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O Mestre Jesus, o Díscipulo José | ABRIL


O evangelho de Mateus é um catecismo do discipulado cristão. Preocupado com a vivência da fé de sua comunidade, o evangelista julgou necessário orientá-la a respeito da adesão fiel e verdadeira a Jesus. Afinal, a proposta de discipulado do Mestre Jesus em nada se assemelhava com a dos escribas e fariseus. Era muito mais exigente e comprometedora. Por isso, quem se predispusesse a fazer parte da comunidade de discípulos deveria ter uma compreensão, o mais exata possível, do que o esperava.
O tema do discipulado ocorre nos capítulos iniciais e perpassa todo o evangelho. Os magos são um modelo do discipulado dos pagãos em busca de Jesus, sua verdadeira luz (Mt 2, 1-13). Porém, na figura de José, o tema do discipulado concentra-se de maneira especial. Eis como o evangelista apresenta-o na explicação da origem de Jesus (Mt 1, 18-25), na cena da fuga para o Egito (Mt 2, 13-18) e da volta para Nazaré (Mt 2, 19-23):
Ele é modelo do discípulo justo (Mt 1, 19), cuja vida está toda centrada em Deus e, por conseguinte, no serviço divino. Deus pode contar com ele, mesmo em situações arriscadas. Ele não se deixa levar pelo medo e pela insegurança, quando se trata de realizar o querer de Deus.

José age sempre com discernimento, procurando, em cada situação, conhecer a vontade divina. Quando se defronta com a gravidez inexplicável de sua mulher, reflete sobre a melhor maneira de agir, sempre preservando a honra e a integridade física de Maria. Quando Mateus se refere a José recebendo comunicações divinas por meio de sonhos, está exortando os membros de sua comunidade a se deixarem instruir por Deus, com docilidade. A agitação, o ativismo e a perturbação de espírito são posturas inadequadas para quem pretende deixar-se guiar por Deus. Urge abrir o coração para acolher os apelos divinos, sem cair na tentação de argumentar com Deus ou querer justificar-se. Ao evocar a morte pela alusão ao sono, sublinha a importância de o discípulo deixar-se conduzir por Deus.
Apesar das várias referências a José, Mateus não põe em sua boca uma só palavra. Ele se torna, assim, um exemplo de discípulo obediente, sempre pronto a realizar a vontade de Deus. Basta-lhe tomar consciência do querer divino para pô-lo em prática. A escuta transforma-se em ação.

Uma vez consciente de que a gravidez de Maria deveria ser entendida a partir do Espírito Santo, "recebeu em casa sua mulher" (Mt 1, 24). Alertado para fugir para o Egito, levanta-se "durante a noite" e parte, imediatamente, para o desconhecido (Mt 2, 13-14). Ao receber a ordem de voltar para a terra de Israel, põe-se a caminho (Mt 2, 22). Uma ordem suplementar orienta-o a se encaminhar para a Galiléia. Ele a executa, sem pestanejar, indo morar em Nazaré (Mt 2, 23).

Essa apresentação das cenas evangélicas pode dar a falsa impressão de que se prescinde da liberdade de José e, por extensão, da liberdade do discípulo cristão no cumprimento de sua missão. José, nesse caso, seria uma marionete nas mãos de Deus. Mateus não priva José de sua liberdade. Em tudo quanto faz, sua liberdade está implicada. Pensar de outra forma significaria reduzir Deus a um tirano despótico, sem nenhum respeito pela criatura humana. Essa não é a teologia de Mateus! O recurso às mediações humanas, das quais Deus se serve, só tem sentido se a liberdade humana for garantida e respeitada. Isso se dá com José. Sua abertura para a vontade de Deus resulta de um total domínio da liberdade, a ponto de acolher algo impossível de ser compreendido e aceito nos limites de uma vontade humana alienada.

A figura de José, na condição de discípulo exemplar, serve de horizonte para o leitor-ouvinte do evangelho. O Mestre Jesus, apresentado por Mateus, espera ser acolhido com a adesão, o discernimento, a docilidade, a obediência, a generosidade, a disponibilidade e o destemor atribuídos a seu pai adotivo.

Padre Jaldemir Vitória SJ -diretor da Faculdade de Teologia do ISI

 
 
VEJA NO MÊS DE ABRIL/2005:

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