- Carta de Tiago
A pessoa de Tiago
O nome de Tiago ( Jacob) é a tradução de “Iákobos”, que seria uma variação do nome do patriarca Jacó, influenciada pelo grego. O Novo Testamento menciona dois Apóstolos chamados Tiago. O Tiago “Maior”, filho de Zebedeu e Tiago “Menor” filho de Alfeu (cf. Mc 3,17.18; Mt 10,2-3). Estas denominações não tem nada a ver com a estatura ou santidade de cada um deles, mas simplesmente constatar a diferente relevância que recebem nos escritos do Novo Testamento.
O Tiago Maior é irmão de João Evangelista, ele pertence, junto a Pedro e João, ao grupo dos três discípulos privilegiados que foram admitidos por Jesus a momentos importantes de sua vida: na ressurreição da filha de Jairo (Mc 5,37), na Transfiguração (Mt17) e no Horto de Getsêmani (Mc 14,33; Mt 26,37). No início dos anos 40, o Rei Herodes Agripa, neto de Herodes o Grande “mandou prender alguns membros da Igreja para os maltratar.
Assim foi que matou à espada Tiago, irmão de João “ (At 12,1-2). Isto mostra que Tiago tinha uma posição de relevância na Igreja de Jerusalém. Segundo uma tradição ele esteve na Espanha para evangelizar essa importante região do Império Romano. Segundo uma outra tradição, seu corpo teria sido levado à Espanha, à cidade de Santiago de Compostela, que até hoje é lugar de grandes peregrinações.
O Tiago Menor era originário de Nazaré e provavelmente parente de Jesus e irmão de Judas Tadeu, poderia ser filho de Maria de Cléofas, que esteve presente aos pés da cruz, junto à Mãe de Jesus (cf. Jo 19,25). O livro dos Atos dos Apóstolos sublinha o papel preeminente desempenhado na Igreja de Jerusalém. No Concílio apostólico que ali se celebrou afirmou junto com os demais que os pagãos podiam ser acolhidos na Igreja sem ter a obrigação de submeter-se a todas as normas da lei de Moisés, como por exemplo, a circuncisão (cf. At 15,13).
Depois da ida de Pedro para Roma, ficou como cabeça da comunidade de Jerusalém, sendo bispo desta cidade (At 12,17; 21,18ss) e com o tal recebeu a visita de Paulo, depois de sua conversão (Gl 1,19)
Paulo lhe atribui uma aparição específica de Jesus ressuscitado (cf. 1 Cor 15,7) e por ocasião de sua visita a Jerusalém, menciona-o antes de Pedro, qualificando-o como “coluna” da Igreja como ele (Gl 2,9). Era muito respeitado tanto por pagãos quanto por judeus convertidos. Foi isto sem dúvida o motivo por que, por instigação do sumo sacerdote Ánanos II, foi apedrejado em 62.
Tiago Menor é o autor da carta de Tiago.
Data e local de origem
O local de origem é a cidade de Jerusalém. Quanto à data de composição consideram-se duas possibilidades que dependem da relação entre Tiago e Paulo, relativamente ao tema da fé e das obras.
Na possibilidade de que Tiago conhecesse as Epístolas paulinas de Gálatas (54) e Romanos (58) e, sem as mencionar, se propusesse ir ao encontro de certas conclusões errôneas que alguns pretendiam tirar delas e que deformavam o ensinamento de Paulo. Neste caso, a data mais provável seria por volta do ano 60, pouco antes do seu martírio.
A outra possibilidade seria considerar prepaulina a discussão sobre fé e obras. Tiago teria sido o primeiro a tocar no assunto, antes que surgissem os problemas que foram solucionados no Concílio de Jerusalém (49-50). Segundo esta opinião, a Epístola de Tiago seria o escrito mais antigo do Novo Testamento.
Destinatários da Carta
Encontrando-se esta carta em primeiro lugar entre as assim chamadas “Cartas Católicas”, ou seja, as que não estavam destinadas a uma Igreja particular, como Roma, Éfeso, etc, mas a muitas Igrejas, pergunta-se: a quem ela é dirigida? A carta é dirigida às “doze tribos da Diáspora” (1,1), que são certamente os cristãos de origem judaica, dispersos no mundo greco-romano, sobretudo nas regiões próximas à Palestina, como a Síria e o Egito, com as quais Tiago e a comunidade de Jerusalém tinham um laço muito próximo.
Que esses destinatários sejam convertidos do judaísmo e crêem em Cristo, é o que confirma o corpo da carta uma vez que utiliza expressões familiares num ambiente hebraico: por exemplo, “ouvintes da palavra” (cf. 1,22-25); “assembléia” (2,2); o título “Senhor dos exércitos” (5,4); a menção de personagens bíblicos do Antigo Testamento (Abraão, Rahab, Jó, Elias) etc.
Pelo contrário, não menciona pecados mais freqüentes entre os pagãos, como a idolatria, os costumes dissolutos, a embriaguez, etc, como fará Paulo ao dirigir-se a cristãos provenientes dos gentios (cf.1 Cor 6,9-11; Gl 5,19-21 etc.).
Parece que os destinatários eram provados de diversas maneiras (1,2ss.12). Quase todas as desordens denunciadas se referem ao comportamento de uns com outros, não só por causa da fé por parte de judeus ou de gentios, mas por desavenças entre pobres e ricos (2,1-13; 5,1-6), amantes do fausto (2,2ss), arrogantes e opressores (2,5ss; 5,1-6), os mais tímidos dos fiéis assumiam uma atitude de adulação (2,1-9), enquanto outros se entregavam à cólera (1,19ss), às suspeitas e às rixas e à inveja (3,14-16; 4,1-3), à maledicência (4,11s) e à murmuração (5,9).
Tiago pode ter sido informado disso pelos peregrinos chegados a Jerusalém. Com o seu escrito quis ele amparar na provação os fiéis e reavivar-lhes o fervor primitivo. Toda a simpatia de Tiago vai para os aflitos e fracos; escreveu principalmente para eles.
Como os profetas do Antigo Testamento, ele discorda da injustiça social; mas ao mesmo tempo acha que a pobreza tem um valor religioso que faz dos desafortunados os amigos privilegiados de Deus - os “anawim”. E se pode recorrer aos sábios e salmistas para encontrar a expressão do seu pensamento, e realmente o fez, suas palavras tem vigor inédito, tirado da pratica e do ensinamento de Jesus.
Jane do Tércio |