Carta aos Romanos (12)
Cristo, o Adão verdadeiro (5,12-21)
O Evangelho preanunciado, isto é, a Lei e os Profetas, já ilustrava a Pessoa de Cristo através da figura de Adão. As narrativas sapienciais de Gn 1-3 permitem definir as seguintes prerrogativas de Cristo: ele é o homem criado à imagem e semelhança de Deus, chamado para viver a plena dependência e obediência ao seu Criador e ser o mediador da louvação que parte da criação e se eleva a Deus. Essas prerrogativas não se desenvolveram nos membros da estirpe humana, que se revelou rebelde. Cristo, em virtude da sua condição divina, pelo contrário, cresceu em “idade, sabedoria e graça” (Lc 2,52). Foi o verdadeiro Adão, que justifica, que nos constitui, individualmente, na condição de realeza, pelo Espírito, possibilitando o domínio sobre os instintos e a conseqüente mediação de louvação nossa entre o mundo e o seu Criador.
Cristo, enfim, nos dá a vida divina, sempre pelo seu Espírito, que é penhor de imortalidade, ressurreição na carne, filiação divina, herança eterna. Pela comparação vemos quanto Cristo Jesus enriquece o homem ao se tornar um de nós. É esse enriquecimento que ilustra o que falta a ser completado por Deus na obra da criação do homem.
Contudo, isso acontece num contexto de pecado. A narrativa sapiencial de Gn 3 surgiu exatamente para explicar esse mistério.
O sábio começou a constatar a infidelidade de Israel ao seu Deus porque, não obstante os grandes prodígios operados em seu favor por parte do Criador, que voltava a revelar-se ao homem através da sua relação com Abraão, o povo de escolha, ainda preferiu a idolatria, enveredando, dessa forma, o caminho do pecado. Viu, então, o sábio do AT, que o homem, exatamente como fez Israel, se rebela contra o seu Criador porque quer se constituir num deus. Essa ambição desmedida, o primeiro dos sete vícios capitais, é fruto de uma omissão, qual a da não procura de Deus pela contemplação das obras da criação, pelas quais o homem descobriria os atributos de Deus, o seu Poder e a sua Glória.
Todo homem está exposto a esse fracasso. De fato o vive. A história da geração de Caim (Gn 4) o ilustra nos seus desdobramentos. Cristo Jesus dele redime o homem, seja aquele que o precedeu como aquele que o segue, mediante a comunicação do Espírito que, após ter a este suscitado como criatura animada, agora, se comunicando de forma mais plena, nele se torna princípio de imortalidade gloriosa. Enquanto redime a humanidade da sua condição de culpa, que é real nos adultos, enquanto é potencial no recém-nascido, dizemos que tira o pecado original. Enquanto comunica a vida divina, nos constitui na condição definitiva contemplada pelo Plano da criação do Pai.
A transmissão direta de uma culpa que os ancestrais da humanidade teriam cometido é uma ilação. Nos equivocamos diante de uma narrativa sapiencial que quer simplesmente ilustrar o comportamento de todo e cada homem. Disso resulta que somente a Divindade, assumindo a condição humana pode ser o Princípio da sua regeneração e a força da atuação dos ideais que o Criador tem sobre a criatura.
Perguntas para uma reflexão:
1ª) Quais são as prerrogativas do Verdadeiro Adão?
2ª) De que maneira o sábio do AT deduziu a condição de pecado que se encontra em todo e cada homem?
3ª) Por que somente Jesus transmite a graça da filiação divina?
Pe. Fernando Capra/CRSP
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