A fé cristã se concentra toda ela no mistério pascal de Jesus Cristo. Sendo assim, o cristão é convocado pelo Espírito Santo não apenas a contemplar, mas inserir-se radicalmente no dinamismo da vida, morte e ressurreição do Senhor, revivendo-o em profundidade na amplitude de sua esfera pessoal e comunitária.

O mistério de vida conclama a uma experiência de acolhida: acolhimento daquilo que somos. O mistério de morte, por sua vez, comporta uma experiência de duplo desprendimento: abandono do não ser e entrega do ser.
Na dimensão primeira do desprendimento, somos impelidos a abandonar tudo aquilo que não somos, ou seja, as circunstâncias internas e externas, próprias do pecado pessoal e coletivo, que constrangem nossa realização essencial. No ato de abandono, extirparmos de nós próprios tudo aquilo que não tem razão de permanecer conosco, porquanto debilita e paralisa a nossa liberdade dimensionada ao amor. Trata-se de nossas feridas contraídas, rancores embotados, memória viva de fracassos pessoais, ressentimentos, sentimentos de culpa por atos impensados ou voluntariamente assumidos, complexos vários...
Situações essas que formam uma espécie de couraça negativa dentro de nós, a nos impedir de chegar àquela paz e serenidade de vida tão cobiçadas pelo ser profundo.
Mergulhando-se na experiência da morte-abandono, poderemos morrer para essas angústias, para esse passado negativo que nos aprisiona e aflige. E se morre se abandonando, não se apegando a esse passado subjetivo.
Muito nos preocupa constatar; que grande parte das pessoas estão demasiadamente apegadas ao passado negativo. Apegadas inclu sive ao próprio pecado. Quantas pessoas não se convencem de que estão perdoadas mesmo quando recebem o perdão sacramental.
A segunda dimensão da experiência de morte vem significada pelo ato de entrega. Abandonamos aquilo que não somos e entregamos a Deus aquilo que somos, para que o futuro (o que seremos) chegue até nós. O movimento da graça é movimento de pulsão para frente. A experiência da entrega significa, portanto, jogar nas mãos de Deus, do futuro, a nossa situação presente, tanto atual quanto virtual.
A partir dessa dupla atitude de abandono e entrega, aproximamo-nos existencialmente, daquilo que Jesus vivenciou e realizou em sua própria experiência de morte. Assumindo, solidariamente, a dor do mundo, fez-se, como disse Pauto, “pecado por nós", para que o próprio pecado deixasse de existir.
Acolhendo os fracassos, a baixeza, a pecaminosidade da humanidade, abandonou-os de vez na hora da morte. A graça da ressurreição veio para expurgar, banir o sofrimento, o pecado, a maldade do mundo que não deveriam e não devem, na ordem do ser, continuar a existir. Mas Jesus também fez de sua vida uma entrega total. Jesus nunca esteve preso a nada, nem ao melhor de si, quanto menos à negatividade do mundo, embora solidário aos mortais. Também nós, chamamos à pobreza espiritual, a nada devemos nos apegar, nem ao nosso positivo, muito menos ao nosso pecado. Como cristãos, seguindo o exemplo de Jesus, devemos nos lançar no outro, na expectativa de que Deus, realize em nós aquilo que nos convém. Portanto, a dinâmica da vida e da morte desemboca no futuro em que seremos. O que somos entregamos e assim nos abrimos para aquilo que seremos pela graça de Deus. O que seremos, então? Não compete a nós agora dizer. Reservemos essa resposta para Deus.
Padre Luiz Eustáquio Santos Nogueira |