O mês de agosto é, no calendário eclesial, o mês dedicado às vocações.
Vocação vem do latim vocare e significa chamado.
O cristão é, portanto, um convocado, um vocacionado por Deus.
E no bojo deste chamado, encontra-se o mistério de uma escolha, de um destino escolhido por outro e de uma missão à qual Outro envia.
O tema e o lema do Ano Vocacional, em 2003, não puderam deixar de remeter ao Batismo, sacramento da iniciação cristã: Batismo, fonte de todas as vocações. “Avancem para águas mais profundas”. Citando literalmente o evangelho de Lucas, capítulo 5, versículo 4, o lema narrava o episódio no qual aos desolados discípulos que nada pescaram, Jesus ordena avançar para águas mais profundas. A obediência ao mandato do Senhor fará transbordar de peixes as redes antes vazias e aumentar a fé daqueles que já desanimavam.
Ao mesmo tempo, este texto, com extrema acuidade e felicidade, nos remete por extensão à questão igualmente central e complexa da vocação e missão do cristão leigo, que não cessa de ser colocada como interpelação perpassada de renovada força para toda a Igreja neste início de milênio.
Ao comentar o lema do Ano Vocacional a CNBB afirmava que sua finalidade seria a de provocar a Igreja, comunidade de vocacionados e vocacionadas, a “fazer-se ao largo”, isto é, avançar, ousar, rompendo com toda estagnação ou acomodação.
E acrescentava que o plural utilizado desejava colocar em evidência a diversidade e a totalidade das vocações específicas.
Afirmava ainda, citando a constituição dogmática Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II, que ... o batismo é a fonte da comum dignidade e da legítima diversidade (cf. LG, 32).
O significado etimológico da palavra Batismo está intimamente ligado a este elemento que é seu sinal sensível, criador da realidade sacramental: a água. Batismo em grego quer dizer imersão, banho. Nas Escrituras hebraicas há já todo um riquíssimo simbolismo da água em chave cosmológica e histórica.
E a própria Lei judaica prevê e inclui em suas prescrições abluções e banhos rituais purificadores, usando a água como elemento central.
Na verdade o sentido da água no rito batismal cristão não está tão ligada em primeiro plano a uma idéia de purificação, mas de passagem que expressa salvação.O catecúmeno passa pela água e isto simboliza sua passagem da vida em pecado para uma vida nova, a vida da graça.
O rito cristão, além disso, distingue-se por seu caráter inclusivo de toda diferença.
Vai incluir as mulheres, os gentios de toda sorte, os escravos e os de qualquer condição social, inaugurando uma nova maneira de ser e de viver que não encontra espaço e não deixa lugar para a exclusão de qualquer espécie. É de uma Igreja composta de batizados que Paulo vai poder proferir a libertadora afirmação da carta aos Gálatas, capítulo 3, 28: Não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos sois um só em Cristo Jesus. O Batismo vai não só mostrar, mas sinalizar indelevelmente com a força do sacramento, que em Cristo Jesus todas as diferenças foram abolidas e que as águas batismais lavaram e diluíram todas as fronteiras separatistas, abrindo caminho a uma comunidade universal que não admite discriminações dentro ou fora de seus limites de pertença. É a partir do Batismo que se poderá, então, construir um novo modelo de comunidade. Uma comunidade onde todos são chamados vocacionados a tornar-se sempre mais semelhantes a Jesus Cristo, alguns no sacerdócio, outros na vida religiosa, outros ainda no matrimônio, na profissão e nos diferentes compromissos dentro da sociedade secular. Uma Igreja que leve realmente a sério esta igualdade fundamental gerada pelo Batismo estará avançando nas águas mais profundas do desafio de construir o Reino de Deus a partir do diálogo e da colaboração entre diferentes e não da uniformização que diminui a grandeza do chamado do Evangelho de Jesus.
Texto original de Maria Clara Bingemer, publicado em 2003 no JB
|