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O Bom Pastor |ABRIL

Uma das imagens mais usadas no Antigo Testamento para expressar o cuidado de Deus para com o seu povo, sobretudo o carinho com que o conduziu da escravidão do Egito para a Terra da Promissão, é a imagem do pastor. Encontramos essa imagem em Isaias e em Ezequiel, e a encontramos de maneira muito viva no salmo 23 (na Vulgata, 22), que hoje a comunidade cristã canta por toda parte: "O Senhor é meu Pastor, nada me falta". O Salmo vai descrevendo como o pastor guia seu rebanho para verdes pastagens e para águas tranqüilas; leva-o para caminhos seguros; infunde-lhe confiança pelo cajado que empunha em sua mão; e, mesmo que seja preciso atravessar um vale escuro, o rebanho não tem medo, porque sabe que está sendo bem guiado. De um lado está a dedicação total do pastor, e do outro lado a confiança total do rebanho.

Pois bem, isso que o Antigo Testamento diz a respeito de Deus, no Novo se transfere para Jesus Cristo - o Deus-conosco. E Jesus o proclama numa de suas mais suaves declarações: "Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas" (Jo 10, 11). É uma das belas páginas do Evangelho onde Cristo manifesta sua dedicação até a morte pelo rebanho, muito mais do que o pastorzinho Davi, enfrentando sozinho o leão e o urso que atacavam o rebanho de seu pai (cf 1 Sm 17, 34-37). E fala do conhecimento mútuo entre o pastor e o rebanho, pelo qual o pastor conhece cada uma de suas ovelhas, e elas o conhecem, e sabem distinguir sua voz entre outras vozes estranhas que pretendam chamá-las. (Há aqui maravilhosas lições para o segredo da fidelidade dos discípulos de Jesus no meio de um mundo onde ressoam mil vozes que pretendam contradizer a fé.
Inclusive de mercenários - aos quais se refere Jesus - como acontece hoje com demasiada freqüência). E fala de sua maravilhosa visão do mundo feito todo ele um só rebanho sob o cajado de um só pastor. Aí está expressa a unidade que deve existir no rebanho e, ao mesmo tempo, a missão apostólica da Igreja.

É tão viva e amável a figura do bom Pastor que essa se tornou a imagem favorita dos primeiros cristãos. Pode-se até dizer que a mais antiga representação iconográfica de Cristo tenha sido a imagem de Jesus, o Bom Pastor.

Com muita espontaneidade esse título de pastor passou a ser aplicado aos ministros da Igreja. Aliás, Pedro foi oficialmente constituído pastor do rebanho de Cristo: "Apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas". (cf Jo 21, 15-17). E na Igreja primitiva encontramos tanto São Pedro como São Paulo tratando os anciãos, como pastores do rebanho dos fiéis, (cf At 20, 28; 1 Pd 5, 2-4). Facilmente o título passou para todos os sacerdotes.

Como nada deseja tanto a Igreja como ter sacerdotes dignos e zelosos para dirigir o rebanho do Senhor, o domingo em que se lê o evangelho do Bom Pastor foi estabelecido como dia de orações pelas Vocações, englobando aí tanto as vocações sacerdotaís como as vocações para a vida religiosa, na qual de mil maneiras está presente a atividade pastoral. Acredito na eficácia desta oração de toda a Igreja neste domingo. Estamos cumprindo um pedido de Cristo, quando lamentou que fossem tão poucos os que trabalham na messe da Igreja e pediu que rezássemos ao Senhor da messe que mande operários para nela trabalhar. Os próprios candidatos ao ministério sacerdotal e ao estado religioso se sentirão motivados, por esse mar de orações, a cultivarem com amor sua vocação.

Embora o uso do termo "pastor" se tenha reduzido hoje a indicar os ministros religiosos, os profetas do Antigo Testamento o usavam muitas vezes para indicar os dirigentes do povo, incluindo o rei, os funcionários reaís, os anciãos e todos os que ocupavam postos de autoridade. E freqüentemente Deus, pela boca dos profetas, recrimina os pastores que fogem de suas responsabilidades, que dispersam o rebanho, que o levam para caminhos errados. Se é triste um pastor religioso que não é fiel à missão, que não sabe congregar o rebanho na unidade e na fidelidade, não deixa também de ser muito triste que os responsáveis pelo governo civil do povo atraíçoem sua missão, cuidando de seus próprios interesses em vez de cuidar do bem comum. Por isso a Igreja não deixa de rezar pelos que exercem a autoridade pública “para que governem com justiça", como está numa tradicional oração que se rezava outrora depois da Bênção do Santíssimo. Inda maís que os governantes governam muito mais pela força de seu próprio exemplo, sobretudo no que se refere a dedicação ao dever a honestidade no trato do dinheiro público. "Tal rei, tal grei", diz um velho ditado popular, que é uma tradução caseira do latino "Regis ad exemplum totus componitur orbis" (Claudiano).

Dom João de Resende Costa
Bispo Emérito de B.H, já falecido.
 
 
 

VEJA NO MÊS DE ABRIL/2008:


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