- Apocalipse 2
Gênero Literário
De saída, no livro do Apocalipse podemos distinguir duas grandes seções: a seção profética, que se apresenta sob a forma de “cartas às Igrejas” (1,9-3,22), e a seção mais estritamente apocalíptica (4,1-22,5).
Esta segunda seção pertence ao gênero apocalíptico, e como uma introdução a este gênero, transcrevo o verbete “apocalíptico” de Pedro R. Santidrian em Breve Dicionário de Pensadores Cristãos:
“Gênero literário religioso muito cultivado na literatura judaica e cristã entre os séculos II a.C. e II d.C. O gênero apocalíptico tem como finalidade incentivar os grupos religiosos que sofrem perseguição ou a pressão cultural do ambiente. Como seu nome indica apocalipse significa revelação -, esse tipo de literatura descreve, numa linguagem enigmática que somente a entendem os que crêem, a intervenção repentina e dramática de Deus na história em favor de seus escolhidos.Acompanhando ou anunciando a intervenção dramática de Deus na história da humanidade, sucedem-se cataclismos de proporções cósmicas, como, por exemplo, o poder temporal de Satanás sobre o mundo, sinais no céu, perseguições, guerras, fome e pragas.
A literatura apocalíptica caracteriza-se sobretudo por sua insistência no futuro de fatos como: a) a derrota do mal; b) a vinda do Messias; c) o estabelecimento do Reino de Deus; d) o advento da paz e da justiça eterna; e) o castigo dos maus, enviados ao inferno, e o prêmio dos escolhidos, reinando com Deus ou com o Messias num novo céu e numa nova terra.
Esse tipo de literatura é encontrado tanto nos livros canônicos da Bíblia do Antigo e do Novo Testamento quanto nos apócrifos.(livros que não são considerados como inspirados por Deus, não sendo portanto canônicos). Exemplos de literatura apocalíptica canônica no AT são : Is 24-27; Dn 7-12, Jl 3-4; Zc 9-14; Do NT temos passagens de Mt 24-25; Mc 13; Lc 21. E, fundamentalmente, o Apocalipse ou Revelação de São João, último livro, com que se encera o NT. Com relação aos textos apocalípticos apócrifos, diremos que se trata de livros pseudônimos, isto é, que se atribuem a grandes personagens do passado. Entre eles citam-se o Apocalipse de Henoc, de Baruc, o IV Livro de Esdras, a Assunção de Moisés, o Livro dos Jubileus e o Testamento dos Doze Patriarcas. Dos apócrifos do NT podem ser citados o Apocalipse de Pedro, os Atos de Paulo etc.
Ainda que a literatura apocalíptica floresça entre o ano 200 a.C.e 200 d.C., no marco judaico cristão, a encontramos também em outras culturas e religiões como no zoroastrismo (600 a.C.). A literatura apocalíptica teve particular desenvolvimento nas seitas milenares da Idade Média, nos pregadores catastrofistas e nas modernas seitas pseudo cristãs, como os adventistas, os mórmons e os testemunhas de Jeová, que se distinguem pelo acento apocalíptico de sua mensagem.
Não se deve esquecer ainda que os temas apocalípticos estão presentes na literatura moderna e no cinema. Livros de ficção científica, de utopias ou distopias chegaram a ser “best sellers” de bilheteria e de vendas. Eles entram na futurologia”.
O uso de imagens simbólicas é conatural ao gênero apocalíptico, porque a índole transcendente e sobrenatural da mensagem reclama a linguagem analógica e o uso de comparações, que por aproximação sugiram e facilitem a intuição profunda, mais que o conhecimento exato, daquilo que se pretende dizer.
As imagens utilizadas são às vezes objetos, como o candelabro de ouro com sete braços (cf. Ap 1,12; Zc 4,2.10), o livro dos sete selos (cf. Ap 5,1; Ez 2,9), as duas oliveiras (cf. Ap 11,4; Zc 4,2.14), etc. Outras vezes, pelo contrário, são gestos, como marcar a fronte dos eleitos (cf. Ap 7,3; Ez 9,4), comer o livro da profecia (cf. Ap 10,8-11; Ez 2,8), tomar a medida do Templo (cf. Ap 11,1; Ez 40-41), etc. Também determinadas cidades se convertem em símbolos. Assim acontece com freqüência com Sião ou Jerusalém, com Babilônia, com Meguiddo (cf. Ap 14,1; 3,12; 21,2; 14,8; 18,2; 16,14.16: Etc). Os números também têm um valor simbólico: o três faz referência ao sobrenatural e divino, o quatro ao que foi criado, o sete exprime plenitude, e o mesmo acontece com o número doze. Algo parecido sucede com as diferentes cores: o branco simboliza a vitória, alegria e a pureza, o vermelho a violência, o esverdeado a peste, o negro a morte.
