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Loretando | AGOSTO

AMOR ANTIGO

“Não sei porque resolvi levar meu pai àquela festa, desde que mamãe faleceu, eu não o procurei mais. Quanto isso ocorria era pelos motivos naturais e inevitáveis, como o aniversário de uma das crianças.

Naquele dia, meu pai, que sempre foi caladão, não estava muito para festa, mas minha esposa, que o adorava, tentava acalmá-lo e fazê-lo entender que sair é bom, passear também. Essas coisas que só nora faz para agradar.

Ao chegar, logo após ser apresentado, meu pai sentou-se em uma cadeira e ficou reservadamente num canto da varanda. De vez em quando esboçava um sorriso aos que o cumprimentava, outras vezes, propositalmente virava o rosto para não ser cumprimentado. Seu olhar navegava ao longe, onde umas crianças brincavam de roda, notava-se em seu semblante muita pureza; ele não era ranzinza, era apenas reservado, sempre foi assim, mesmo quando minha mãe estava entre nós.

Logo após o almoço, que aconteceu no grande salão da casa, meu pai levantou-se e começou a passear seus olhos sobre a decoração da casa. Havia uma grande estante na parede central e nela vários quadros antigos da família do anfitrião. Notei que meu pai deteve-se à frente de uma das fotos, seus olhos marejaram, franziu a testa e ficou ali, absorto no que via. Abordei-o com cautela e perguntei se estava tudo bem.

- Quem é essa pessoa da foto. Perguntou ele sem virar o rosto.

- Não sei, algum parente talvez.

- Você poderia perguntar isso para mim?

- Claro papai. Então chamei meu amigo e o trouxe até meu pai.

- Essa aí era minha mãe, o senhor a conheceu?

Meu pai ruborizou-se, senti que havia ficado incomodado. Meu amigo foi chamado por outro convidado e retirou-se. Ficamos ali parados, eu e meu pai. Foram segundos eternos.

Sem virar o rosto meu pai falou como que para si mesmo.

- Eu sabia que a encontraria, Deus não me permitiria morrer sem antes saber o que foi feito dela.

- Não entendi, pai, do que você está falando?

- É uma longa história, paixão de adolescente, daquelas que a gente diz que nunca vai esquecer, que nunca amou tanto uma mulher assim, essas coisas... Nos conhecemos muito jovens, era uma paixão platônica. Acredita que eu nunca... nunca a beijei? Nos amamos muito durante um bom tempo, mas tudo conspirava contra e o destino venceu e fomos cada um para o seu canto viver nossas vidas. Eu nunca mais a esqueci, passei mais de cinqüenta anos sonhando revê-la em cada esquina, em cada loja que entrava, em cada rua que passava. O tempo foi mais forte, eu conheci sua mãe e nos casamos. Nunca confidenciei isso a ninguém, era um segredo só meu e hoje me vem essa surpresa.
Meu pai falava coisas que eu nunca havia imaginado, eu sabia que não o conhecia direito, seu jeito caladão não nos deixava perceber muita coisa e agora vejo meu velho pai fragilizado com uma foto de um antigo amor. Se por um lado fiquei feliz por ele compartilhar isso comigo, por outro me ressenti com sua tristeza. Era o meu pai chorando baixinho ao meu lado. Mordia os lábios exatamente como minha mãe o descrevia quando estava emocionado. Tentava a todo custo não deixar que eu percebesse.

- Eu nunca faltei com o respeito a sua mãe, sempre tive a sua mãe como a mulher da minha vida, aquela que gerou meus filhos e me amou até seus últimos dias, mas é impossível apagar nossas recordações como se faz num quadro negro, tentando apagar os traços de giz, mas a sombra continua. Meu filho, eu sabia que a encontraria novamente, não era uma premonição, mas sim uma certeza dentro de mim que dormia e acordava comigo. Essa foto amarelada não traduz a imensidão de sua beleza. Seu encanto iluminava os locais por onde passava. Quando eu estava com ela, estufava o peito com orgulho de estar ao seu lado. Sua voz meio anazalada tornava-a ainda mais bela, seu sorriso dominava a todos. Era uma mulher maravilhosa...

Ficamos ainda em silêncio por um bom tempo e ele voltou a sentar-se. Foi a última vez que conversei com meu pai, foram as últimas palavras que ouvi de sua boca. Antes de afastar-se ele olhou para o retrato e suspirou baixinho:

- Marina, eu te amei muito.

Ao final da tarde, o tempo fechou e eu fui levar um agasalho para o meu pai. Ele continuava olhando ao longe, mas já não vivia. Sem fazer escândalo permaneci ao seu lado por um bom tempo tentando resgatar um pouco do carinho que ainda habitava naquele rosto.

Eu e meu pai, juntos, um terminando e o outro começando a vida. Podia tê-lo amado com maior intensidade, mas, assim como ele amou essa mulher, coisa da juventude e deixou de lado, eu também deixei pra amá-lo depois e o depois se foi agora, nesse exato momento, para sempre."

Nós temos uma visão estranha de nossos pais, acho que poucos conseguem vê-los além do chefe de família, o cara que sustenta a casa, etc e etc. Como terá sido a infância do meu verdadeiro pai, do seu pai? Será que ele namorou muito, assim como eu? O que será que ele fazia quando era jovem e nem sonhava em se casar e possivelmente nem conhecia minha mãe? Nós conhecemos o homem pai, e nos esquecemos que ele já foi jovem e teve as mesmas ansiedades e as mesmas inquietações de um jovem comum.

Essa é uma visão diferente dos pais, tirando um pouco aquela concorrência velada com a mãe, para ser o mais querido na casa. Da mãe sabemos tudo. Do pai, normalmente, "caladão", sabemos muito pouco. Às vezes olho para os meus filhos e me pergunto se passo para eles e o que eu fui no passado para ser o que eu sou agora. Talvez eles não entendam determinadas atitudes minha e possivelmente entenderiam melhor se conhecessem um pouco mais de minha história.

Não tenho mais meu pai para fazer-lhes essas perguntas, mas vou trabalhar muito para mostrar para os meus filhos as minhas respostas, até mesmo sem receber a pergunta.

Faça isso você também, se teu pai ainda for vivo, procure saber dele um pouco mais sobre a sua vida. Se você é pai, mostre para seus filhos as suas histórias.

Paulo Sobrinho
 
 
VEJA NO MÊS DE AGOSTO/2002:

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