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Cristologia (10) - A figura de Jesus em Mc

Sabemos que os evangelhos foram escritos à luz do Senhor ressuscitado. Conseqüen-temente, embora a exposição dos ensina-mentos dos Apóstolos aconteça dentro de um esquema cronológico, os evangelhos querem ser uma cristologia. Aquele que, pela sua ressurreição se manifestou abertamente Filho de Deus com poder era o próprio Deus que, em virtude da sua encarnação, quis se manifestar através de gestos humanos, com seu Poder e Glória. Para Marcos, Jesus realiza em si a figura da Glória de Iahweh, anunciada pela voz que grita no deserto. Os efeitos da sua ação superam de longe o que ela realizou em favor de Judá porque se, então, atuou uma libertação da escravidão dos babilonenses, agora propicia uma liberdade da escravidão do demônio. A Glória que agia então e tinha o reflexo do seu poder nas obras realizadas, agora é Jesus Cristo que assumiu a condição de servo e realiza uma obra que excede a todas. Por isso, quando chega o momento decisivo da sua manifestação e que é o momento da Paixão, Jesus assume o título de Filho do Homem, que evoca a figura da Glória de Iahweh de Ez 1 e de Dn 7,14. A ele será dado todo poder em virtude da sua imolação, manifestação suprema do Filho de Deus. Para Marcos existe um embate gigantesco entre Jesus e o demônio. De um lado, portanto, descreve toda a dignidade divina de Jesus e, de outro lado, todo o mal que o espírito do mal operou no homem. Jesus é digno de adoração, como professa o precursor João Batista. Ele batizará no Espírito porque o Espírito está com ele. A condição divina de Jesus é vislumbrada por Marcos, à luz da sua ressurreição, quando relembra o Batismo do Senhor. Ele não realiza em si, simplesmente, a figura do Messias e sim, por ela começa a atuar segundo a sua condição divina. Começa a redenção de Israel porque ele é a figura do filho que Deus chama do Egito e enquanto a Voz do céu que o anuncia, ao sair das águas do Jordão, é figura do Servo de Iahweh destinado à morte, no qual o Pai se compraz pela sua imolação. Quando o Espírito o impele para o deserto, Jesus, novamente, representa Israel que lá foi conduzido para ser tentado e, pela provação, se tornar um povo forte, pronto para entrar na terra prometida. Na sua condição divina, Jesus supera as tentações que, ao contrário, levaram Israel ao fracasso. A pregação acontece na figura de Jesus como o Profeta anunciado por Moisés, que Israel deve escutar, mas ele é, como diz a Carta aos Hebreus, o Filho que nos fala nos últimos tempos e nos anuncia o Reino. Com a autoridade divina que lhe é própria, chama aqueles que serão os que continuarão a sua obra e aos quais outorgará o poder de batizar, no momento da sua ascensão ao céu. A condição divina de Jesus perspira por todos os seus gestos de maneira que ele é a Expressão do Ser de Deus, na forma mais condizente ao homem, ele mesmo tendo-se feito homem.

A sua condição divina se torna evidente quando exerce o poder que ele tem de perdoar os pecados. Os adversários que lhe negam esse poder porque não o consideram de condição divina, comprovam que Jesus, realmente queria, naquele momento, mostrar que ele era Deus. Igualmente clara é a manifestação da sua divindade quando diz que ele é o Senhor do sábado.

Esta Pessoa divina age atuando em si tudo o que a Escritura profetizou, desvendando o mistério de uma redenção que um membro da própria estirpe pecadora realizaria e o anúncio do filho da Virgem, proclamado Emanuel, isto é, Deus conosco. Ao proclamar-se o Esposo, Jesus anuncia que nele se realizam as Núpcias tão solenemente profetizadas por Oséias, tudo se concretizando, da forma mais admirável e surpreendente, pela Morte de Cruz, a ponto de levar o centurião a exclamar: "De fato, este homem era Filho de Deus!" (Mc 15,39).

Para Marcos, o anúncio do anjo da ressurreição, que tanto surpreendeu os Apóstolos, é, no fim do seu Evangelho, o arremate de uma cristologia atentamente conduzida pela lembrança de tudo o que Jesus fez e ensinou: Jesus de Nazaré é o Messias que pela sua Ressurreição revela o destino do homem chamado a ser, como ele, o adão que vence o Maligno pela obediência e imolação.

Perguntas para uma reflexão:

1ª) Por que devemos ler os evangelhos à luz da Ressurreição?

2ª) De que forma Jesus supera a Profecia?

3ª) Quais são os gestos pelos quais Jesus revela a sua condição divina?

Pe. Fernando Capra/CRSP

 
 

VEJA NO MÊS DE AGOSTO/2006:


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