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Chuva não castiga ninguém |ABRIL

- “Deus Pai faz cair a chuva sobre justos e injustos” Mt 5,45

NOS PRIMEIROS DIAS de janeiro de 2010 a população brasileira viu-se aterrorizada por notícias da mídia nos grandes meios de comunicação, tais como: a) Chuvas castigam o estado do Rio de Janeiro, onde deslizamentos de encostas na Ilha Grande e na cidade de Angra dos Reis fizeram centenas de vítimas, deixando mais de 50 mortos, b) Chuvas em demasia castigam o Rio Grande do Sul, onde uma ponte sobre o Rio Jacuí, na RS-287, desabou.
Muitas pessoas que estavam sobre a ponte desapareceram.
Várias pessoas foram resgatadas e outras continuam desaparecidas, c) Chuva torrencial arrasou o conjunto urbanístico histórico de São Luís do Paraitinga em São Paulo, onde, inclusive uma igreja centenária, desabou.

Esses são estragos provocados pelas mudanças climáticas, eufemisticamente consideradas pela mídia corno "chuvas intensas", e comprovadamente acima das médias regionais, em várias regiões do País. As notícias acima referidas, deixam claro que não há como se sentir totalmente seguro em vista das mudanças climáticas em curso. Construções de concreto se derretem em vista da força das águas. Tudo o que era de concreto desmanchou como papel diante dos olhos perplexos da população. A conclusão a que chegamos é que não existe mais tecnologia 100% eficiente e eficaz diante de tantas mudanças desmedidas nos fenômenos naturais. “Tudo o que era sólido, se desmancha no ar", já alertava Marx no Manifesto Comunista.

Se pensarmos bem, veremos que as notícias veiculadas dessa forma são grandes mentiras. Primeiro, porque a chuva é benfazeja, cai sobre justos e injustos (Mt 5,45), é reflexo da bondade de Deus, que é infinito amor. Deus rega com a chuva a terra que deu como herança ao seu povo 1 Rs 8,36). "Mandarei chuva no tempo certo e será uma chuva abençoada." (Ez 34,261. assim o profeta Ezequiel consola o povo em tempos de exílio e de escassez de chuva. A sabedoria do povo da Bíblia reconhece que Deus é solidário e libertador "através da chuva alimenta os povos, dando-lhes comida abundante.'" (Jo 36,31).
Na Bíblia fala-se de chuva mais de cem vezes. Até no dilúvio, a chuva é vista como purificadora (cf. Génesis 6 a 9). Sob o império dos faraós no Egito, a chuva de granizo é vista como uma praga em cima dos opressores e para o povo como uma dádiva de Deus que os liberta da opressão (cf. Êxodo 9 e 10).

A chuva não castiga e nem desabriga ninguém, apenas revela a injustiça sócio-econômica e política existente anteriormente.
Logo, quem castiga e desabriga, em última instância, é o sistema capitalista que descarta as pessoas e as condena a sobreviverem nas encostas e áreas de risco. Quem é atingido quando a chuva chega, exageradamente, salvo exceções, são as famílias que tiveram seus direitos humanos - direito à moradia, ao trabalho, à educação, a salário justo, ao meio ambiente equilibrado e à dignidade - desrespeitados pelo capitalismo neoliberal e por pessoas que adoram o deus capital, o maior ídolo da atualidade.

O falso evangelho (= boa notícia para todos a partir dos pobres) do capitalismo inicia-se assim: "No princípio está o capital, no meio a concorrência, a competição; no fim, a acumulação, a concentração de renda, de riqueza e de poder." Capital é dinheiro investido para gerar mais dinheiro.

A Campanha da Fraternidade de 2010, com o tema Economia e Vida e lema "Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro " (Mt 6,24) propõe um Evangelho para todo o povo e para toda a biodiversidade: "No princípio está a vida; no meio, os meios necessários para efetivar a vida; e no fim, o bem-estar de todos e tudo". Não apenas a vida do ser humano e nem só de alguns, mas de todas as pessoas e de todos os seres vivos. Logo, urge construir uma sociedade sustentável, onde a preservação dos bens naturais seja o carro chefe e não o crescimento económico só para alguns.

Um desafio inadiável é percebermos as relações entre as tempestades e o aquecimento global, entre o aquecimento global e o efeito estufa, entre o efeito estufa e a emissão de gases CO2 e outros, entre a emissão de gases CO2 e outros e o modelo industrial vigente (capitalismo neiliberal) entre o capitalismo neoliberal e a mentalidade ocidental conquistadora, e a relação desta com o Criador e com toda as criaturas.

Logo, dizer que “ a chuva castiga” é relacionamento que esconde o maior responsável por tanta dor e tanto pranto: o sistema capitalista.

Frei Gilvander Moreira, OC do Jornal Opinião

 
 
 

VEJA NO MÊS DE ABRIL/2010:


- Página 01
- Página 02
- Página 03
- Página 04
- Página 05 e 06
- Página 07
- Página 08 e 09
- Página 10
- Página 11 e 12
- Página 13
- Página 14
- Página 15
- Página 16
 
 
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