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Carta aos Hebreus (3)

Destinatários

Examinando o conteúdo da carta pode-se dizer que ela é dirigida a convertidos do judaísmo, ou seja, a cristãos de origem judaica, especialmente sacerdotes judeus que haviam abraçado a fé cristã. Parecem pessoas bem conhecidas pelo autor, já que ele lhes pede com confiança que rezem por ele e anuncia-lhes que espera voltar a estar entre eles (13,18-19.23). São cristãos familiarizados com os livros sagrados, especialmente com o livro do Êxodo e com os Salmos, e conhecem bem a interpretação judaica usual, estando inteirados dos pormenores do Templo e do culto.

Não se trata de recém-convertidos. Ele se dirige a uma comunidade capaz de apreciar seu conhecimento da Escritura.
Deles a carta diz que já receberam a catequese inicial (5,12) e até poderiam ser mestres, pois converteram-se nos tempos antigos (10,32) e puderam contemplar em pessoa os milagres e dons sobrenaturais que acompanharam a primeira pregação (6,4-5; 10,26). Inclusive talvez tenham escutado a pregação de Sto.Estevão (2,4; At 6,8). Após o seu martírio os cristãos foram atormentados em Jerusalém, sofrendo com paciência e fortaleza uma aberta perseguição, que ia acompanhada de afrontas públicas, privação de bens, detenções e, em algum caso, até de suplícios capitais. Com tudo isso alguns se dispersaram pela Judéia e a Samaria. O autor parece dirigir-se a um grupo social que se encontra isolado, podendo tratar-se de refugiados ou desterrados. A temática e o enfoque especializados sugerem que o hagiógrafo escreve a um grupo concreto, no seio de uma comunidade cristã mais ampla.

Em 64 o Imperador Nero decretou a primeira perseguição romana contra os cristãos. O Templo de Jerusalém continuava de pé, incólume. Compreende-se então que sacerdotes judeus feitos cristãos sofressem a tentação de voltar para o judaísmo e continuar a servir no Templo.

Supondo tais circunstâncias, Hebreus é uma palavra de exortação, ou seja, o propósito central da epístola é estimular estes irmãos na fé à fidelidade, num momento de perseguição, no qual se manifestavam sintomas de desfalecimento (10,25; 12,23; 13,10) e prevenir, em última análise, o perigo da apostasia. Por isso, tom e a linguagem do autor sagrado equilibram prudentemente a exortação animosa com a severidade com que lhes exige e os alenta em diversos momentos da argumentação (6,4-6; 10,26-31; 12,15-29).

Divisão e Estrutura

*1,1 4,13 - A palavra veterotestamentária da promessa sobre a sublimidade de Jesus Cristo. Trata a palavra de Deus expressa em seu Filho e exorta os ouvintes a prestar mais atenção a esta palavra do que à palavra de Deus comunicada pelos anjos e por Moisés, isto é, palavra da lei mosaica.

1,1-4 Abertura, introdução ao tema.

1,5 2,18 Jesus, filho de Deus, irmão dos homens. O Filho é superior aos anjos.

1,5-14 - Posição de Cristo em relação a Deus. Sua glória.

2,5-18 A posição de Cristo em relação aos homens. Sua humanidade

3,1-5,10 Jesus, mediador fidedigno e solidário. Jesus sumo sacerdote fiel e misericordioso.

3,2-6 Acreditado mais que Moisés.

*4,14-10,18 Cumprimento e perfeição do sacerdócio e do sacrifício de Jesus Cristo, sumo sacerdote e mediador da nova aliança. Interpreta a morte salvífica de Jesus contra o pano de fundo do sacerdócio israelita. Jesus é o sacerdote eterno que, com seu sacrifício, elimina definitivamente o pecado e estabelece uma nova aliança entre Deus e a humanidade. Portanto os cristãos tem fundamentos para perseverar na esperança.

4,15-5,10 Compassivo: por comparação com o sumo sacerdote do Antigo Testamento.

5,11-6,20 O autêntico sacerdócio de Jesus Cristo. Necessidade de perseverar.

6,13-20 A promessa.

7,1-28 - A superioridade de Cristo sobre os sacerdotes levíticos. O sacerdócio de Melquisedec

8,1-9,28 A superioridade do culto, do santuário e da mediação de Cristo sacerdote.

8,1-5 O novo sumo sacerdote: no céu.

8,13- Da nova aliança.

9,1-22 A tenda ou santuário e seus ritos.

10,1-18 Recapitulação: o sacrifício de Cristo superior aos sacrifícios mosaicos.

*10,19-13,25 A fidelidade na fé e a aceitação da dor do povo de Deus no Novo Testamento e o objeto da promessa. Busca resguardar a esperança pelo conceito de fé como discernimento do mundo celeste da realidade, onde a obra de Jesus já se realizou.

10,19-39 Exortação. A fé perseverante.

11,1-12,13 A fé e a conversão.

12,14-13,17 A vida cristã.Recomendações particulares.

13,18-25 Epílogo. Fórmula de envio de carta.

Temas Doutrinários

Tendo o autor mentalidade semítica, não tem em conta a harmonia entre as partes, mas ante a insistência em certos temas fundamentais. Tudo isto permite entender que, ao longo da exposição, se vão alternando constantemente partes explicativas de tipo doutrinal e partes exortativas. As verdades de fé são apresentadas pelo autor como o fundamento da conduta prática que se recomenda e se pede aos destinatários.
Neste sentido a carta é um exemplo admirável da unidade entre doutrina e vida, tão própria de todo o Novo Testamento, e constitui por isso o modelo da melhor literatura religiosa cristã.

