A propósito da Carta 3 de Santo Antônio
Maria Zaccaria
Apesar de toda a onda de negatividade que a nossa época
tem trazido para a humanidade, seria injusto caracterizá-la apenas por
esse lado. De fato, a pós-modernidade também tem aspectos fortemente
positivos, que nos indicam por onde caminhar para resgatar valores perdidos ou
esquecidos pela maioria. A positividade dos tempos atuais pode ser resumida em
três expressões: sede do sagrado, valorização da individualidade
e a descoberta da alteridade.
Pois bem, caros leitores e leitoras de O
Mensageiro, a época em que viveu Santo Antônio Maria Zaccaria (1ª
metade do século 16) não foi muito diferente da nossa quanto à
mentalidade: Deus saiu do centro das atenções e, no lugar dele,
foi colocado o homem. Hoje, para muitos, Deus está longe e só O
chamamos quando for preciso, como chamamos um técnico para reparar um aparelho
que se estragou. O homem e a mulher estão no centro, só que, também
para muitos, numa visão mais utilitarista e quase sempre, conflitiva e
excludente. Só eu me basto, - dizem. Falta a consciência de que somos,
- homens e mulheres, - igualmente, imagem e semelhança de Deus.
Santo
Antônio Maria Zaccaria conseguiu, sem tirar Deus do centro, colocar a pessoa
humana ao lado Dele, que, aliás, é o nosso lugar. Lendo os Escritos
do santo, vocês perceberão que, ao falar de Deus, Antônio Maria
fala do homem e, ao falar do homem, nunca deixa de falar de Deus. Creio que seja
esse o nosso maior desafio no mundo pluralista em que vivemos, quer nas grandes
cidades, quer nos interiores: valorizar todos os aspectos humanos da vida, não
tirando deles o caráter sagrado de imagem e semelhança de Deus.
Para
dar uma resposta satisfatória aos homens e mulheres do nosso tempo, peçamos
ajuda à Carta 3 de Santo Antônio Maria Zaccaria: Como orar e, ao
mesmo tempo, cuidar de nós de maneira não egoísta, num mundo
que tira nosso tempo, nossa liberdade? Acredito piamente que a espiritualidade
zaccariana é uma solução simples, prática, mas ao
mesmo tempo, profunda para os desafios que devemos enfrentar nesses tempos pós-modernos.
A
Carta 3, como vocês já notaram é uma resposta a um amigo que
desejava ter vida de oração, mas não sabia como, porque era
um homem muito ocupado, não tinha tempo!
Vamos ver, então,
como Santo Antônio Maria trata da sede do sagrado, da valorização
da individualidade e da redescoberta do próximo nesta carta.
- sede
do sagrado: Santo Antônio Maria Zaccaria recomenda que a oração
deve ter um tom de intimidade com Deus, que Deus é nosso interlocutor e
nosso orientador, enquanto conversamos familiarmente com Ele a respeito do que
desejamos decidir e fazer. Essa atitude do orante é como se estivéssemos
na presença de uma pessoa muito amiga. Ou seja, Deus não está
distante de nós e, por isso, devemos ficar em sintonia com Ele o dia inteiro,
tenhamos tempo ou não, à toa ou ocupados com os nossos afazeres.
Não custa parar um pouco o que estamos fazendo para conversar com Deus
sobre o que está acontecendo naquela hora. Isso se chama contemplar, elevar
a mente a Deus, ou seja, enxergar a realidade com os olhos de Deus. Ora, isso
só é possível se escutarmos com atenção o que
Deus fala, como quem deseja ser verdadeiro discípulo.
- valorização
da individualidade: Santo Antônio Maria, a propósito da oração,
manifesta profundo respeito pela liberdade humana, ao dizer que, para rezar, não
há hora, lugar e posição do corpo que sejam melhores, mas
a pessoa se coloque à vontade (Entre no seu quarto e reze ao Pai... e o
Pai, que vê tudo...). O orante deve, também, aproveitar o tempo que
tem, breve ou longo; suas atividades não precisam ser interrompidas por
causa da oração, mas é a oração que se "intromete"
na vida e passa a ser a própria vida, o próprio sujeito. É
como se disséssemos: - "A oração sou eu mesmo".
Na terceira parte da carta, quando o nosso santo fala da identificação
do defeito principal e do combate contra ele, aparece outra manifestação
de respeito pela individualidade: Eu devo cuidar de mim mesmo, procurando arrancar
pela raiz o meu defeito principal, mas aos poucos, "comendo pelas beiradas",
como se toma um mingau quente. Ataque, pois, o defeito mais fácil de ser
arrancado e procure diminuí-lo até eliminá-lo. Fazendo isso,
os outros defeitos e o principal também se enfraquecem e você melhora.
Que tal fazer a experiência?
Essa estratégia revela o cuidado
do médico Antônio Maria para com os seus "pacientes". A
cura é progressiva, não imediata. Não posso encher o doente
de uma dose cavalar, que ele não vai suportar e pode até morrer.
Tenho lidado com pessoas de movimentos que não dão conta de viver
o que seus coordenadores propõem, justamente porque, - desculpem-me a comparação,
- em vez de matar a sede da pessoa com um copo de cada vez, costumam dar, imediatamente,
"uma caixa d'água" para o pobre cristão que quer caminhar.
Não nos esqueçamos de que o povo de Israel, para chegar à
terra prometida, teve que passar por inúmeras dificuldades.
- redescoberta
do outro: finalmente, Santo Antônio Maria revela um profundo respeito pelo
próximo. Primeiro, ele se prepara diante do Cristo Crucificado, para saber
o que ensinar ao seu amigo. Não lhe apresentou um pacote de conselhos já
padronizado, mas colocou-se ele mesmo diante de Deus, para enxergar melhor a realidade
do amigo e, assim, poder falar-lhe com mais segurança e eficiência.
Reparem que em toda a carta, nosso santo trata Carlos Magni com cordialidade e
atenção. "Eu acho que seu defeito principal é esse,
mas é você quem sabe", aludindo à experiência pessoal,
deixando que o outro seja.
Então, meus amigos e amigas, leiam de
novo a Carta 3, que vocês vão descobrir o que aqui citei e outras
coisas mais que eu ainda não descobri ou que, de propósito, omiti
neste artigo.
Um abraço a todos vocês.
Pe. Luiz Antônio
do Nascimento Pereira Samambaia - DF |