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Carta ao Meu filho |AGOSTO


Filho,
Muito tempo atrás, um poeta libanês, chamado Kalil Gibran, escreveu um poema em que dizia mais ou menos o seguinte:
"Nossos filhos não são NOSSOS filhos. São filhos da ânsia da vida por si mesma..."

Para minha "tristeza", o poeta tinha razão. Nós, pais, vivemos uma ilusão de posse em relação aos filhos. E que os tivemos tão "nossos", tão próximos e dependentes, abraçados aos nossos joelhos, que julgamos que ia ser sempre assim, que sempre os teríamos ao nosso lado, buscando abrigo, conselho, carinho.

A vida, frequentemente, tem outros planos...

Você cresceu, busca agora seu próprio caminho e, apesar do nosso sentimento de perda, é bom que seja assim. A generosidade maior de um pai ou de uma mãe é deixar como herança os próprios filhos, legado que fica para a história dos homens. E a alegria maior será perceber que essa história ficou melhor, mais justa e fraterna porque nossos filhos passaram por ela.

Mas, antes que você se despeça, eu queria lhe dizer algumas coisas. Algo para levar na bagagem e usar, mesmo depois que você tiver ido embora para ainda não sei onde.

Quero, primeiro, lhe dizer o porquê de sermos uma família.

É que trazemos no mais profundo de nós mesmos o DESEJO da relação, do encontro. É o fruto mais visível da "imagem e semelhança" que guardamos com Deus. Ele, o Deus que Jesus nos revelou, é família. Talvez por SER AMOR, como nos diz São João, Deus não teve alternativa, a não ser assumir-se assim uma "família" una e trina.

É assim também porque quem ama, ama alguém. Aquela imagem de Deus como um velho solitário e vingativo não combina com o Abba (Papai) de que Jesus falava. Desde sempre, na Trindade, Deus é encontro, relação, comunidade, família. Nós somos o reflexo disso. Somos "imagem e semelhança" de um Deus que, na sua unidade, se fez pluralidade, para poder viver plenamente o amor.

Por isso, tudo o que significa isolamento, distanciamento, tudo o que nos afasta do outro, fecha nosso coração, seca o nosso desejo de afeto, ternura, tudo isso não vem de Deus. O desamor é desumano, eu já lhe disse muitas vezes.

Deus, na verdade, apaixonou-se de tal forma pela sua criatura que, num gesto de amor meio louco, fez-se um de nós e misturou-se à nossa história por meio da encarnação...

Assumiu-se família, cativou amigos, teve até uma "panelinha" (Pedro, Tiago e João) e, entre eles, elegeu o "melhor amigo", João, o discípulo que Jesus amava.

Viveu encontros profundamente humanos com todo tipo de gente. Não discriminou ninguém, mas mostrou claramente que preferia a companhia de pecadores públicos, prostitutas, gente do povo mais simples, os que mais necessitavam do seu amor.
Gostava de festas, não perdia uma, e era dotado de uma imensa alegria pessoal, que contagiava todos à sua volta.

No seu caminho pela vida, você é chamado a seguir Jesus e segui-lo, é buscar comportar-se como ele. Ele não se isolou, nem era alérgico ao ser humano mais frágil. Pelo contrário, a esse buscou com mais empenho e carinho. Desse aproximou-se com mais ternura. Faça o mesmo em sua caminhada, do modo como tentamos viver em nossa casa.

Nossa família, com todos os seus limites, é um ambiente em que Jesus, acredito, se sentiria à vontade. Ele seria capaz de amar cada um de nós do jeito que somos. Ele saberia respeitar e valorizar a pessoa diferente que cada um é e teria prazer em conviver conosco. Talvez até mesmo por causa das nossas fragilidades.

Ele não nos evitaria, não fugiria do nosso abraço, do olhar carinhoso, do afeto manifestado em tantos pequenos gestos.
Creio que, se Jesus viesse à nossa casa, procuraria ouvir a história de cada um, perderia um tempo enorme conversando, falando, ouvindo. Depois, se sentaria à mesa conosco, faria uma refeição, elogiaria o tempero, lembraria de uma receita da sua mãe.

Depois, assistiria a um programa de televisão, a um filme ou novela, ou um telejomal talvez. Comentaria, faria críticas, buscaria o lado bom que sempre existe em cada coisa, em cada pessoa.

Diria que quase nada é bom ou ruim em si mesmo, mas a maneira como usamos as coisas e nos relacionamos com as pessoas, isso é que faz toda a diferença.

Imagino Jesus, assim, humano e apaixonado por tudo que é humano. Afinal, a paixão também é algo muito de Deus. Aliás, foi porque nós nos apaixonamos que você nasceu. Em você, o amor que se expressa no erótico fez-se sagrado.

Não creio num Deus que queira nos afastar de tudo e de todos, isolando-nos num canto onde só haja pureza. Quando Jesus se encarnou em nossa história, ele se fez Deus Conosco, assumiu tudo o que somos, nossas qualidades e defeitos, e nos convidou para o MAIS.

Hoje, ele envia você.

Por onde for, leve no coração essas poucas e preciosas certezas: você é muito amado, desde sempre, desde o sonho de Deus, sonhado antes mesmo do nosso sonho paterno e materno.

As sementes plantadas em seu coração, na convivência diária, o aprendizado do perdão, o desejo de paz, a sede de justiça e fraternidade, a busca de realização pessoal, tudo é, na verdade, espaço e instrumento para que você seja sinal de um Deus que nos amou primeiro e fez da nossa vida missão.

Vá com Deus, meu filho, e que a bênção do Deus-Família esteja sempre em seu coração.

Um beijo cheio de carinho e ternura,
Seus pais.

Eduardo Machado do jornal Opinião

 
 

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