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O artista, a ética e a política| AGOSTO


Tributário como qualquer cidadão, sujeito e objeto da operação política, que por definição visa ao bem público, supondo já aí a ética como seu componente essencial, o artista não tem alvará que o exima de participação. O poder que detém de comover as pessoas e pôr em marcha as suas energias vitais só faz crescer sua responsabilidade quanto a opções políticas. Ainda que a arte só obedeça a seu próprio estatuto e esta é sua liberdade -, o artista permanece cidadão e cidadão com o outro, o que significa autonomia relativa e de novo: responsabilidade. Não encontrará um argumento de natureza afetiva, muito menos artística, que o perdoe de omissões. Paga-se por elas um alto preço.

O que afeta o bem coletivo deve receber dele, ainda que sangre, registro e repulsa nesta hora em que é mais que um arrepio cívico o sentimento de indignação que toma conta de nós, povo brasileiro. Chegou à sala de visitas a matéria viscosa que descia pelo ralo, sem deixar vestígios. O encanamento estourou com grande ruído e péssimo odor. O palanque ruiu e deixou nus, apanhados com o pé-de-cabra na mão, em direção ao cofre, os que deviam guardá-lo de rapinagem e devassa. Não foi ouvida a admoestação bíblica: "O sábio será apanhado em sua própria astúcia".

Foram apanhados e mentem, e mentindo sem pejo urdem, como comadres, os remendos da mortalha. É à luz do dia, nas manchetes, a barganha dos valores éticos, sem véu nem capuz os pequenos bandidos costumam cobrir o rosto. Transparência e probidade por obscuridade e chantagem. Todo um país à mercê dos que ocupam gabinetes como tronos, com a espantosa ausência de constrangimento e sem-cerimônia.

Por isso tudo devemos nos mobilizar. A exceções sobejamente conhecidas, quem devia presidir e legislar negocia e trapaceia.
Peçamos aos senadores, ao presidente do Brasil, a todo o Congresso: não deixem o Brasil á deriva, abandonem o ofício da morte pela celebração da vida. Usem seus poderes em nosso favor. Poupem-nos, depois do sacrifício de Tiradentes, de ir a Brasília juntar ao grito dos excluídos de toda espécie o grito dos sem-representação. Permitam-nos com menos sofrimento e vergonha ser uma verdadeira República.

Daqui da minha cidade, Divinópolis, em Minas Gerais, no interior do Brasil, nos reunimos na praça pedindo ética aos políticos.

Acredito que o povo mobilizado em todo o país desinstalará as más excelências dos lugares onde nos insultam quando deviam nos servir. Vamos promover manifestações, atos públicos, caminhadas, abaixo-assinados. O nosso boletim se chamou aqui em Divinópolis "Ética na Política". Mas pelo rumo das coisas acho que precisamos algo mais forte.

Adélia Prado
Escritora, poeta, autora de Oráculos de mai


 
 
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