Propostas para Reflexões
Sinais de resistência e esperança
Com alegria, vemos emergir, em meio a sinais sombrios, um crescimento
da consciência dos Direitos Humanos; a sede de participação,
sobretudo das mulheres e dos jovens; a luta contra toda a forma de
discriminação e um maior reconhecimento do pluralismo
étnico e cultural; o respeito ao eco-sistema e à vida.
O desenvolvimento das forças produtivas e da tecnologia suscita
esperanças de superação de antigos limites no
campo da saúde, da comunicação e de outros. Esses
progressos, porém, não são partilhados por todos.
A maioria vive o desencanto e a frustração pela falta
de acesso a esses benefícios.
Estamos diante de novas formas e campos de atuação,
de novos atores sociais, que se afirmam na sociedade atual, como cidadãos
protagonistas de um mundo novo.
Entre eles:
-O povo que, na sua luta pela sobrevivência, baseada na solidariedade
e no voluntariado, vai criando alternativas de resposta às
suas necessidades e novas formas de trabalho;
A sociedade civil que toma iniciativas diversas contra o crescimento
descontrolado das dívidas externa e interna;
As famílias, "fonte de esperança para o futuro
da humanidade", que se reúnem e articulam para garantir
a educação dos filhos e reivindicam políticas
sociais especificas;
-Os movimentos, como o do Fórum de Lutas pela Reforma Agrária,
que exerce pressão para que a Reforma se concretize e seja
fixado o módulo máximo para as propriedades rurais;
-Os Conselhos Municipais e os grupos de cidadãos que se organizam
para acompanhar e fiscalizar a atuação de suas Câmaras
de Vereadores;
A Lei no. 9840 contra a corrupção eleitoral, conquistada
pela Iniciativa Popular, que obteve nas eleições do
ano 2000 alguns resultados positivos. A Justiça Eleitoral não
conseguiu afastar da atividade política pessoas sem escrúpulos,
que se aproveitam da miséria e da ignorância para se
elegerem, mas se prepara para aplicar mais plenamente essa Lei nas
eleições de 2002; -O Ministério Público,
quando assume com firmeza sua missão no aperfeiçoamento
de nossas instituições democráticas, à
luz da Constituição cidadã;
-Os Meios de Comunicação que vêm cumprindo um
papel importante no processo de democratização, embora
revelem freqüentemente uma defesa do sistema vigente, comprometendo
a formação da consciência crítica da população;
Os movimentos em defesa da ecologia que têm despertado uma nova
consciência na preservação da natureza, do equilíbrio
vital do planeta e da convivência humana;
-Os movimentos sociais, que abrem novos espaços para a solidariedade
e promovem um clima de maior tolerância e de respeito ao diferente.
Muitas destas iniciativas sociais têm contado com o incentivo
e parceria da Igreja como instituição ou de grupos de
cristãos, movidos pela fé. Não por acaso, a sociedade
civil tem manifestado sua confiança na Igreja Católica,
conforme mostram as pesquisas de opinião. Isto está
em sintonia com sua missão de ser esperança dos pobres.
Neste início de novo milênio, em que uma globalização
excludente ameaça o horizonte da humanidade, valorizamos iniciativas
de entidades da sociedade civil, como a do Fórum Social Mundial,
realizado no início do ano 2001, em Porto Alegre, com continuidade
prevista para o ano de 2002. Amparados em nossa fé cristã,
queremos nos associar a esta inspiração criativa, excluindo
toda manifestação de violência.
O Ensino Social da Igreja emerge da fé na Boa Nova de Jesus
Cristo, vivida na espiritualidade, refletida pela tradição
teológica e explicitada pelo Magistério. Não
foram poucas as advertências dos profetas e do próprio
Jesus em relação ao cuidado que todo o ser humano deve
ter com seus irmãos, sobretudo os pobres e os excluídos.
Essa verdade é tão explícita, que mereceu do
Papa Paulo VI a afirmação contundente: "Entre evangelização
e promoção humana - desenvolvimento, libertação
- existem laços de ordem antropológica [...]; laços
de ordem teológica [...]; laços daquela ordem eminentemente
evangélica, qual é a ordem da caridade: como se poderia,
proclamar o mandamento novo sem promover na justiça e na paz
o verdadeiro e o autêntico progresso do homem?"
Portanto, quando a Igreja Católica se pronuncia sobre a realidade
social, política e econômica, o faz consciente de que
de sua "missão religiosa decorrem benefícios, luzes
e forças que podem auxiliar a organização e o
fortalecimento da comunidade humana".
A Igreja assume, desta forma, sua missão no campo político,
visando formar as consciências cristãs de que há
uma relação intrínseca, e portanto indissociável,
entre vida e fé, promoção humana e missão
religiosa;
Há mais de cem anos, a Igreja Católica tem sistematizado
seu ensino social face às ideologias dominantes seja do liberalismo,
seja do socialismo. Recentemente, a prevalência do chamado neoliberalismo
e as novas condições de produção e distribuição
da riqueza têm levado o Magistério da Igreja a explicitar,
com clareza, seu posicionamento tanto contra os desvios do atual sistema
quanto em favor de novas formas de solidariedade.
O Papa João Paulo II tem marcado seu pontificado com a chamada
de toda a Igreja para o desenvolvimento da globalização
da solidariedade. Ele considera como missão da Igreja, seu
serviço e comprovação da sua fidelidade a Cristo,
o incentivo às mais diversas formas de solidariedade, pois
isso a identifica como a "Igreja dos pobres".
Na Exortação Apostólica Ecciesia in America,
1998, falando sobre os pecados sociais que clamam aos céus,
afirma o Papa João Paulo II: "Domina cada vez mais, em
muitos países americanos, um sistema conhecido como "neoliberalismo";
sistema este que, apoiado numa concepção economicista
do homem, considera o lucro e as leis de mercado como parâmetros
absolutos em prejuízo da dignidade e do respeito da pessoa
e do povo. Por vezes, este sistema transformou-se numa justificativa
ideológica de algumas atitudes e modos de agir no campo social
e político, que provocam a marginalização dos
mais fracos. De fato, os pobres são sempre mais numerosos,
vítimas de determinadas políticas e estruturas freqüentemente
injustas".
Na Carta Apostólica "No Inicio do Novo Milênio",
2001, diz o Papa com igual força: "O nosso mundo começa
o novo milênio, carregado com as contradições
de um crescimento econômico, cultural e tecnológico,
que oferece a poucos afortunados grandes possibilidades, e deixa milhões
e milhões de pessoas, não só à margem
do progresso, mas a braços com condições de vida
muito inferior ao mínimo que é devido à dignidade
humana"
Tudo o que foi recordado do Magistério da Igreja quer ser inspiração
para opções que teremos de fazer, com a máxima
responsabilidade, no ano das eleições. A Igreja não
se furta de sua obrigação ética e evangélica
de formar as consciências para que os cristãos e as pessoas
de boa vontade assumam, com transparência e compromisso sério,
o dever de fazer a melhor escolha, não apenas pensando em si,
mas de maneira forte e radical no bem comum. |