Hebreus não contém, portanto, uma seção dogmática, seguida de uma parte prática ou moral. Na epístola podem reconhecer-se, com certa facilidade, cinco seções doutrinais, que são as seguintes:

1- preexistência de Cristo, sua condição divina e sua atividade criadora 1,1-4;

2- a superioridade do Senhor, relativamente aos Anjos 1,5-2,18;
3- superioridade relativamente a Moisés 3,14-4,13;

4- o sacerdócio de Cristo, mais excelente que o levítico 4,14-7,28;

5- o sacerdócio de Cristo, superior a todos os sacrifícios da Antiga Lei 8,1-10,18.

Por seu lado, o conteúdo ascético, exortativo e moral também se agrupa em seções oportunamente inseridas, nas cinco anteriores. Em linhas gerais, tratam dos seguintes temas:

a - o seguimento de Jesus Cristo, imprescindível para a salvação 2,1-4;

b - a necessidade de imitar os fiéis que aceitaram a Revelação, para entrar no repouso de Deus 3,7-4,13;

c - perspectivas gozosas e normas da vida cristã 5,11-6,20;

d - os motivos e exemplos incomparáveis que devem animar o crente a perseverar na sua fé, apesar das dificuldades 10,19-12,29;

e- últimas recomendações 13,1-19.

Os versículos 7-17 do capítulo13 parecem resumir os assuntos principais da epístola e contém uma exortação final à retidão e vibração espiritual que devem caracterizar a vida cristã.

Os temas de Escatologia e Eclesiologia se sucedem: o tema “o nome que excede o dos anjos”, fala especialmente da glória celestial de Cristo e o tema “o fruto de paz e de justiça” tem um colorido inegavelmente escatológico. Já o tema de Jesus como o “sumo sacerdote fiel e misericordioso” é eclesiológico, assim como o tema da fé dos antepassados.

Na parte central é, de modo particular, o valor do sacrifício que apresenta semelhanças, diferenças e superioridade em relação aos antigos sacrifícios:

O sacrifício se parece com os antigos sacrifícios: algo é “oferecido” (8,3); uma morte era necessária (9,15s); o sangue foi derramado (9,7.14.18.22); trata-se de “entrar no santuário”. (9.7.12).

Aparecem diferenças essenciais: entre “apresentar oferendas e sacrifícios” (9,9) e “oferecer-se a si mesmo” (9,14); entre o sangue das vítimas e o sangue do sacerdote (9,12.19.25); entre penetrar “uma só vez no ano” (9,7.25) e penetrar “ uma vez por todas” (9,12.26); entre o acesso ao santuário-tipo e o santuário verdadeiro (9,24).

Há evidente superioridade: Cristo oferece “sacrifícios bem melhores” (9,23); atravessou “uma tenda maior e mais perfeita” (9,11); a eficácia de seu sacrifício não é o reino da pureza ritual, mas purifica as consciências (9,13s); conquista uma “eterna redenção” (9,12).

Idênticas relações existem entre as Alianças: semelhança (8,4.6.8-10; 9,1.19-21); diferença e superioridade (9,6-9).A velha ordem é modelada pela celeste: semelhança (8,5). Maior, porém é a diferença existente entre a tenda “feita com as mãos” e a “que não é obra de mãos humanas” (9,11.24), entre o terreno e o celeste (8,4; 9,23), entre o provisório e o eterno A superioridade do Novo Testamento em relação ao Antigo é mostrada de maneira decisiva: só o Novo Testamento dá acesso às últimas realidades.

De modo geral podemos dizer que toda a primeira metade de Hebreus se ocupa mais com Cristo, e a segunda com os cristãos. Assim, as posições relativas de Cristo e dos cristãos não se embaralham, muito embora estejam compreendidas no mesmo plano da história da salvação.

Outros temas:

- Jesus igual a nos em tudo menos no pecado, e “aprendendo pelo sofrimento (4,15; 5,2): Jesus é solidário conosco para ser o sumo sacerdote plenamente confiável, que realiza nosso acesso a Deus, à reconciliação e à glória (o “repouso”).

- Na obra de Jesus, fiel até a morte, Deus realiza a promessa de nos dar o “repouso”, a felicidade no seu amor, e nós podemos corresponder a isso pela fé constante (traduzida em obras), porque “Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre” (13,8): Ele é a encarnação do amor e fidelidade de Deus, ontem na terra, hoje no céu, sempre na glória.

- Escrita em tempo de perseguição, a carta é um apelo à resistência permanente, até o martírio, evocado sobretudo nos caps. 11-12.

- Hebreus repete e aprofunda o ensinamento paulino da vida comunitária na caridade (cap 13).

- Hebreus não pretende acentuar o sacerdócio e o sacrifício, como às vezes se pensa. Pelo contrário, substitui o sacrifí-cio e o sacerdócio pela única “auto-oferenda” que é a vida e obra de Jesus, uma vez para sempre. O sacerdócio de Jesus é o sacerdócio da vida, como deve ser também o do cristão.

- Hebreus nos ensina um modo cristão de ler o Antigo Testamento com liberdade, familiaridade e fidelidade criativa, dando um sentido mais profundo e pleno àquilo que as palavras antigas nos lembram.

Continua no próximo número

Jane do Tércio

 
 
 

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