Tributário como qualquer cidadão,
sujeito e objeto da operação política, que por definição
visa ao bem público, supondo já aí a ética como seu
componente essencial, o artista não tem alvará que o exima de participação.
O poder que detém de comover as pessoas e pôr em marcha as suas energias
vitais só faz crescer sua responsabilidade quanto a opções
políticas. Ainda que a arte só obedeça a seu próprio
estatuto e esta é sua liberdade -, o artista permanece cidadão e
cidadão com o outro, o que significa autonomia relativa e de novo: responsabilidade.
Não encontrará um argumento de natureza afetiva, muito menos artística,
que o perdoe de omissões. Paga-se por elas um alto preço.
O
que afeta o bem coletivo deve receber dele, ainda que sangre, registro e repulsa
nesta hora em que é mais que um arrepio cívico o sentimento de indignação
que toma conta de nós, povo brasileiro. Chegou à sala de visitas
a matéria viscosa que descia pelo ralo, sem deixar vestígios. O
encanamento estourou com grande ruído e péssimo odor. O palanque
ruiu e deixou nus, apanhados com o pé-de-cabra na mão, em direção
ao cofre, os que deviam guardá-lo de rapinagem e devassa. Não foi
ouvida a admoestação bíblica: "O sábio será
apanhado em sua própria astúcia".
Foram apanhados e
mentem, e mentindo sem pejo urdem, como comadres, os remendos da mortalha. É
à luz do dia, nas manchetes, a barganha dos valores éticos, sem
véu nem capuz os pequenos bandidos costumam cobrir o rosto. Transparência
e probidade por obscuridade e chantagem. Todo um país à mercê
dos que ocupam gabinetes como tronos, com a espantosa ausência de constrangimento
e sem-cerimônia.
Por isso tudo devemos nos mobilizar. A exceções
sobejamente conhecidas, quem devia presidir e legislar negocia e trapaceia. Peçamos
aos senadores, ao presidente do Brasil, a todo o Congresso: não deixem
o Brasil á deriva, abandonem o ofício da morte pela celebração
da vida. Usem seus poderes em nosso favor. Poupem-nos, depois do sacrifício
de Tiradentes, de ir a Brasília juntar ao grito dos excluídos de
toda espécie o grito dos sem-representação. Permitam-nos
com menos sofrimento e vergonha ser uma verdadeira República.
Daqui
da minha cidade, Divinópolis, em Minas Gerais, no interior do Brasil, nos
reunimos na praça pedindo ética aos políticos.
Acredito
que o povo mobilizado em todo o país desinstalará as más
excelências dos lugares onde nos insultam quando deviam nos servir. Vamos
promover manifestações, atos públicos, caminhadas, abaixo-assinados.
O nosso boletim se chamou aqui em Divinópolis "Ética na Política".
Mas pelo rumo das coisas acho que precisamos algo mais forte.
Adélia
Prado Escritora, poeta, autora de Oráculos de mai
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