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1 Carta de Pedro (6)
Temas principais
A carta elucida duas idéias principais: a Igreja e Deus e seu Cristo.
Quanto à Igreja, ainda que não apareça nomeada, está constantemente presente como povo de Deus: os cristãos, irmãos entre si (3,8-12), são as pedras vivas do edifício espiritual, cuja pedra fundamental é Cristo (2,4-10); são o novo povo sacerdotal que Deus constituiu (2,9); Jesus Cristo é o pastor supremo (2,25) e, no Seu nome, os presbíteros hão de dirigir as almas com desinteresse e amor.
A carta lembra aos cristãos sua livre eleição por Deus e, de agora em diante, fazem parte do seu povo (1,2-3; 2,9). Não obstante, quer levá-los a um enraizamento mais profundo na obra realizada pelo Senhor deles. É neste sentido que lhes recorda o sacrifício de Cristo (1,2; 1,19) e seus sofrimentos (2,21-24), para que eles sigam seu exemplo (2,21). Insiste igualmente e obre a vitória de Cristo, vitória que se estende a todas as esferas do universo (3,18-22) e para a qual a própria morte não é obstáculo (4,6; cf. 3,19). Doravante, é necessário que os crentes permaneçam unidos àquele que é a pedra angular, o fundamento sólido da comunidade (2,4-8).
O caráter maravilhoso da Igreja e a maneira como a vida em Cristo é superior à religião pagã recebem grande ênfase. Como surgiu a Igreja, como Deus a fundou, sua estrutura, sua dignidade, seu chamado à santidade, suas relações com a sociedade pagã - tudo isso é tratado com muito zelo na carta. O caráter e a história da Igreja são, portanto, temas principais.
Alternativamente, os membros da Igreja são lembrados de seu novo Deus cristão. Ele cuida deles, elege-os, exalta-os e julga-os. O Deus cristão é tão superior aos seus antigos deuses pagãos!
De maneira análoga, são relatados os atos divinos sobre Jesus, como Ele foi libertado de seus sofrimentos e tornou-se um espírito vivo. Na carta, a recordação da missão pascal de Cristo serve a um propósito bastante pastoral, pois a experiência cristã é interpretada tendo em mente esse modelo.A missão de Jesus é a missão da Igreja, com ênfase especial no sofrimento e na justificação. Do mesmo modo que ressuscitou o Jesus sofredor, Deus dará amparo e justificação a todos os convertidos que sofrem por sua nova fé em Deus e Jesus. Mostra a fecundidade do sofrimento, a grandeza da imitação da Paixão do Senhor e assim desenvolve a “teologia da cruz”.
A 1 de Pedro é uma carta bastante pastoral, pois almeja precisamente encorajar os cristãos em face de problemas e crises reais que envolvem sua vida cotidiana. A carta é pastoral na escolha de materiais de exortação, nada menos que o querigma da fé. Uma vez que essa fé foi posta em dúvida pelas crises da vida, o autor tenta mostrar como Jesus é o infalível modelo pastoral de vida, se envolve na vida cotidiana dos cristãos e como Deus nos salva pontualmente quando somos como Cristo, inclusive nos sofrimentos. A carta não ignora os problemas nem os menospreza, mas nos convida a ver nossa vida mais claramente à luz da verdade sobre um Deus redentor e Jesus, a prova do poder e do plano de Deus.
Temas específicos:
Estrangeiros no mundo. A carta aplica aos leitores os termos que lembram, ao mesmo tempo, os israelitas do AT como migrantes ou estrangeiros no Egito e na Babilônia, e os “estrangeiros residentes” (com deveres, mas sem direitos) das cidades do Império romano. Talvez esta tenha até sido a realidade sociológica desses cristãos.
A comunidade eclesial é o povo de Deus e casa de Deus, feita com pedras vivas edificadas sobre a pedra angular que é Cristo (2,1-10). Para que estas pedras sejam realmente vivas e a casa, realmente casa, é preciso praticar a fraternidade no dia a dia.
Moral burguesa ou estratégia evangélica? A moral pública e familiar desta carta (2,13-3,7) ensina a submissão de todos às autoridades civis dos escravos aos donos, das mulheres aos maridos (e o respeito por parte destes). Parece bem “burguês”, mas devemos ver o espírito e as motivações: dar um exemplo aos pagãos (3,12), conquistar o marido para a fé (3,1-2) dar as razões de nossa esperança a quem, admirado, pergunta (3,15); enfim, imitar Cristo (2,21-25; 3,18). E isso, com critério: respeito para todos, inclusive para o Imperador; mas para os irmãos, amor; e para Deus temor (3,17).