Também é próprio do gênero apocalíptico o que podemos chamar “lei da antecipação”, isto é, anunciar brevemente um acontecimento que logo será desenvolvido com amplitude. Em algumas ocasiões interrompe-se o relato com o fim de intercalar algum passo dirigido a consolar os justos.
Esse gênero literário apresenta aos olhos do leitor uma serie de visões, ou revelações muito simbólicas, tendo um sentido oculto.
Não se trata de dar uma descrição antecipada dos acontecimentos futuros, mas de apresentar uma mesma realidade sob vários símbolos diferentes. Essas visões se supõem outorgadas a um personagem que, dessa maneira, recebe comunicação das intenções divinas sobre os destinos do mundo.
Tudo isso é feito numa linguagem intencionalmente figurada e misteriosa, para provocar uma atenção mais viva no leitor.
O gênero apocalíptico tem as seguintes características: imagina o fim da história, por ocasião do qual o Senhor virá a terra sensivelmente para julgar os homens e restaurar a ordem violada. Esse aparecimento de Deus é assinalado por sinais no mundo, abalo da natureza, catástrofes... Tal gênero literário recorre freqüentemente a símbolos e imagens, que devem ser interpretados segundo critérios objetivos ou de acordo com a mentalidade dos escritores antigos. Determinado símbolo podia significar uma coisa para os antigos e pode significar outra para os modernos.
O Apocalipse tem um estilo enfeitado que se reconhece à primeira vista: muito simbolismo - de cores , números, seres estranhos, combates, freqüentes visões, ar de mistério. É um modo apropriado para tratar de assuntos que ninguém consegue expressar plenamente. Como o livro é feito de poesia, visões, símbolos, tomar ao pé da letra suas imagens, considerar o livro como um tratado lógico ou um relatório de eventos significa não entender nada de seu espírito.
O gênero apocalíptico tem muita relação com o profético, do qual procede, embora existam entre ambos profundas diferenças. O gênero literário profético, mesmo que ocasionalmente faça referência a visões caracteriza-se principalmente pelo oráculo, palavra divina transmitida pelo profeta, que, se supõe, ouviu-a anteriormente, ou a escuta agora. No apocalíptico, o homem de Deus é sobretudo um visionário: ele viu o “céu aberto”, ou foi beneficiado com uma espécie de “assunção” que o introduziu no mundo superior e lhe deu a oportunidade de contemplar realidades normalmente inacessíveis. Por isso, a mensagem é transmitida na forma de uma descrição e de uma interpretação daquilo que ele viu; a imagem tem mais importância que o discurso; a palavra só intervém no quadro de uma encenação e normalmente para ressaltar ou completar seu significado.
A profecia estava profundamente arraigada na vida nacional de Israel, mas deixou de existir em sua forma tradicional depois da queda de Jerusalém e do fim da monarquia em 587 a. C. Ageu e Malaquias são apenas fracos imitadores dos profetas mais antigos. Mas, em quase todo o livro de Zacarias, Jl 2,1-11 e 4,1-21, em quase todo o livro de Daniel e em outras composições acrescentadas aos livros dos profetas pré exílicos, faz sua aparição uma nova forma de literatura, que marca o início da literatura apocalíptica o vidente tomou o lugar do profeta. Em Is 13 e 24-27, em Ez 38-39 e em Sf 1,14-18, pode-se encontrar os elementos da catástrofe atômica, o ápice do conflito entre Deus e o mal e a descrição alegórica da história contemporânea. O profeta intervém na história em nome de Deus e tem a missão de fazer ver a seus contemporâneos o plano de Deus, tendo como enfoque a vida nacional naquele momento. Também se interessa pelo devir enquanto dá sentido ao presente e mantém a esperança.
O “profeta” apocalíptico, guiado pelo Espírito, vê, em imagens não “realistas”, mas simbólicas, o que o olho humano não vê. Ele vê o céu aberto, vê como são as coisas na ótica de Deus. Aqui na terra, os fiéis e justos são oprimidos, excluídos (não recebem a marca da Fera e por isso não podem comprar e vender; são excluídos do mercado: 13,17). Mas o “apocalíptico” vê com um olho a terra e com o outro, o céu, onde observa a glória do Cordeiro imolado e dos mártires vencedores. Com esses dois olhos ele tem visão de profundidade! O livro se torna uma mensagem de esperança. Nos bastidores, a história é diferente do que aparece. Vale a pena resistir ao Dragão e às suas feras, mesmo que custe a vida (a primeira morte): pela fidelidade, os fiéis participarão da ressurreição e não conhecerão a “segunda morte”, a morte de verdade. O vidente começa a olhar para o cumprimento da vontade de Deus e para a instauração do seu reino no futuro. Mas em tempo de forte crise, por exemplo numa perseguição, é necessária, para manter a esperança, uma intervenção especial de Deus. Essa é a finalidade dos livros apocalípticos.
Continua
Jane do Tércio
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