“Em quem votar neste ano?”
Mais uma
eleição se aproxima e, como era de se esperar, uma velha discussão
começa a ganhar espaço nos corredores das nossas Igrejas e comunidades:
A Igreja Católica deve ou não indicar uma lista de candidatos para
os fiéis votarem?
Sei que muitos amigos leitores da nossa coluna
responderiam afirmativamente a esta pergunta. O motivo parece bastante razoável:
A corrupção endêmica da máqui-na pública brasileira
necessita urgentemente de homens públicos éticos e de conduta ilibada.
Dentro deste cenário, nada melhor do que a própria Igreja para montar
uma "lista" de candidatos confiáveis para que nós, fiéis
preocupados e interessados com o bem comum, pudéssemos escolher e votar.
Parece bastante lógico, não? Entretanto, ao longo das últimas
eleições e, ao que tudo indica nesta também, a Igreja tem
seguido outro caminho: A conscientização e preparação
dos seus fiéis para um processo eleitoral consciente e participativo.
Respeito
bastante a opinião das pessoas que acreditam na construção
da lista. Entretanto, faço coro a brilhante estratégia adotada pela
CNBB no Brasil de não indicar, mas cons-cientizar o eleitor. O motivo?
É o que vamos rapidamente abordar na coluna deste mês.
Em
primeiro lugar, o problema da corrupção existente hoje na política
não é exclusividade deste meio. Lamento informar, mas as práticas
de corrupção estão presentes na sociedade brasileira como
um todo. Basta olhar ao nosso redor e observarmos o quanto a cultura do "levar
vantagem" existe no nosso dia-a-dia. Não quero ficar aqui citando
exemplos, mas todo mundo conhece alguém que se justifica na corrupção
dos políticos para sonegar o imposto de renda, passar uma "conversinha"
no guarda para se livrar da multa justa ou utilizar critérios baseados
em favores pessoais para escolher seus candidatos. Enquanto existirem esses graves
"deslizes" enraizados na nossa sociedade altamente individualista, pode
existir lista de candidatos da Igreja (ou de qualquer outra instituição
que goze da confiança da sociedade) que a corrupção vai continuar
existindo firme e forte no meio político.
Em segundo lugar, a corrupção
existente no meio político não é simplesmente apenas conseqüência
do mau voto da sociedade. O processo da eleição, ou melhor, o voto
dado dentro da cabine de votação é o que menos importa. Ele
é somente a ponta de um iceberg. A atuação do mandatário
precisa do forte engajamento popular durante o decorrer de todo o mandato. É
como uma via de duas mãos: Uma é a atuação mandatária
e outra é a participação popular pressionando, cobrando e
acompanhando não somente através da internet (que já é
uma ferramenta e tanto para este trabalho), mas principalmente das audiências
públicas, dos conselhos municipais e dos grupos de fé e política.
Se uma instituição como a CNBB, por exemplo, montasse uma
lista de candidatos, ela inconscientemente tiraria essa importante e fundamental
responsabilidade dos ombros do cidadão: O da participação
plena, ou em outras palavras, da participação em todo o processo
e não apenas na eleição. Se a CNBB assim o fizesse, ela estaria
se rendendo a essa sociedade individualista que tenta a todo custo transformar
os seus membros em seres egoístas e consumistas que se dizem "sem
tempo" para se preocupar com essas coisas da política. E isso, amigos
leitores, está muito longe da proposta do Reino do Pai trazida por Jesus
Cristo através do amor ao próximo.
Em terceiro lugar temos
a questão da formação da consciência crítica.
Quando uma instituição, seja ela qual for, monta uma lista de candidatos
"confiáveis", ela tira do seu membro a capacidade de discernir
e formar a sua consciência crítica. É o que acontece com algumas
(é bom que se diga sempre que são apenas algumas) Igrejas Cristãs
não-Católicas. A indicação de candidatos utilizada
por elas transforma os seus membros em meros meio-cidadãos e cria um novo
modelo de voto de cabresto: O voto de cabresto "neo-pentecostal".
Existem
alguns outros motivos que também fortalecem a opção da CNBB
pela conscientização da sociedade ao invés da criação
de listas nas eleições. Entretanto, eu acredito que estes são
os mais contundentes para que possamos refletir e agir em prol da construção
da civilização do amor fundamentada nos ideais do Bem Comum.
Um
forte abraço a todos e a Paz de Cristo!
Robson Campos Leite Email
: feepolitica@terra.com.br
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