A vida não pode ser dirigida por nossa capacidade e intenções, é necessário que confíemos totalmente no Senhor. Nele, com ele e por ele o mundo não será mais mar bravio, mas pacífico; e a terra não será mais deserto, mas planície fértil, onde teremos a possibilidade de ver produzir frutos abundantes. Mas é bom nos perguntar quantas são as vocações que surgem do batismo? Não vamos seguir hoje o que nos dizem os especialistas que, sem duvida, são coisas boas e nos ajudam. Muitas vezes eles costumam fazer tantas distinções e subdistinções que nós, pobres leitores da vida de cada dia, nos perdemos. Queremos fixar, como gente da gente, povo do povo, a nossa atenção no que vemos e no que aparece à primeira vista.
Vocação à vida
Primeira vocação. Não é difícil tomar consciência que a palavra vocação quer dizer chamado e que ninguém chama a si mesmo.
Já pensou se nós vamos sair por aí chamando o nosso nome e perguntando para nós mesmos? Os que nos escutam nos considerarão loucos e seremos levados para o manicômio. A vocação é o chamado que alguém faz para nós. É dom, é um dom de amor que nos é dado. Ninguém nasceu porque decidiu nascer, porque quis nascer, mas a vida nos foi dada pelo encontro de uma mulher e de um homem. Portanto, a primeira vocação é a vocação à vida. A nós cabe a responsabilidade de saber ministrar a vida que recebemos como dom. Como é bom viver, como é lindo, apesar das dificuldades, das lutas, dos desacertos e desesperos, poder levantar os olhos para o céu, todos os dias, e dizer a Deus: "obrigado porque me destes a vida". E como é maravilhoso poder dizer ao homem e à mulher que nos deram a vida e que chamamos de pai e mãe: "Obrigado porque me deram a vida". Mas a nós cabe viver a vida, dar sentido, dar rumo á existência.
Hora de decidir
Casa ou não casa. Não é difícil chegar a essa conclusão.
Qualquer pessoa se encontra diante de uma alternativa chegando a uma certa idade: ou casa ou não casa. É uma encruzilhada que nos leva a uma visão vocacional diante da qual somos chamados a tomar uma decisão. Alias, os mesmos pais insistem para que os filhos se decidam; não é normal ficar sozinho no mundo, sem um parceiro ou sem uma outra alternativa. O matrimônio, para ser feliz, deve ser não uma necessidade biológica e afetiva, mas, sim, uma vocação, uma escolha adulta e madura, na qual os dois, depois de mútuo conhecimento e discernimento, decidem viver a vida juntos, colocando tudo em comum: afeto, corpo, bens, vida para dar a vida. Hoje já não se fala muito do matrimônio como vocação, como carisma que é dado para o bem da comunidade. Os cursos de noivos são rápidos demais e nem sempre geram o que deveriam gerar, isto é, famílias autenticamente cristãs. Os que não se casam sentem a necessidade de descobrir o porquê de não escolherem o matrimônio. Não é fácil tomar uma decisão que ofereça caminhos novos para todos. Uma das realidades mais belas que Deus continua a fazer é a sábia distribuição de homens e mulheres no interior do planeta. Na China, por exemplo, onde as meninas não raramente são eliminadas porque não são "elementos produtivos", já se percebe um forte desequilíbrio entre homens e mulheres, e os homens andam à procura de uma mulher para se casar, mas isso se faz sempre mais difícil.
Os que não se casam...
Os que decidem não trilhar o caminho do matrimônio dão uma nova orientação à própria vida. Para sermos simples, podemos dizer que tem quem escolha a vocação ao ministério ordenado, que é o sacerdócio e, obedecendo ao chamado da Igreja, sabem que o matrimônio não se coaduna com o sacerdócio. Embora isso seja uma lei da Igreja, se faz necessidade no momento atual.
Dentre os que não se casam, há os que escolhem a vida consagrada nas suas várias manifestações e formas. Assim, dedicados exclusivamente ao Senhor, professam os conselhos evangélicos da pobreza, da castidade, da obediência e da vida fraterna. Diante disso, nós vemos uma multiplicidade de carismas que enriquecem a mesma Igreja, a mesma comunidade.
Casados ou não casados, todos somos chamados a dar sentido à nossa vida. A vocação é orientar a vida, não a serviço de si mesmo, mas, sim, de Deus e dos outros.
E você, o que vai fazer de sua vida?
Frei Patrício Sciadini
Ordem dos Carmelitas Descalços - SP |