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Há
uns dois anos, um aluno em seus primeiros dias de universitário,
recém-saído do 2º grau, me perguntou, sem mais
nem menos, o que era mais importante na vida. Seria estudar? Ser
ético? Respondi, sem pensar: o mais importante é ser
santo!
Penso que hoje, como sempre é claro, ser santo é prioridade
absoluta neste mundo tão complexo, tão repleto de
contradições, de dores fundas - ditas e não
ditas - e de apelos a alegrias superficiais, que não banham
a alma nem o espírito.
São Francisco foi escolhido o homem do milênio passado,
e isso, em países majoritariamente protestantes... Por que
ele nos encanta? Porque seu testemunho é o de um apaixonamento
completo por Deus e, a partir daí, pelos irmãos -
homens e mulheres - e pela natureza criada. Também porque
é visível que tudo nele era cheio de gratuidade e
misericórdia, expressão clara do amor de Deus.
Francisco e Clara encantam, em suma, porque viveram radicalmente
o evangelho. É leveza o que eles nos passam, especialmente
para nós hoje, tão cheios de compromissos e agendas
cheias... Clara e Francisco: um cuidado evidentemente inspirado
pelo Espírito, um cuidado santo para cada pessoa que atravessasse
seus caminhos...
E não quero dizer que tanto um quanto outro não tiveram
lá seu tempo de experiências de dores morais e do silêncio
de Deus... É que diante de vidas tão carregadas de
entrega amorosa, houve muito espanto e rejeição, até
por parte dos mais chegados. Sim. Também eles tiveram duvidas
e uma silenciosa e sofrida,espera da resposta de Deus.
E preciso cortar da nossa imaginação uma certa visão
idílica desses dois santos. Quem viveu entre leprosos excluídos,
pobres e assaltantes não pode ter vivido com os "olhinhos
voltados para o céu". A alma, sim. Era imensa em Deus
e, por causa disso, imersa profundamente nas lutas e na vida do
povo. Fermento na massa!
Nada do que é humano me é estranho, disse um filósofo.
E Francisco e Clara: todo ser humano é digno de respeito,
amor e solicitude...
Hoje é bom a gente refletir muito sobre nossa presença
no mundo... As pessoas estão como ovelhas sem pastor. Como
estão nossas agendas? Repletas? Não há nada
de errado nisso, desde que prevaleça o cuidado com aquele
que passa, de relance ou não, na nossa vida, e quer um momento
(dentro da eternidade, lembre-se...) de atenção, olho
no olho, coração para coração... É
o próximo da parábola que nos vem enviado por Deus.
Há pouco tempo li um texto crítico sobre o poder de
Roma, do Papa, da Cúria Romana etc. Era uma reflexão
muito correta sobre seus acertos e equívocos ao longo dos
2000 anos da Igreja.
Considerei que, sem descartar a análise sobre o assunto,
deveríamos pensar, também, no poder que exercemos
e no poder mais próximo de nós. Se também não
estamos encastelados em nossas casas, em nossas comunidades, em
nossas pastorais, nas sacristias e em nossas congregações
religiosas. Assim, em nossas cidadelas, podemos nos manter confortáveis
na nossa rotina e nos protegemos do incômodo das pessoas que
nos cercam...
É bom pensar que fora da nossa agenda (certamente cheia de
boas coisas e carregadas de doação) esta o imprevisto
de Deus. Está o convite para crescer em santidade: "Sede
santos como o Pai é santo". No imprevisto está
mais uma chance da conversão permanente.
A vida do samaritano que é atravessada repentinamente por
alguém caído e machucado no caminho... Francisco,
convertido ao AMOR no encontro com o leproso... Tudo gratuito e
imprevisto... armadilhas amorosas de um Deus que, através
das pessoas, nos abraça...
Quem será nosso leproso?
Zélia Castilho Rogedo - professora de Sociologia no Instituto
Tomás de Aquilo e membro da Ordem Franciscana Secular - BH
(Texto retirado do Jornal Opinião)
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