- Apocalipse 3 (3)
Jesus Cristo (continuação do nº anterior)
O Apocalipse fala explicitamente da divindade de Cristo, apresenta-a e ensina-a em toda a sua plenitude.
Cristo é a Palavra que recebe de Deus o livro selado com os decretos de exterminar os perseguidores dos fiéis de Deus (Ap 5,1ss) como outrora ela já descera do céu para exterminar os primogênitos dos egípcios e libertar Israel (cf. Sb 18,14ss).
Na intenção do autor, a mensagem do Apocalipse quer ser mensagem de misericórdia. Cristo é apresentado frequentes vezes como “Cordeiro imolado” (Ap 5,6.9.12), como “aquele que nos amou e nos lavou os pecados com seu sangue e nos fez um povo régio e sacerdotal de Deus seu Pai” (Ap 1,5s; 5,10; 20,6; 22,5); As próprias punições constituem prova de amor autêntico de Deus “ Eu repreendo e corrijo aos que amo” (Ap 3,19; cf. 2,10; 3,10).
Não de pode ignorar, é verdade, que Cristo costuma aparecer no Apocalipse como rei vingador, exercendo as prerrogativas de juiz e justiceiro atribuídas ao Messias; mas isso toca os inimigos e é salvação para outros (cf. 1 Cor 15,25-28).
Na liturgia do céu já não se faz distinção entre Deus e o Cordeiro: presta-se a ambos a mesma adoração (Ap 5,12-14), assentam-se no mesmo trono (Ap 3,21; 22,1.3), têm o mesmo esplendor (Ap 21,23) e tornam-se mutuamente felizes (Ap 22,4).
Cristo inspira os profetas mediante o anjo que lhes envia (Ap 1,1; 22,16); governa os anjos e lhes é infinitamente superior: esses não devem receber culto divino (Ap 19,10; 22,8-9). Cristo dá a vida eterna (Ap 2,7.10.17; 3,5.12.21); é o esposo da Jerusalém celeste (Ap 21,9ss), como Javé, no A T, era o esposo da Sião terrestre, isto é, da comunidade religiosa que esta personificava”.
Bíblia Sagrada, Universidade de Navarra, Braga Portugal, 1991, págs.827-828.
“Ao começo do livro evoca-se a figura de Cristo sofredor, aludindo àqueles “que o trespassaram” (Ap 1,7), e mais adiante falar-se-á da Grande Cidade “onde também o seu Senhor foi crucificado” (Ap 11,8). Noutros momentos volta-se a recordar o sangue redentor de Cristo (cf. Ap 7,14; 12,11), especialmente na figura grandiosa e humilde do Cordeiro, que com freqüência aparece como “imolado” (cf. Ap 5,12; 22,14), vítima do sacrifício por excelência. Contudo, predomina o aspecto glorioso do Senhor que está no trono sobre o monte Sião, donde flui o rio de água viva (cf. Ap 14,1; 5,6; 22,3; 22,1). Ele será Quem apascentará e guiará o Seu Povo, acompanhado pelos vencedores (cf. Ap 7,17; 5,14). Combate-lo-ão, mas Ele acabará por vencer os Seus inimigos (cf. Ap 17,14). É digno de receber o poder e a glória, de ser adorado pela criação inteira. (cf. Ap 5,12;7,1;13,8).”
A. Van Den Born (redator), Dicionário Enciclopédico da Bíblia.
Petrópolis, Ed. Vozes, 1987, coluna 802-803.
