Quero deixar bem claro que este artigo expressa exclusivamente a minha
opinião pessoal. Desta vez, não estou falando em nome
da Igreja, como é meu costume. Isso não significa que
minha opinião não esteja de acordo com a da Igreja,
mas sim que nunca vi ninguém abordar o assunto por esse ponto
de vista. O que desejo dizer, nunca li em nenhum documento...
Não é de hoje que a Igreja vem tentando e conseguindo
derrubar o antigo preconceito segundo o qual Igreja e Política
seriam realidades incompatíveis, e que levava a considerar
a política como coisa pecaminosa e suja, campo de trabalho
proibido, portanto, para os cristãos dignos desse nome.
Isso já está superado. Graças a Deus, hoje, a
Igreja compreende ser seu dever formar a consciência política
dos católicos, para que exerçam sua cidadania e cumpram
seu dever de ser agentes transformadores da sociedade. A justiça
e a fraternidade, a "vida em abundância" que Jesus
veio trazer para todos, não se tornarão realidade sem
envolver as estruturas sociais, políticas e econômicas...
Este ano, iremos eleger novos governantes para o nosso país.
E, mais uma vez, a Igreja vem procurando orientar a população
sobre os critérios que devem nortear a escolha dos candidatos
a quem daremos nossos votos. Saiu um documento da CNBB sobre esse
assunto, com o título: "Eleições 2002 Propostas
para Reflexão", que já vem sendo estudado nas paróquias
de nossa diocese.
O documento apresenta a situação atual do Brasil e do
mundo, os problemas que precisam ser superados, os pontos positivos
e sinais de esperança que já existem, os valores que
precisam ser defendidos e os objetivos que precisam ser buscados.
Por exemplo: é preciso resolver o problema da reforma agrária,
da injusta distribuição de renda, da dívida externa,
da seca, da fome, da exclusão, da corrupção.
Tudo muito bem colocado, muito bem analisado. É claro que o
candidato ideal será aquele que estiver realmente comprometido
com o bem comum, com a defesa da vida, com a justiça, com a
solução de todos esses problemas...
Até são apontados alguns caminhos realmente práticos:
organizar associações de bairros e outros movimentos
para defender interesses da comunidade, vigiar de perto as atuações
dos governantes, apresentar reivindicações e denúncias,
fazer uso dos possíveis mecanismos de controle para evitar
a corrupção e o descumprimento das leis... enfim, busca-se
despertar as pessoas para a necessidade de uma maior e mais consciente
participação política. Mas isso é dito
de passagem, sem receber muita ênfase.
A mensagem central, como sempre, resume-se naquilo que é apresentado
como "voto consciente": saber escolher o candidato que preencha
os requisitos...
E é aqui que entra a minha perplexidade: não consigo
entender como é que ninguém parece considerar a hipótese
de que não haja nenhum candidato que preencha os requisitos...
como exercer o voto consciente, quando não há em quem
votar? De que adianta saber exatamente do que precisamos, se isso
não nos é oferecido?
Pior: vejo, com tristeza, a perigosa tendência de optar pela
mais ingênua e enganosa das conclusões: se os problemas
de nosso país são conseqüência do "sistema"
vigente, então a solução estaria em votar nos
defensores do "sistema" oposto...
Não concordo com isso. E não posso compreender como
é que tantos ainda embarcam nessa ilusão... especialmente
depois que a experiência já mostrou, concretamente, a
ineficácia prática de ideologias do tipo marxista, aparentemente
tão humanitárias...
É claro que não estou pretendendo defender o neo-liberalismo.
O que é evidente, para mim, é que nunca será
o "sistema", seja ele qual for, que irá garantir
a justiça e o direito... de nada adiantam os ideais escritos
no papel, se eles não estiverem escritos no coração
das pessoas...
Teoricamente, os partidos deveriam expressar os princípios
defendidos por seus membros. Na prática, porém, todo
mundo sabe que eles não passam de meros instrumentos de que
se servem os candidatos para defenderem seus interesses pessoais.
Escolhe-se o partido que melhor convém, o que mais oferece
oportunidades de projeção política, e, por isso
mesmo, troca-se de partido como se troca de roupa... o que significa
que os "ideais" desses partidos não são realmente
assumidos.
