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Paixão e morte do Senhor: A cruz do outro|ABRIL


Estamos diante do relato joanino da Paixão. O texto que faz mais do que contar os fatos: aponta para o sentido desse momento decisivo na vida de Jesus. A essência de tamanho gesto está no amor. A paixão e a morte de Cristo nos faz perceber o sentido do amor na experiência cristã. No evangelho de João, o amor de Deus é revelado em Jesus: entrega de si mesmo, gratuidade, fidelidade, despojamento em favor do outro. É a hora derradeira da cruz, que "desabrocha" por completo o desmesurado amor de Deus.

Um amor incondicional
A primeira leitura, o quarto cântico do servo (Is 52,13-53, 12), avessa à teologia da retribuição, segundo a qual cada um recebe a paga do que cometeu, direciona o nosso olhar para a gratuidade. O servo assume a culpa de todos. Carrega sobre sua existência ferida as chagas de todos, não tendo culpa ele mesmo. Estranho, afinal, se cada um recebe o resultado daquilo que fez, como pode um justo sofrer tanto? Como alguém poderá "pagar" pelas falhas dos outros? A idéia de expiação é muito forte, mas é preciso ir além. O canto do servo nos revela um amor sem medidas, isento de condições, gratuito, como só pode ser o amor do Deus feito homem. De novo, o aspecto"quenótico" (Quênose = esvaziamento) se apresenta como expressão desse amor divino. Deus se fez um de nós e este fazer-se humano (encarnação) tem seu ápice na cruz, assumindo, em extremo, a fragilidade humana, se esvaziando de sua condição divina (aclamação ao evangelho). Fez o caminho do amor incondicional, gratuito, assumindo nossa condição humana, em troca de nada, senão para nos fazer senhores, lavando os nossos pés.(Quinta-feira Santa).

Um amor livre
O gesto de entrega de Jesus na cruz pode facilmente nos levar a pensar que o Pai desejou a morte do seu Filho, para pagar os nossos pecados. Temos aí um Deus sanguinário e vingador, não o Pai amoroso revelado em Jesus. Como entender isso hoje? Só a partir da liberdade de Jesus. Seu desejo de ser fiel e obediente à vontade do Pai (segunda leitura) e sua confiança inabalável o fazem seguir em busca da realização do projeto de Deus, até o fim. Mas qual é a vontade do Pai? Mostrar ao mundo o quanto ele o ama, a ponto de aceitar a oferenda que o Filho faz de si mesmo. Em Jesus, Deus se entrega por amor. O encontro com os soldados nos mostra bem isto: Jesus se apresenta (se entrega) a eles como Deus:
"Sou eu" (Jo 18,5), que é o mesmo nome com o qual Deus se apresenta a Moisés (Ex 3, 14). Sua entrega e seu amor são dados a todos e não somente aos bons e santos (primeira leitura), ou então não seria livre, não seria amor.

Um amor possível
Pode ficar parecendo que isso é impossível ao ser humano. Muito facilmente associamos tal tipo de entrega à esfera religiosa, sem perceber que muito perto de nós acontecem fatos e existe gente que realiza tais gestos simplesmente por acreditar num ideal, por amar a outros gratuitamente, ou por indignação diante de uma injustiça... Quantos homens e mulheres não fazem isso diante dos nossos olhos, sem que nos demos conta. São pais e mães abnegadas e pacientes diante da missão de educar os filhos, muitas vezes metidos em complicações e dificuldades. Maridos ou esposas que pacientemente acompanham seus cônjuges em enfermidades incuráveis. Pessoas que abandonam grandes possibilidades, ou situações de conforto e tranqüilidade para lutar por causa e ideais, que muitas vezes envolvem, até mesmo, risco de vida.

A Cruz que Cristo carrega
A cruz do Cristo é a cruz da humanidade (Is 53, 4). Ele assume a condição humana eleva sobre seus ombros a dor do mundo. Só o amor que é capaz de suportar a cruz do outro é capaz de vencer a morte (oração do dia, segundo opção). Jesus, como aquele que se compadece da humanidade, nos deixa o caminho do amor livre e incondicional. É pela cruz do outro que se chega à glória da ressurreição.

 
 
VEJA NO MÊS DE ABRIL/2006:

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