“No centro do Apocalipse está Cristo Jesus, como o Senhor ressuscitado e glorificado. Embora o livro não ignore a sua situação terrestre (nascimento do Messias Ap 12,5;a morte redentora, pelo sangue, Ap 1,5; 7,14; 12,11) é a glorificação que é colocada no centro: “Eu estive morto e eis que vivo pelos séculos dos séculos” (Ap 1,18). Esse “estar vivo” de Jesus indica a continuidade entre a consumação da vida terrestre de Jesus e a sua glorificação. Contudo, Ele não vive e reina numa glória desligada do tempo; Ele é o Senhor da história: só Ele pode revelar os desígnios de Deus (Ap 5,5; 6,1ss) e por em movimento os acontecimentos escatológicos. E não acompanha esses acontecimentos em grande distância. Ele mesmo luta, chefiando os seus sequazes (Ap 19,11-21), decidindo a luta pela sua palavra (Ap 19,13.21; cf. 1,16;12,11). O Apocalipse testemunha a presença dinâmica de Jesus na história da Igreja e do mundo.
Graças à sua vitória, a Igreja não precisa temer a luta contra os poderes antidivinos ( presentes e simbolizados no absolutismo estatal romano). Ele conduzirá os seus para a consumação definitiva (Ap 22,12-14) a qual, porque Jesus não é apenas mestre moral e exemplo, mas sobretudo o primeiro da nova criação de Deus (Ap 1,5), será também a consumação de toda a realidade criada (Ap 21,1-5). Todo o Apocalipse está penetrado da idéia da importância universal de Cristo para o mundo e a história. Ele não apenas está ligado com os seus fiéis individualmente (Ap 2,17; 3,5.12.21), mas por ter à história um impulso definitivo, pela sua morte e ressurreição. Ele é o principio da consumação final de céu e terra, mundo e Igreja. Essa mensagem da fé, o cristão deve aceitá-la, então há de participar desde já da vitória de Jesus, no meio das perseguições.
Cristo possui segundo o Apocalipse a dignidade régia e sacerdotal (Ap 1,12-16). Pela sua morte redentora Ele fez das suas testemunhas fiéis “um reino de sacerdotes para seu Deus e Pai” (Ap 1,6; 5,10; 20.6). Esse caráter sacerdotal do povo de Deus - já vivido de modo fragmentado na celebração da eucaristia, em que a comunidade anela a vinda do Senhor (Ap 20,22; 1 Cor 11,26) encontrará a sua coroação definitiva na adoração total de Deus e do Cordeiro (Ap 5,9-14; 7,10.15). Daí encontrarmos espalhados pelo livro tantos hinos, cânticos e doxologias, com toda a linguagem das imagens litúrgicas, do A T e do NT (Ap 8,3-4; 15,2-4; 19,1-9; 21,9-11.22-27). O autor exprime a esperança escatológica da comunidade, descrevendo o auge de sua vida comunitária, isto é, quando na liturgia canta o louvor de Deus. A liturgia terrestre, porém, é apenas uma fraca antecipação da liturgia celeste, que a esposa do Cordeiro celebrará na nova Jerusalém, liturgia de toda a criação, do novo céu e da nova terra.”
Espírito Santo
No livro do Apocalipse há diversos momentos em que se alude ao Espírito Santo. Assim, por exemplo, quando se fala dos sete espíritos que estão diante do trono, ou às sete lâmpadas acesas (cf. Ap 1,4; 4,5). Além dessas referências indiretas ensina-se claramente que é o Espírito Santo Aquele que fala às Igrejas (cf. Ap 2,7.11.17.29; 3,6.13.22). No fim, a voz do Espírito une-se à da Esposa para suplicar a vinda de Cristo (Ap 22,17). Isto recorda a doutrina de São Paulo acerca da oração do Espírito Santo, que intercede por nós com gemidos inefáveis (Rm 8,26).
No Apocalipse, o Espírito Santo é apresentado em função da Igreja, que alenta com a Sua palavra e anima com um impulso interior que a impele a suplicar a vinda do Senhor.
Igreja
Em sua realidade profunda, a Igreja está estreitamente associada à pessoa e à obra do Cristo:
- ela é a comunidade eleita, alvo do seu amor (Ap 1,5b; 3,9; 7,3-4; 12,6; 19,7-9) .