Não há possibilidade alguma de mudar a política,
se não se mudam as pessoas. Não adianta apresentar os
objetivos, se não há ninguém interessado em defender
esses objetivos. O próprio documento da CNBB mostra (no nº
47) que as únicas iniciativas que realmente dão resultado
são aquelas que partem da Igreja, que são fruto de trabalho
voluntário... como as atividades da Cáritas, da Pastoral
da Criança e outras ações similares. É
ilusão esperar uma ação política realmente
desinteressada e vista como serviço ao próximo (e não
como promoção pessoal!) de pessoas que não vivem
os valores cristãos... Para poder resistir à pressão
dessa máfia de corrupção e de jogo de interesses
que envolve as estruturas de poder, é necessário pessoas
realmente disposta s a dar a vida... a doar-se incondicionalmente
pelo bem do outro, a lançar a semente mesmo sabendo que não
chegará a colher o fruto. E é ilusão esperar
isso de gente que não possui um ideal de vida mais elevado
que o nível do próprio bolso, e para quem os direitos
humanos não passam de estratégias eleitorais, seja qual
for o "sistema" que digam defender. Assim como é
ilusão, também, achar que bastam medidas de controle
e policiamento (como a Lei nº 9.840) para conseguir obter dos
governantes, "à força", atitudes que não
brotam de suas próprias convicções. Não
basta construir prisões para acabar com o crime...
É claro que é importante ensinar as pessoas a avaliar
os candidatos. Penso, porém, que isso ajuda muito pouco. Quando
a Igreja fala em "conscientizar os cristãos de sua responsabilidade
política", isso deve significar, principalmente, um trabalho
no sentido "vocacional": convidar os cristãos a entrar
nessa arena... a assumir essa causa, candidatando-se aos cargos públicos.
E, no documento da CNBB, isso é apenas sugerido (do nº
48 ao 51), sem a ênfase e o destaque que seriam necessários.
Esse é um apostolado específico dos leigos. Não
todos, é claro, mas aqueles que receberam de Deus o dom para
esse trabalho, que se sentem à vontade nessa área e
que estiverem, também, devidamente capacitados e espiritualmente
preparados. A política é um campo de missão,
talvez o mais importante e mais urgente deles, atualmente. E, assim
como o sacerdote precisa investir constantemente na própria
formação para poder ser sinal de Deus entre os homens,
sem trair sua missão, também o político cristão
deve saber que precisará fortalecer constantemente seus princípios
e sua espiritualidade, levar muito a sério a sua vida de fé,
para ser capaz de levar a palavra de Deus e os valores cristãos
a esse ambiente tão hostil. É um trabalho ingrato, difícil,
de resultados lentos, onde as tentações e os riscos
de rejeição e perseguição são imensos
(exatamente como os missionários entre os índios ou
os primeiros cristãos no império romano), porque os
"privilegiados" não vão querer abrir mão
de seus privilégios, e farão tudo para impedir o desmantelamento
de suas redes de corrupção. Mas é um trabalho
indispensável... que exige o amor a Deus e à sua justiça
acima do amor à própria vida e ao próprio bem-estar.
Sem olhar as coisas dessa forma, sem assumir pessoalmente essa missão,
de nada adiantará levantar os problemas e apontar as soluções.
Se já a curto prazo pudermos fazer alguma coisa, ótimo.
Mas não adianta ficar nisso, pois o resultado prático
será muito pequeno. É preciso, paralelamente, começar
também esse trabalho de longo prazo, cujos resultados serão
lentos, mas nunca aparecerão se ninguém se dispuser
a dar os primeiros passos, preparar o terreno para os que virão
depois, até que um dia consigamos realmente "sanear"
o meio político. Além de ensinar a votar, é preciso
também fazer com que tenhamos em quem votar... ou toda essa
conscientização será trabalho perdido.
É verdade que isso já vem sendo feito. Já há
católicos de verdade assumindo essa missão, graças
a Deus. Mas são ainda poucos, num meio em que é preciso
a força somada de muitos para conseguir impor realmente alguma
mudança concreta. Seu trabalho seria facilitado e se multiplicaria
mais rapidamente se a Igreja, enquanto instituição,
abraçasse essa causa... se não se limitasse, em suas
orientações, a definir o perfil dos candidatos ideais
e a mostrar a importância do voto, mas trabalhasse também,
de forma mais intensa e sistemática, no sentido de formar e
qualificar operários para essa messe (além de acompanhar
e apoiar os que já atuam), a fim de que, algum dia, os candidatos
ideais realmente existam... E NÓS POSSAMOS TER EM QUEM VOTAR!
Margarida Hulshof |