O noticiário dos últimos tempos sobre a cena política brasileira me faz recordar uma crônica da grande Marina Colasanti.
Começa assim: "Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia". Acostumar-se à injustiça, ao sofrimento, à dor imerecida, segundo a escritora, vai desgastando a vida, de tanto se acostumar. Acostumar-se a ser ludibriado pela corrupção e descaso que reina entre nossos políticos também.
Quando aparece um novo escândalo de corrupção envolvendo membros do Legislativo, Executivo e Judiciário, somos invadidos por um sentimento de revolta que já passou a ser uma rotina emocional dentro do peito arfante e fatigado. Parece que a sadia indignação vai tomar outros peitos, fazer arfar outros pulmões. E que, enfim, vai haver um movimento forte o bastante para tomar atitudes sérias e adotar medidas dignas da gravidade do caso.
Mas depois começa o de sempre, ao qual, infelizmente, estamos mais que acostumados. O corregedor do Senado afirma em alto e bom som que quer absolver o presidente da Casa, Renan Calheiros, implicado em escândalo envolvendo dinheiro ilícito, lobista, amante e filho. O relator propõe ao Conselho de Ética o arquivamento do caso sob alegação que não há provas suficientes para incriminar o presidente.
Percebemos então que novamente a velha história vai se repetir, e todos serão inocentados. Dentro de algum tempo pouco! não se falará mais no caso, que passará a fazer parte da memória (fraca) nacional. E nos acostumamos um pouco mais: a ser enganados, a escutar mentiras, a presenciar por parte daqueles que elegemos atitudes e condutas que combinam com tudo, menos com a honestidade e a decência mínimas que se exigem de um cidadão que tem mandato parlamentar.
A única coisa que nos vem à mente enquanto tentamos sufocar a dor e o queixume é tentar adivinhar quando irá aparecer um novo escândalo que deverá ser muito maior que o anterior. Tomado por esse sentimento de revolta, a cada dia que passa o povo brasileiro vai se deixando levar para uma grande armadilha antidemocrática ao chegar à conclusão de que estes Poderes, que deveriam ter todo respeito da sociedade civil, só servem para acobertar mentiras e desonestidades.
Percebemos, mas nos acostumamos. Enxergamos a monstruosidade e o engano, mas nada fazemos. Não deveríamos, mas encolhemos nossa capacidade de indignação ética ao escolher o silêncio cansado e cúmplice. Preferimos calar, dar de ombros e administrar o amargo sabor de descrença que de nós se apossa. Não adianta mesmo. Por que se aborrecer? Não vai dar em nada mesmo...
A crônica de Marina Colasanti descreve com primor a sucessão dos sentimentos que são os nossos e, sendo nossos, são os de todo um povo. "A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá".
Sufocando dor e desalento, o Brasil vai se acostumando a mais um escândalo, a mais uma mentira, a mais uma indignidade.
Enquanto isso espera o próximo, que não se sabe quando nem em que dimensões virá. Em meio à floresta de trevas formada pela mentira, o engano, o despudor, procura abrir caminho para encontrar uma réstia de luz, de transparência, de razão para acreditar. Em não encontrando, espera. Talvez amanhã a luz se deixa encontrar.
Enquanto isso, a corrupção grassa, a responsabilidade recua, a coragem capitula, o desalento impera. Tudo porque a gente se acostuma, embora não deva. Tudo porque é melhor fingir que não viu ou não entendeu. Ou fazer de conta que não dói tanto assim. E poder continuar fingindo que a consciência está tranqüila, e a cabeça no travesseiro será imediatamente seguida do sono que não tem porque não vir. A gente realmente se acostuma. Embora saiba que não devia.
Maria Clara Bingemer
Teóloga e Professora da PUC(do JB)
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