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O evangelho de Mateus é um catecismo do discipulado cristão.
Preocupado com a vivência da fé de sua comunidade,
o evangelista julgou necessário orientá-la a respeito
da adesão fiel e verdadeira a Jesus. Afinal, a proposta de
discipulado do Mestre Jesus em nada se assemelhava com a dos escribas
e fariseus. Era muito mais exigente e comprometedora. Por isso,
quem se predispusesse a fazer parte da comunidade de discípulos
deveria ter uma compreensão, o mais exata possível,
do que o esperava.
O tema do discipulado ocorre nos capítulos iniciais e perpassa
todo o evangelho. Os magos são um modelo do discipulado dos
pagãos em busca de Jesus, sua verdadeira luz (Mt 2, 1-13).
Porém, na figura de José, o tema do discipulado concentra-se
de maneira especial. Eis como o evangelista apresenta-o na explicação
da origem de Jesus (Mt 1, 18-25), na cena da fuga para o Egito (Mt
2, 13-18) e da volta para Nazaré (Mt 2, 19-23):
Ele é modelo do discípulo justo (Mt 1, 19), cuja vida
está toda centrada em Deus e, por conseguinte, no serviço
divino. Deus pode contar com ele, mesmo em situações
arriscadas. Ele não se deixa levar pelo medo e pela insegurança,
quando se trata de realizar o querer de Deus.
José age sempre com discernimento, procurando, em cada situação,
conhecer a vontade divina. Quando se defronta com a gravidez inexplicável
de sua mulher, reflete sobre a melhor maneira de agir, sempre preservando
a honra e a integridade física de Maria. Quando Mateus se
refere a José recebendo comunicações divinas
por meio de sonhos, está exortando os membros de sua comunidade
a se deixarem instruir por Deus, com docilidade. A agitação,
o ativismo e a perturbação de espírito são
posturas inadequadas para quem pretende deixar-se guiar por Deus.
Urge abrir o coração para acolher os apelos divinos,
sem cair na tentação de argumentar com Deus ou querer
justificar-se. Ao evocar a morte pela alusão ao sono, sublinha
a importância de o discípulo deixar-se conduzir por
Deus.
Apesar das várias referências a José, Mateus
não põe em sua boca uma só palavra. Ele se
torna, assim, um exemplo de discípulo obediente, sempre pronto
a realizar a vontade de Deus. Basta-lhe tomar consciência
do querer divino para pô-lo em prática. A escuta transforma-se
em ação.
Uma vez consciente de que a gravidez de Maria deveria ser entendida
a partir do Espírito Santo, "recebeu em casa sua mulher"
(Mt 1, 24). Alertado para fugir para o Egito, levanta-se "durante
a noite" e parte, imediatamente, para o desconhecido (Mt 2,
13-14). Ao receber a ordem de voltar para a terra de Israel, põe-se
a caminho (Mt 2, 22). Uma ordem suplementar orienta-o a se encaminhar
para a Galiléia. Ele a executa, sem pestanejar, indo morar
em Nazaré (Mt 2, 23).
Essa apresentação das cenas evangélicas pode
dar a falsa impressão de que se prescinde da liberdade de
José e, por extensão, da liberdade do discípulo
cristão no cumprimento de sua missão. José,
nesse caso, seria uma marionete nas mãos de Deus. Mateus
não priva José de sua liberdade. Em tudo quanto faz,
sua liberdade está implicada. Pensar de outra forma significaria
reduzir Deus a um tirano despótico, sem nenhum respeito pela
criatura humana. Essa não é a teologia de Mateus!
O recurso às mediações humanas, das quais Deus
se serve, só tem sentido se a liberdade humana for garantida
e respeitada. Isso se dá com José. Sua abertura para
a vontade de Deus resulta de um total domínio da liberdade,
a ponto de acolher algo impossível de ser compreendido e
aceito nos limites de uma vontade humana alienada.
A figura de José, na condição de discípulo
exemplar, serve de horizonte para o leitor-ouvinte do evangelho.
O Mestre Jesus, apresentado por Mateus, espera ser acolhido com
a adesão, o discernimento, a docilidade, a obediência,
a generosidade, a disponibilidade e o destemor atribuídos
a seu pai adotivo.
Padre Jaldemir Vitória SJ -diretor da Faculdade de Teologia
do ISI
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