- ela foi redimida por seu sangue (Ap 1,5b; 5,9; 7,14; 14,3-4).
- ela é a inauguração do seu Reino, povo real e sacerdotal (Ap 1,6; 5,10; 7,15; 20,4-6).
Desta relação constitutiva, decorre uma comunhão “existencial”: o destino da Igreja é visto em sua associação com o destino do Cristo:
- o Cristo profeta, “testemunha fiel” (Ap 1,5; 3,14; 19,11); A Igreja é uma comunidade santa que exerce o testemunho: no mundo, ela está em missão profética (Ap 11,3-6; 12,17; 19,10; 22,9).
A Igreja está presente, de modo mais ou menos explícito, em todo o Apocalipse. Ensina-se que é una e universal, a Esposa de Cristo que clama com insistência suplicante a vinda do Senhor (cf. Ap 22,17-20). Mas também é apresentada como uma realidade localizada nas diversas cidades da Ásia proconsular (cf. Ap 2-3). Essas comunidades não constituem uma Igreja diferente da Igreja como tal, elas fazem parte da Igreja Universal, como parte que são da Igreja única de Cristo.
A visão apocalíptica da mulher no alto do céu (cf. Ap 12) foi objeto de diversas interpretações, entre as quais se destaca a eclesiológica. Segundo esta, a mulher representa a Igreja, submetida a grandes tribulações. As doze estrelas da coroa representam, ao mesmo tempo, as doze tribos do antigo povo de Israel e os Doze Apóstolos, colunas da nova Igreja. O passo recorda o profeta Isaías quando fala das dores do povo, comparando-as com a de uma mulher em parto.
A Igreja, além disso, é apresentada no Apocalipse sob diversas imagens, cujo simbolismo nos ajuda a compreender a sua beleza e grandiosidade. Assim fala-se da Cidade Santa, a nova Jerusalém que está junto de Deus, chamada também Cidade Amada (cf. Ap 3,12;20,9; 21,2.10). A glória e esplendor descreve-se com todo o luxo de pormenores que vão da riqueza dos seus muros até à fecundidade e pureza das suas águas (cf. Ap 21,16-27; 22,1-2). É chamada Templo de Deus, cujas colunas serão os vencedores, onde está a Arca da Aliança e onde presta culto a Deus a multidão incontável dos eleitos (cf. Ap 3,12; 7,15; 11,19).
Insinua-se que a Igreja é Povo escolhido, tanto no seu estádio terreno como no celestial. Com efeito, a voz do céu avisa os eleitos que vivem em Babilônia: “Saí dela, meu povo, para não serdes cúmplices dos seus pecados e partilhardes dos seus castigos” (Ap 18,4). No fim recorda-se que Deus habitará no meio do Seu Povo (cf. Ap 21,3). Assim a Igreja vem a ser o Novo Israel, crescente em número, e preservado num futuro de todo o mal pelo selo divino (cf. Ap 7,4-8).
Um dos dados eclesiológicos mais importantes e sugestivos de toda a Bíblia é constituído pelo amor de Deus pelo Seu Povo, representado como a Esposa amada. No Apocalipse fala-se com frequencia nestes termos, destacando as bodas do Cordeiro, cuja Esposa se enfeitou para o Esposo como uma noiva (cf. Ap 19,7; 21,9), que com tom ardente clama pela vinda do seu amado (cf. Ap 22,17). Um dos momentos mais significativos é o que descreve as núpcias do Cordeiro, motivo de alegria e regozijo (cf. Ap 19,7). Também alude à Esposa ao dizer “Felizes os convidados para o banquete das núpcias do Cordeiro” (Ap 19.9).
Toda a luta de Satanás contra Deus, apresentada no cap.12 e comentada na parte restante do livro, gira ao redor da Igreja, que por isso permanece o centro de interesse do Apocalipse.
Continua no próximo número.
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