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Vocação, questão de sorte? |AGOSTO


Na vida de toda pessoa há uma palavra que aparece numerosas vezes, diante da qual sentimos, pelo menos, um ligeiro respeito.
Seja no âmbito profissional, estudantil ou na vida afetiva palavra vocação parece, muitas vezes, uma espécie de mistério a ser descoberto, e até mesmo parece pesar sobre nós uma estranha ameaça de infelicidade se não permitirmos que essa tal de vocação tome conta de nossa vida. E grande a preocupação na formação dos nossos adolescentes e jovens no ensino secundário: orientação vocacional, acompanhamento e assessoramento profíssionalizante... Resolvido o problema - a escolha - ... que alívio!

E quando falamos em vocação no sentido religioso ou espiritual...
é um bicho de sete cabeças! A "ameaça" é ainda maior, porque não só abrange todas as outras facetas de nossa vida, mas é muito mais sutil, menos mensurável, analisável e estatisticamente comprovado. Além de tudo, é o próprio Deus quem, mais ou menos aleatoriamente -achamos - resolve para a gente o que é que cada um de nós deve fazer para ser feliz. Ele envia um misterioso chamado que até hoje nenhum aparelho registra, e só temos que perceber e obedecer. Mas... como se faz isso? Pais e mães preocupados com a fé de seus filhos, professores, catequistas e outros responsáveis levam as mãos à cabeça e talvez se encontrem sem recursos. Acostumamo-nos a falar em vocação, mas com a esperança de não ter que escutar a derradeira pergunta: "E como se sabe qual é?"

Existe outro problema. Antigamente vocação era para freira e padre, e o que "sobrava" era a grande massa do Povo de Deus.
Hoje não é mais assim. Reconhecemos a existência da vocação para o matrimonio e a paternidade/maternidade. Todos temos a nossa. A coisa se complica. Em qualquer caso... "vá falar com o padre para ele resolver, menino!"

Como discernir a própria vocação e ajudar os nossos jovens na fé? Talvez possamos começar perguntando se hoje, no século XXI, esse chamado pessoal de Deus existe ainda. Existe, e há maneira de descobrir qual é. Não é questão de estatística nem de pouca ou muita sorte. Vocação é o sonho de Deus para nós, que eternamente nos amou e nos quer ver felizes.

Eternamente sonhados e amados pelo Pai, e essencialmente livres, o lógico e humano é que esse chamado esteja escrito na nossa própria liberdade. Deus dá a vocação não como um acréscimo à pessoa que somos, mas como aquilo que faz com que todas as outras verdades de nosso ser encontrem seu lugar. É o ovo que faz com que todos os ingredientes do futuro bolo se misturem e confundam numa massa só.

O que Deus escreve em nós?

Ai sim, longe de capricho divino, vocação é DOM. Não carga ou ameaça, mas possibilidade. Não dever, mas poder. Não mistério além de nós, mas realidade no nosso íntimo. Conhecendo bem a pessoa que somos, descobrir o "chamado" é só questão de reflexão, auto-conhecimento, oração e confiança. Dessa maneira a vocação não parece algo tão terrível! Comecemos por nos perguntar como Deus escreve em nós: o que gosto de fazer? O que gostaria de alcançar? O que gostaria de ver, ter, dizer? O que gosto de ser? Há que se ter certa maturidade para dar nome a estas questões, porém já desde criança todos revelamos implicitamente os nossos próprios interesses.

Não vale a pena se apavorar. Na busca da vocação é dando pequenos passos que fazemos o caminho, e em cada pequena descoberta é dita uma nova palavra da grande mensagem de Deus. Nada do que somos ou gostamos sobra. Na nossa pessoa está escrita grande parte da resposta à pergunta pela "misteriosa" vocação; já vemos que não é tão misteriosa assim. Podemos animar e acompanhar crianças, adolescentes e jovens nesta descoberta do próprio ser, seguros de estarmos caminhando assim nas "ocultas veredas" do Pai.

E para nós, que provavelmente já temos a vida mais ou menos construída ou decidida, é sem dúvida muito interessante olhar para trás e para o presente, e comprovar como nisso que somos foi-se realizando a vida que vivemos. A vocação se faz realidade na confiança em Deus e no caminho percorrido agarrados à Mão do Pai.

Eloísa Maria Braceras Gago
Do Jornal Opinião

 
 
 

VEJA NO MÊS DE AGOSTO/2007:


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