Vejo você, pai, sorrindo assim... esse sorriso antigo de menino
maroto, sempre maravilhado com a vida... sempre pronto a brincar.
Ouço a sua voz terna a dizer o meu nome e a me chamar "minha
filha"... a acompanhar baixinho a abertura do Guarani de Carlos
Gomes, olhando longe... e sentindo perto todos os alaridos e sussurros
da floresta de Peri...
Falta-me a sua presença tão meiga e branda, tão
tranqüila e ao mesmo tempo forte, assegurando confiança
e proteção...
Faz-me tanta falta a sua figura querida, aquele seu rosto moreno,
os cabelos pretos brilhantes, a grande onda do lado, seu rosto que
tantas vezes, carinhosamente, eu descansava junto ao meu...
E no entanto, sinto você tão comigo, PAI, toda vez que
a beleza me toca os olhos, me penetra com seus sons e cores todos
os sentidos, toda a alma...
Olha, vem ver: guardo aqui, nesses papéis todos, sua letra
linda, que gravou tudo de seu: sua força interior, sua sensibilidade,
seu dinamismo, sua grandeza.
A compreensão e o amor que tinhas pelo mundo me acompanha sempre
nesta jornada difícil (a capacidade de dar, de entender, de
perdoar, de ouvir de gostar de ouvir...).
A sua imagem e o seu ser, mesmo que eu não fale, estão
sempre comigo, consciente e inconsciente. Pois seria completamente
impossível, PAI, continuar vivendo sem você.
Norma C. Gonçalves (Encontro de Fé & Dons)
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