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Gênesis 19 | AGOSTO

A narrativa deste capítulo está ligada a Gn 18 porque fala da destruição de Sodoma e Gomorra que Abraão tentou evitar com a sua persistente mediação e, também, porque o Autor sagrado atribui a salvação de Lot a uma consideração que Deus teve com Abraão (19,29). Os anjos que se apresentam representam o próprio Deus (v. 14). São dois, porque devem testemunhar que o clamor grande dos pecados que se eleva a Deus (18,21) corresponde à realidade (19,13). Enquanto os anjos são o próprio Deus que se manifesta, o Autor sagrado fala de adoração que Lot presta ao curvar-se diante deles com o rosto por terra. Aqui temos mais uma oportunidade para aprofundar a noção de "anjo". Enquanto se refere a Deus, esse particípio passado passivo vem a significar o próprio Deus que se manifesta. Enquanto se refere a uma criatura é a mesma exercendo a função pela qual foi enviada. Tal parece ser a criatura animada, chamada de anjo, que recusa a adoração de João em Ap 19,10 e 22,8s. De fato ela não passa de um servo de Deus que possui o espírito da profecia como qualquer outro cristão irmão de João, santificado pelo Espírito. É o anjo interprete, criação de uma teologia pos-exílica que certamente não pode receber a adoração que se presta a Deus porque é concebido como criatura distinta de Deus. É mera figura imaginária que está a simbolizar uma suposta mediação entre João e o próprio Deus, verdadeira fonte da revelação (Ap 1,1s).

Constatada a sodomia praticada do mais novo ao mais velho (Gn 19,4), fica justificado o castigo que o próprio Deus vai enviar sobre as duas cidades de Sodoma e Gomorra. Diante desse texto o homosexualismo é indefensável. Aliás é explicitamente condenado em Lv 18,22; 20,13. Que seja um vício é até provado pelo fato que quer ser satisfeito a qualquer custo e numa atitude de total arbitrariedade (v. 9). É o pecado que, constatado, é a causa da perdição da cidade (v. 15). Ainda mais que queria ser perpetrado numa aberta violação da hospitalidade sagrada, tão sagrada que Lot, no desespero, se dispõe a entregar aos instintos dos sodomitas as suas próprias filhas (v. 8) (atenção a não objetivar o pecado de Lot. Aqui o Autor sagrado quer focalizar a perversão dos sodomitas que poderia ter levado o sobrinho de Lot a um gesto desesperado. Estamos diante de uma narrativa didático-sapiencial).

O ensinamento adota um fenômeno sísmico, que destruiu o vale do Jordão e as cidades nelas situadas, como quadro para tipificar a gravidade do castigo. Vemos, de fato, que o Autor sagrado se refere a uma pequena cidade de Segor e sobre ela cria uma etiologia (= explicação da origem do nome) e faz, de figuras de sal da região, uma lembrança de um suposto castigo contra a mulher de Lot. Sempre e, propositadamente, o Autor sagrado coloca curiosidades na sua narrativa para que nunca escape ao leitor a certeza de que se trata de contos didáticos, aonde, o importante é o ensinamento doutrinal e moral. Esse ensinamento é assumido por João no Apocalipse: enquanto atribui o castigo contra Sodoma a Gomorra à Samaria, está a indicar uma punição de destruição sobre a tribos do Norte, por ter chegado a encher a medida dos seus pecados (Ap 9,2). A invasão dos assírios deve ser interpretada como um castigo que Deus infligiu ao seu povo por meio de Senaqueribe (722 a.C. ), o Anjo destruidor do Abismo, onde só há trevas, semelhante ao castigo que Sodoma e Gomorra sofreram, segundo o ensinamento da narrativa bíblica de Gn 19.

Também quando, no fim de Gn 19, o Autor sagrado nos apresenta a origem dos Moabitas e Amonitas, é simplório pensar que ela se deu, materialmente, da forma que ele utiliza em apresentá-la. O que o Autor sagrado afirma com todas as letras é que a descendência de Lot, absolutamente, nada tem em comum com o povo sodomita, por pior que se possa pensar da sua origem [Ele já tinha ilustrado tudo isso com o quadro de Lot que vai alertar seus futuros genros sobre a iminente destruição de Sodoma e Gomorra. Como resposta à sua atenção, os genros acharam que estivesse divertindo-os (Gn 19,14)]. Todavia, nem se compara com a origem do povo hebraico, embora Lot tenha acompanhado Abraão quando da vocação deste para sair da sua terra e ir para a terra que Deus designava (Gn 12,1.5). Os ismaelitas podem ser descendência de Abraão (Gn 16,15), os Moabitas e os Amonitas podem ser descendência da mesma família de Abraão, mas o verdadeiro povo de Deus são os israelitas, descendentes do filho da promessa!

Pe. Fernando Capra - CRSP
 
 
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