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Tim Lopes | AGOSTO

Domingo, 09 de junho de 2002. Manhã ensolarada, outono, temperatura agradável. Promessa de um dia com final feliz.
Acordei às 7 horas alegre porque iria participar de mais um banquete espiritual. Agradeci a Deus pelo dom da vida e pela saúde que gozava naquele momento. Fui à missa dominical com minha família. Lá chegando fiquei sabendo que haveria celebração e não missa. O Padre estava atendendo outra comunidade (os padres são poucos). Então as pessoas da paróquia se reúnem e fazem uma celebração eucarística. A princípio não gostei da novidade, mas perseverei e participei. Após a leitura do Evangelho do dia, a celebrante fez uma breve exposição da palavra e à medida que ela ia falando meus ouvidos e meu coração iam absorvendo tudo com muita atenção e interesse. Era Jesus que falava. Lembro-me perfeitamente que a passagem era sobre o encontro de Jesus com um cobrador de impostos, que se converteu e seguiu Jesus e o convidou para um jantar. Estando Ele (Jesus) na casa do cobrador e seus amigos, os seguidores de Jesus, que era uma multidão, o questionaram: "Por que comes com os cobradores de impostos e pecadores?" Essas pessoas eram marginalizadas pela sociedade, consideradas repulsivas. Ninguém as queria como amigas, muito menos estar ao lado delas com tamanha intimidade.

Nesse momento do questionamento Cristo vem com a seguinte resposta: "Aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes. Quero misericórdia e não sacrifício. Não vim chamar os justos, mas os pecadores."

A celebrante discorria a sua explanação e meu cérebro refletia intensamente sobre aquela resposta de Cristo. Num determinado momento percebi que a celebrante nos mandava fechar os olhos por alguns instantes e imaginar aquela cena, substituindo alguns personagens: A multidão - por nós ; os cobradores de impostos por alguém, algo, ou algumas pessoas e situações que nós repudiamos, discriminamos, marginalizamos. Fiz a reflexão. Passados os minutos, a celebrante pediu que alguns se pronunciassem sobre o que imaginaram e sentiram. Depois de alguns depoimentos, levantei o dedo e disse que eu me senti miserável, por não conseguir no primeiro instante tomar a atitude de Jesus. Amar e não sacrificar. Mas saí daquela igreja com o firme propósito de me tornar uma pessoa melhor, dedicando mais amor ao próximo.

O dia transcorreu alegre e feliz conforme me havia prometido. Família reunida, almoço farto, crianças alegres brincando, conversas e saudade colocadas em dia, enfim um domingo tipicamente familiar.

Voltei para casa com as minha filhas e ao chegar liguei a TV e qual não foi minha surpresa, fiquei sabendo do sacrifício de um irmão. TIM LOPES, jornalista, aparentando pouco mais de 40 anos, torturado e assassinado no exercício do seu ofício, na favela Vila Cruzeiro, Penha, por traficantes. MOTIVO Investigava num baile fank o abuso sexual e o tráfico de drogas.

Tudo o que ouvi pela manhã voltou à minha mente como um relâmpago. Imediatamente substitui os personagens:

Multidão - eu e toda a sociedade brasileira e até mesmo a internacional.

Cobradores de impostos - os traficantes

Tim Lopes - o sacrificado (CRISTO)

Lembro-me perfeitamente o conteúdo da mensagem de Jesus naquele Evangelho: PERDOAR E AMAR. Lembrei-me também do meu propósito: ser uma pessoa cada dia melhor. Amar e perdoar mais; julgar e marginalizar menos.

No primeiro momento fiquei estatelada diante a TV com todos esses pensamentos e as seguintes perguntas: Mas como amar? O que eu faria se encontrasse cara a cara com os assassinos? Qual será a melhor atitude das autoridades e dos policiais? Se agirmos com violência contra os agressores, mais violência virá.

Por outro lado as drogas estão dominando tanto as pessoas, que elas estão ficando enlouquecidas e cometem atrocidades irreparáveis ao ser humano. Exemplos como esses vemos todos os dias nos noticiários. Pai que estupra filha, traficante que em troca de ajuda financeira às famílias pobres das favelas, se sentem no direito de serem os primeiros a possuir sexualmente uma criança ou adolescente, exploração de menores, assassinatos, roubos, seqüestros, prostituição e etc.

Após o momento da surpresa, continuei com minhas interrogações, mas com uma certeza: solucionar um ato de sacrifício com outro ato de sacrifício não é a melhor solução.

Enquanto não obtenho respostas para minhas interrogações, só me resta, orar, confiar e esperar a ação de Deus na mente das autoridades e policiais, derramando sobre elas a sua sabedoria divina, porque a sabedoria do homem de nada adianta sem a ação de Deus, governando sua mente, seu coração e sua vida.

Izaura Maria Oliveira de Almeida
Equipe Fé & Dons - Loreto
 
 
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