A esperança na vida definitiva estimula os cristãos na sua peregrinação terrena (1,1.17; 2,11) foram regenerados para obter uma herança incorruptível (1,4) as contrariedades e perseguições que suportam são passageiras, enquanto chega a hora da retribuição definitiva e gloriosa dos fiéis, e o castigo dos culpáveis (4,17-19). Esta esperança é sinal distintivo dos crentes e hão de estar prontos a dar razão dela (3,15).
O tema da esperança é importante desde o começo da carta (1,3.13.21). Esta esperança é focalizada desde o tríplice ponto de vista da sua origem, do seu objeto e de suas conseqüências.
Quanto à origem, ela não é fruto da imaginação ou dos esforços dos homens: é o dom gratuito que Deus lhes concede pela ressurreição de Jesus Cristo (1,3) Tenha-se bem presente a que ponto a ressurreição de Cristo está ligada à realização da salvação (1,21; 3,21). Quanto ao objeto, ela está orientada para o reino futuro, para a herança imperecível que é a garantida aos crentes, para o momento em que a fé se converterá em visão e no qual o povo de Deus possuirá plena e definitivamente a salvação concedida em Jesus (1,4.7.13). Quanto às conseqüências para a vida atual dos fiéis, a esperança, longe de confundir com uma atitude estóica ou uma resignação passiva, é, de certo modo, o motor de um comportamento novo (1,13-15). É a esperança que possibilita aos crentes lutar com alegria (1,6), não a despeito da provação (que, à primeira vista, parece contradizê-la), mas em meio à própria provação (4,12-13). A cada passo, ela é posta em questão pelo mundo, mas o crente deve estar disposto a dar testemunho dela com certeza tranqüila (3,15-16).
O testemunho na vida de cada dia. A epístola insiste na missão própria do povo de Deus no mundo: Deus escolheu homens para que o sirvam e irradiem por toda a terra o conhecimento das suas obras. Eis a razão por que o tema da eleição, em 1 Pd, caminha de par com o tema do sacerdócio dos fiéis (2,5.9 cf Rm 12,1). O serviço que lhes é pedido se exerce antes de tudo na Igreja (1,22; 2,1-5; 3,8-12; 4,7-11; 5,1-7).Os anciãos assumem uma responsabilidade particular, com o objetivo de manter a comunidade na vivência do amor fraterno (5,1-4). Mas há ainda toda uma série de obrigações relacionadas com os diversos aspectos da vida política, social e familiar (2,11-3,7). Recebem orientação e conteúdo novos por sua referência ao Senhor (2,13) e pela atenção dada a cada pessoa, inclusive os mais humildes. Em determinada situação, indicam aos crentes a linha a seguir: levar uma mensagem de esperança, no amor do Senhor, e, graças a esta transformação interior da condição humana, permitir as necessárias reformas da vida social. A carta acentua a responsabilidade do povo de Deus com relação a ele: em todas as circunstâncias, até nas mais penosas, os fiéis devem agir de modo a esclarecer os gentios (2,11-12; 3,13-17).
A perspectiva do fim (4,7) dá força para “agüentar” essa vida “estranha”. Também hoje é bom que o cristão seja um pouco estranho no mundo, pois não dá para concordar com tudo. Para isso, é bom sabermos que nossa realização não depende de nosso sucesso neste mundo.
Este estudo foi retirado dos seguintes livros: Bíblia Sagrada das Edições da TEB, da Universidade de Navarra, da CNBB e Comentário Bíblico, vol III ,Bergant D. e Karris R. Ed. Loyola, 1999. S. Paulo.
Textos Seletos
1,2.19 A redenção pelo sangue de Cristo.
2,5.9 A dignidade sacerdotal do povo cristão.
2,21-25 Seguir os passos de Jesus.
2,4-8 A pedra angular rejeitada.
3,15 A razão da nossa esperança.
3,19s A descida de Jesus à mansão dos mortos.
3,22 A ascensão do Senhor aos céus.
4,13-19 O sofrimento como cristão, não se envergonhe, antes glorifique a Deus.
5,4 O pastor supremo e a coroa imperecível de glória.
Que hoje e sempre possamos dar “razão de nossa esperança a todo aquele que nos pedir” (3,15). Jane do Tércio |