“O Cristão e o plebiscito do desarmamento”
"Felizes
os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus" (Mt
5, 9)
Uma grande questão nacional começa a ganhar força
e espaço nas discussões das nossas paróquias, comunidades
e pastorais: A questão do desarmamento e a aproximação do
plebiscito nacional sobre a proibição de venda de armas no Brasil.
Entretanto, qual a importância deste tema para nós, Cristãos
engajados e preocupados com a promoção do tão sonhado Bem
Comum?
Se tomarmos como base, para a análise deste problema, os
números de mortes por armas de fogo em nosso país, fica fácil
entender porque o Governo Brasileiro, juntamente com a CNBB, o CONIC (Conselho
Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil) e a sociedade civil organizada estão
tão preocupados com o assunto em questão: cerca de 100 pessoas morrem
diariamente por armas de fogo em nosso país. Esses dados são tão
preocupantes que, segundo o IBGE, essas mortes chegam a influenciar negativamente
os cálculos da expectativa de vida do Brasileiro. E não pára
por aí: Esse número dá ao Brasil um triste título:
O de campeão mundial em mortes por armas de fogo.
Dentre os vários
argumentos que contestam a proibição da venda de armas podemos destacar
dois que mais nos chamam a atenção: A falta de "foco"
para solucionar o problema da violência e a questão do direito a
legítima defesa do cidadão.
O primeiro argumento toma por
base a questão de que não será "desarmando" a população
que a violência será resolvida. Entretanto, precisamos lembrar
que a questão do desarmamento não é e nunca foi o ponto central
para resolver os problemas de segurança pública em nosso País.
Existem muitos outros aspectos ligados à violência, tais como, a
profunda injustiça social gerada pela falta de distribuição
de renda, a falta de uma política de reforma agrária séria
que crie mecanismos de incentivos para fixar o cidadão da zona rural no
campo, evitando o "inchaço" dos grandes centros urbanos, além
de uma política de segurança pública nacional e regional
integrada e atuando em conjunto com os poderes públicos em todos os níveis
(federal, estadual e até mesmo municipal). O que precisamos entender é
que a questão do desarmamento tirará de circulação
as armas dos cidadãos que não estão preparados para utilizá-las
e que quase sempre acabam causando acidentes fatais com os seus portadores ou
causando a morte em assaltos dessas pessoas que acreditavam que com uma arma estariam
resolvendo o seu problema de segurança pessoal. As estatísticas
oficiais deixam claro que não é uma arma na mão do cidadão
que o deixará mais seguro. Muito pelo contrário; ela aumenta significativamente
o índice de violência causado por armas de fogo.
O segundo
argumento, o da legítima defesa, é o que ganha mais força
entre aqueles que são contrários à proibição
do comércio de armas. Entretanto, o que mais tem preocupado aos militantes
que lutam pela sua proibição não é o argumento em
si, mas o que se esconde por trás desta desculpa. Neste argumento que,
muita das vezes, ouvimos do cidadão comum, existe uma rede de interesses
financeiros escondida e muito bem disfarçada enganando quase todos aqueles
que se utilizam dessa justificativa. Um bom exemplo é o caso das indústrias
bélicas que ganham fortunas em todo mundo financiando principalmente campanhas
políticas em troca de guerras e da liberação da venda de
armas, independente de suas conseqüências. A liberação
do consumo de produtos que atentem direta ou indiretamente contra a vida, sempre
possuem o lobby das empresas que lutam para garantir os seus lucros deixando a
questão da vida em segundo plano.
Se as indústrias bélicas
perderão muito dinheiro com a proibição, ganharão
muito mais as famílias brasileiras na valorização da vida
e dos direitos humanos. Precisamos, mais do que nunca, considerar os valores éticos
Cristãos para respaldar as nossas atitudes e reflexões acerca deste
tema. Entre o capital e a vida humana, qual seria a opção de Cristo?
Para
terminar, eu gostaria de convidar a todos os nossos amigos leitores da nossa coluna
a refletir sobre o Evangelho de São Lucas 6, 27-35, quando Jesus nos diz:
"Amai aos vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam; (...) A quem te
bater em uma face, oferece também a outra". Difícil, não?
Entretanto, será através de atitudes como essa que construiremos
um reino de Justiça e Paz, conforme consta no versículo do Evangelho
das "Bem-aventuranças" (Mt 5,9) que ilustra o início do
artigo deste mês.
Um forte abraço a todos e a Paz de Cristo!
Robson
Campos Leite Email : feepolitica@terra.com.br ::>
Matérias anteriores |