- Carta aos Romanos (16)
O dom do Espírito (I)
A vida no Espírito (8,1-17)
Em Jesus Cristo, Deus Pai cumpre com a sua promessa (Gn 3,15): justifica aqueles que conheceu e predestinou para serem conformes à imagem do seu Filho. Embora chamados a viver a sua vocação criatural, os homens fracassaram. No seu amor, Deus Pai não os abandonou. No Filho, tornado instrumento de redenção pelo seu sangue, os justificou. Ao homem glorificado é dada a condição de vida que Jesus Cristo mereceu, contudo como primícias (8,2). Volta o quadro inicial da criação. Nele está o homem com a responsabilidade de se desenvolver na obediência, mediante a superação das tentações e a perseverança nas tribulações. O anima agora o Espírito de Cristo, Cabeça de um povo que nele tem o princípio da regeneração até quando recai no pecado ( 1Jo 2,1).
Mas o homem tem que entender que não tem mais nada a ver com o pecado. A sua vida é o Espírito para a conquista dos valores do Espírito. Os atrativos da carne, satisfeitos de forma desregrada, levam à morte. Para prevenir a sua manifestação é necessário viver a vida do Espírito em toda a sua intensidade, à semelhança de Cristo Jesus que caminhou até a morte. Temos que nos tornar “uma coisa só com ele por uma morte semelhante à sua”(6,5). “Se morremos com ele, temos fé de que também viveremos com ele”(6,8): “pois sofremos com ele para também com ele sermos glorificados” (8,17).
Em princípio, “portanto, não existe mais condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus” (8,1) porque, pela fé na sua morte redentora, são justificados e o Espírito é o princípio de força suficiente para resistir à virulência da carne (7,13) e crescer até a estatura adulta de Cristo” (Ef 4,13). “O Espírito socorre a nossa fraqueza,... o próprio Espírito intercede por nós” (8,26).
A dinâmica do nosso crescimento consiste em apelar continuamente ao Espírito de Cristo Jesus merecido pela morte de Cruz, que nós celebramos, na fé, como causa da nossa justificação. Estamos em condições de cumprir a Lei santa e espiritual (7,12.14), observando os seus preceitos (8,4. Contudo, para que o Espírito de Deus habite em nós, devemos realmente pertencer a Cristo. Isso implica a exclusão de todo a qualquer apego ao pecado (8,12. Cf. 1Jo 3,7-10; Ap 2,4-6). Uma vez recebida a presença do Espírito pela conversão que a Palavra anunciada pela Igreja provocou, o fiel que, na fé, recebe o Espírito daquele que por ele morreu e ressuscitou, deve cultivar a fé e a caridade até chegar a viver a efusão plena do Espírito na esperança, que brota de uma virtude comprovada: uma esperança que não será confundida. A fé é cultivada através da vivência dos dons do Espírito até produzir os frutos do Espírito. É somente nessas condições que Cristo está em nós pelo seu Espírito que nos vivifica de justiça em justiça.
Essa forma de vida será, enfim, selada pela ressurreição na carne. E, porque tornados filhos de Deus, seremos herdeiros, com Cristo, da vida eterna.
Todas essas realidades vividas por nós afastam qualquer temor de julgamento de condenação porque estamos correspondendo plenamente ao Plano do Pai e à imolação do Filho para a nossa salvação: estamos vivendo plenamente a vida no Espírito.
A descoberta desses valores nos sintoniza de forma inseparável com o Plano de Deus, pelo qual se revela todo o seu amor, a grandeza da vocação do homem e o esplendor da sua vida que nos foi participada pelo Filho constituído em poder pela sua ressurreição e que doa o Espírito de santidade aos membros do seu Corpo que é a Igreja.
Perguntas para uma reflexão:
1ª) Por que “não existe mais condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus”? (8,1)
2ª) De que maneira desenvolvemos a nossa vida em Cristo?
3ª) Quais os benefícios dos que vivem em Cristo Jesus?
Pe. Fernando Capra/CRSP |