Jesus
aproxima-se dos discípulos, mas não é reconhecido
Jesus aproxima-se dos discípulos caminhando detrás deles,
em silêncio, como se fosse um peregrino que volta para casa
depois de celebrar a Páscoa em Jerusalém. Os discípulos,
porém, estavam tão fechados em si mesmos, tão
preocupados com os seus problemas, tão abatidos, literalmente
tão cabisbaixos que, provavelmente, nem perceberam sua presença.
"Seus olhos estavam impedidos de reconhecê-lo". Seu
coração e sua memória estão ainda fixados
com "Jesus, o Nazareno", presos a tudo o que ele significou
para eles. "Estão ainda possuídos pelo tesouro
que criam possuir e que lhes foi roubado" (M. de Certeau). O
leitor e o ouvinte do evangelho sabe, porém, que o desconhecido
que se aproxima dos discípulos é Jesus ressuscitado.
Santo Agostinho volta uma e outra vez sobre esse tema. "O Mestre
caminhava com eles no caminho, e ele próprio era o caminho
(...).Ia com eles como companheiro de caminho, e ele próprio
era o caminho (...). Ia com eles como companheiro de caminho, e ele
próprio era o guia. Certamente viam, mas não o reconheciam."
"Haviam perdido a fé, haviam perdido a esperança.
Mortos eles, caminhavam como vivente, caminhavam mortos com a própria
vida. A vida caminhava com eles, mas nos seus corações
ainda não havia vida". "Seus olhos estavam impedidos
de conhecê-lo. Porque era conveniente que seu coração
fosse melhor instruído, retarda o dar-se a conhecer".
Como havia acontecido com Maria de Mágdala, o que impede os
dois discípulos de reconhecer Jesus é a falta de fé.
"Estavam incapacitados para reconhecê-lo". Nós
sozinhos não somos capazes de compreender o sentido da vida
e da morte de Jesus; e, por isso, somos também incapazes de
compreender o sentido de nossa vida; mais particularmente, dos nossos
fracassos. É o próprio Jesus quem tem de fazer-nos ver
esse sentido à luz do mistério pascal. E o faz caminhando
conosco, iluminando nossos olhos e fazendo arder nosso coração,
ainda que demoremos em reconhecê-lo. Ele sabe que é necessário
tempo para que os olhos da fé se abram e o reconheçam.
O evangelista não acentua a aparição, mas "o
caminho", o itinerário que é necessário
percorrer para no fim dele, reconhecer o Senhor.
Os motivos para nos afastarmos de Jesus, assim como os motivos para
não reconhecê-lo quando vem ao nosso encontro, podem
ser os mais variados. Não importa. O importante é que
ele nos conhece e vem sempre ao nosso encontro pelos nossos caminhos.
E, no fim, abre os nossos olhos para que o reconheçamos. A
parábola do Bom Pastor, que vai em busca da ovelha perdida
para conduzi-la de volta à comunidade dos discípulos,
e a parábola do Bom Samaritano, que se aproxima de todos os
feridos, desesperançados e abandonados no caminho para curar
pessoalmente suas feridas, derramando sobre elas o vinho e o bálsamo
de suas palavras, e para hospedá-los e alimentá-los
com o pão da comunhão, continuam sendo parábolas
autobiográficas do Ressuscitado. Elas expressam com um realismo
e uma força insuperáveis, o comportamento de Jesus conosco.
E nós, como nos comportamos com os que se afastam da comunidade
e da memória de Jesus?
No fundo do coração dos dois discípulos há
um grande vazio que eles, inconscientemente, querem preencher conversando.
Não poucas vezes é através desse vazio deixado
em nós pela morte de nossas esperanças, é através
das rachaduras de nossa lógica, que Deus se introduz em nossas
vidas e acaba transformando-as radicalmente. A graça de Deus
pode atingir-nos penetrando pelas brechas que ainda não foram
totalmente fechadas; pode aquecer nosso coração soprando
as últimas brasas que, sob as cinzas da desilusão, ainda
permanecem acesas. Só o olhar amoroso de Deus conhece os tempos
e os caminhos que temos de percorrer para que nossos olhos sejam abertos;
só o coração de Deus, que nunca desiste de buscar-nos
para reencontrar-nos e refazer-nos, conhece a hora e o lugar em que
os nossos corações, mesmo estando duros e desesperançados,
podem ser aquecidos de novo.
O encontro pessoal com Jesus é condição imprescindível
para conhecê-lo ou reconhecê-lo. Os caminhos que levam
a esse encontro podem ser os mais diversos e mais ou menos longos,
mas a experiência do encontro será sempre a origem de
uma mudança no nosso modo de pensar, de sentir e de agir; na
nossa inteligência, no nosso coração e na nossa
vida. Jesus não entra nunca nas nossas vidas como um intruso.
Aproxima-se de nós passo a passo. Antes de começar a
falar, escuta-nos e olha-nos. Só depois de comungar em silêncio
com a nossa tristeza, dirige-nos sua palavra e toca no ponto nevrálgico
do nosso sofrimento, para o qual não conseguimos encontrar
uma resposta satisfatória. Essa foi a pedagogia usada por Jesus
ao aproximar-se do dois discípulos no caminho de Emaús.
Pe. Álvaro Barreiro Jornal Opinião |