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João Hélio: Por que Deus permitiu? |ABRIL

Fiquei estarrecido quando soube da notícia da morte brutal do menino João Hélio nas ruas do Rio de Janeiro. Senti, também, a dor dos pais daquela criança. Que coisa horrível!

O assassinato do menino João Hélio choca pela frieza com que foi tratada uma pessoa humana, imagem de Deus; ainda mais que o crime foi cometido por outras pessoas humanas, que também são filhos de Deus, mas provavelmente não sabem disso!

Por que Deus permitiu uma barbaridade como essa? Tanta gente fez essa pergunta nos últimos dias. Não é a pergunta correta, mas até a compreendemos, pois estamos acostumados há séculos a transferir a responsabilidade dos acontecimentos, especialmente se são negativos, para Deus, para o governo e para os outros. Sendo assim, a pergunta correta é: Por que nós permitimos o assassinato do João Hélio? Será? Mais um choque para nós! - Eu? Dirá alguém. O que eu tenho com isso? Eu nem estava lá!

É! Você sim! Eu também! Nós todos permitimos o assassinato do menino João Hélio, porque temos sido insensíveis para com a situação da educação-formação humana e cristã das nossas crianças, adolescentes e jovens, porque achamos que um simples decreto ou a criação de outra lei, por si só, resolvem o problema e podemos, de novo, ficar descansados e despreocupados em relação à sorte dos que não têm sorte. Mas, padre, - dirão alguns, - quem matou o menino são bandidos desnaturados e devem ser tirados de circulação. Só assim a sociedade pode ficar tranqüila! Concordo que essas pessoas precisam ser tiradas de circulação, mas para serem humanizadas, porque certamente não o foram. São vítimas da insensibilidade histórica dos governos, da enorme diferença entre classes sociais que reina nesta cidade do Rio de Janeiro, da ausência de políticas públicas que favoreçam principalmente a juventude, da escola que está desinteressante e de outras causas que estamos "cansados" de conhecer.

Eu me lembro que, nos idos de 1990, quando estava em Copacabana, tive a oportunidade de visitar uma das favelas que fica nas cercanias da Estrada Grajaú-Jacarepaguá. Como não sou maluco, subi o morro acompanhado pelo padre da paróquia que tem a jurisdição sobre a favela e pela irmã que tinha um bonito trabalho entre os moradores. O que eu fui fazer lá? Visitar uma família para avaliar se um menino teria ou não condições de ser acolhido no nosso Centro Juvenil São Carlos, situado em Miguel Pereira. Pois bem, ao chegar a um espaço livre no alto do morro, descemos do fusquinha do padre e logo fomos cercados pelos soldados do tráfico, uns vinte, se me lembro bem. Todos estavam fortemente armados, cumprimentaram o padre e a irmã e, quando se certificaram de quem eu era, ficaram tranqüilos e deixaram de prestar atenção em mim. Designado para nos acompanhar até a casa do menino, foi o seu irmão mais velho, de 18 anos e soldado do tráfico ele também. Chegados ao barraco da família, "pendurado" no alto do morro, lá e encontramos a avó, a verdadeira responsável pela casa e muitas crianças e adolescentes. A mãe daquela turma estava do lado de fora, completamente bêbada e com um olho furado numa briga que tivera com uma vizinha. Fiquei conversando com o rapaz, o soldado do tráfico. Quando ele percebeu que podia confiar em mim, abandonou a arma e não teve nenhum receio de falar sobre tudo. Entre outras coisas, ele afirmou que não estava no tráfico porque queria, mas por necessidade. Não estava mais na escola, aprendeu o essencial e passou a viver como bandido, porque isso lhe rendia muito mais dinheiro do que se trabalhasse. A um certo momento, a confiança já tinha aumentado bastante, ele me disse: - Padre, um dia, vou fazer uma visita ao senhor lá em Copacabana. Mas logo mudou de idéia: - Pensando bem, padre, não vou não, pois isso é perigoso para mim e o que as pessoas vão dizer do senhor na companhia de um traficante? Nunca mais o vi, mas eu o tenho sempre na memória, passados 17 anos! Não sei se está vivo, se pôde dar um rumo digno à própria vida. O irmão dele foi admitido em Miguel Pereira e lá ficou por algum tempo. Também não sei do seu paradeiro.

Contei essa história real só para dizer que há muitas pessoas que têm consciência de serem imagem e semelhança de Deus, mesmo nas situações mais impensadas da vida. Não tiveram oportunidades, sempre foram consideradas como marginais. Por isso, são o "bicho", como falamos na gíria.

Bem, meus irmãos e minhas irmãs, esses fatos lamentáveis, como a morte do João Hélio, acontecem porque nós permitimos. Mas, não vamos ficar parados nesta mediocridade. Se somos homens e mulheres de fé, seremos transparentes do amor de Deus e tudo faremos pelo próximo, inclusive por aqueles que estão endurecidos no mal, talvez casos patológicos que revelam o poder destrutivo vindo de uma história pessoal de desamor e de traumas, mas para quem a possibilidade de mudança sempre existe. Depende de nós!

Dessa forma, não precisaremos mais perguntar: Por que Deus permitiu? Não foi Ele, fomos nós.

Pe. Luiz Antônio do Nascimento Pereira
CRSP - Samambaia - DF
 
 
 

VEJA NO MÊS DE ABRIL/2007:


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