposta s a dar a vida... a doar-se incondicionalmente pelo bem do outro, a lançar a semente mesmo sabendo que não chegará a colher o fruto. E é ilusão esperar isso de gente que não possui um ideal de vida mais elevado que o nível do próprio bolso, e para quem os direitos humanos não passam de estratégias eleitorais, seja qual for o "sistema" que digam defender. Assim como é ilusão, também, achar que bastam medidas de controle e policiamento (como a Lei nº 9.840) para conseguir obter dos governantes, "à força", atitudes que não brotam de suas próprias convicções. Não basta construir prisões para acabar com o crime...

É claro que é importante ensinar as pessoas a avaliar os candidatos. Penso, porém, que isso ajuda muito pouco. Quando a Igreja fala em "conscientizar os cristãos de sua responsabilidade política", isso deve significar, principalmente, um trabalho no sentido "vocacional": convidar os cristãos a entrar nessa arena... a assumir essa causa, candidatando-se aos cargos públicos. E, no documento da CNBB, isso é apenas sugerido (do nº 48 ao 51), sem a ênfase e o destaque que seriam necessários.

Esse é um apostolado específico dos leigos. Não todos, é claro, mas aqueles que receberam de Deus o dom para esse trabalho, que se sentem à vontade nessa área e que estiverem, também, devidamente capacitados e espiritualmente preparados. A política é um campo de missão, talvez o mais importante e mais urgente deles, atualmente. E, assim como o sacerdote precisa investir constantemente na própria formação para poder ser sinal de Deus entre os homens, sem trair sua missão, também o político cristão deve saber que precisará fortalecer constantemente seus princípios e sua espiritualidade, levar muito a sério a sua vida de fé, para ser capaz de levar a palavra de Deus e os valores cristãos a esse ambiente tão hostil. É um trabalho ingrato, difícil, de resultados lentos, onde as tentações e os riscos de rejeição e perseguição são imensos (exatamente como os missionários entre os índios ou os primeiros cristãos no império romano), porque os "privilegiados" não vão querer abrir mão de seus privilégios, e farão tudo para impedir o desmantelamento de suas redes de corrupção. Mas é um trabalho indispensável... que exige o amor a Deus e à sua justiça acima do amor à própria vida e ao próprio bem-estar. Sem olhar as coisas dessa forma, sem assumir pessoalmente essa missão, de nada adiantará levantar os problemas e apontar as soluções. Se já a curto prazo pudermos fazer alguma coisa, ótimo. Mas não adianta ficar nisso, pois o resultado prático será muito pequeno. É preciso, paralelamente, começar também esse trabalho de longo prazo, cujos resultados serão lentos, mas nunca aparecerão se ninguém se dispuser a dar os primeiros passos, preparar o terreno para os que virão depois, até que um dia consigamos realmente "sanear" o meio político. Além de ensinar a votar, é preciso também fazer com que tenhamos em quem votar... ou toda essa conscientização será trabalho perdido.

É verdade que isso já vem sendo feito. Já há católicos de verdade assumindo essa missão, graças a Deus. Mas são ainda poucos, num meio em que é preciso a força somada de muitos para conseguir impor realmente alguma mudança concreta. Seu trabalho seria facilitado e se multiplicaria mais rapidamente se a Igreja, enquanto instituição, abraçasse essa causa... se não se limitasse, em suas orientações, a definir o perfil dos candidatos ideais e a mostrar a importância do voto, mas trabalhasse também, de forma mais intensa e sistemática, no sentido de formar e qualificar operários para essa messe (além de acompanhar e apoiar os que já atuam), a fim de que, algum dia, os candidatos ideais realmente existam... E NÓS POSSAMOS TER EM QUEM VOTAR!

Margarida Hulshof
 
 
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