Jesus de Nazaré: eis o grande vocacionado do Pai.
Eucaristia: eis a grande resposta de Jesus.
Sabemos que todo chamado provoca uma resposta e; toda resposta é
fruto de uma "de-cisão", de uma ruptura. Não
é fácil romper com alguma coisa e menos ainda romper
com alguém.
Estou abrindo o Livro dos Evangelhos para descobrir em Jesus a sua
capacidade de discernir, confiar, assumir e caminhar com decisão.
Meu olhar está se fixando em Lucas 22,14: "Quando chegou
a hora, Jesus se pôs à mesa com os Apóstolos".
Dá vontade de perguntar: "De onde está chegando?
Qual caminho percorreu?". Sinto-me obrigado a folhear páginas
anteriores. Percebo que para chegar à "sala grande, no
andar de cima" (Lc 22,12), Jesus precisou tomar uma decisão.
Foi preciso movimentar-se, mudar de ritmo, entrar na "dança
de Deus", perceber a vontade do Pai.
Sem querer criar "suspense", eis o texto que deve interessar-nos:
"Estava chegando o tempo de Jesus ser levado para o céu.
Então ele tomou a firme decisão de caminhar para Jerusalém"
(Lc 9,51). Que bom ver gente decidida. Há sempre que aprender.
Vamos acompanhar Jesus em Lucas. Escutemos a sua palavra: "Atenção,
tenham cuidado com qualquer tipo de ganância a sua vida não
depende de seus bens (Lc 12, 15). E ainda: "Façam todo
o esforço possível para entrar pela porta estreita"
(Lc 13,24). Aqui o biblista explica: "É preciso escolher
o caminho de vida eu cria a nova história". Percebo que
isso também indica "de-cisão".
Jesus não desiste: "Vão dizer a esta raposa ...
preciso caminhar hoje, amanhã e depois de amanhã, porque
não convém que um profeta morra fora de Jerusalém"(Lc
13, 33). Jesus mostra-se decidido em realizar a sua missão.
Segundo os fariseus e doutores da Lei, Jesus chega a provocar escândalo:
"Esse homem acolhe pecadores e come com eles" (Lc 15,2).
Nesse caso, a resposta será formulada com as parábolas
da misericórdia.
Jesus continua caminhando e tudo indica que está muito decidido.
"Vejam, estamos subindo para Jerusalém" (Lc 18,31).
Chega lá e vai " sentar-se à mesa com os Doze"
(Lc 22) . É esta páscoa que manifesta a resposta definitiva
de Jesus ao Pai. Sim, a Eucaristia é a vocação
de Jesus. Durante a Ceia expressará um desejo muito profundo
no qual nós também somos contemplados: "Assim como
o Pai me amou, eu também amei vocês: permaneçam
no meu amor"(Jo 15,9). Nosso projeto de vida não pode
prescindir dele.
Podemos exclamar: somos salvos, redimidos comprados de novo. O Apóstolo
escreverá: "Alguém pagou alto preço pelo
resgate de vocês"(1 Cor 6,20), pois " quando chegou
a hora", abraçou a cruz. Mais tarde veremos o Ressuscitado
mostrando os sinais de violência, nas mãos e no lado.
Naquela Ceia derradeira, concretizava-se a resposta de Jesus, resposta
da cor do sangue, com sabor de entrega, com caráter de doação.
Naquele momento o Pai manifestava sua fidelidade ao projeto inicial:
dar a vida, por amor.
A Eucaristia constitui-se hoje para nós num "marco vocacional".
Por ser o "gesto do Mestre", por ser a encarnação
que continua, o apelo mais profundo para a justiça a solidariedade,
a partilha e a fraternidade.
"Fazei isto em memória de mim": eis o convite que
cada um deve assumir se é que faz questão de estar "no
seguimento de Jesus". Claro, este convite exige firmeza, decisão.
Nossa resposta deve espelhar-se no estilo de vida de Jesus. Convocado
pelo Pai, obediente ao Pai, sempre pronto a dizer na mais cristalina
disponibilidade: "Eis-me, Senhor, para fazer a tua vontade"
(Hb 10,7).
A Eucaristia será um "marco vocacional" somente para
quem estiver disposto a levar a sério as propostas de Jesus:
"Vinde e vede" (Jo 1,39). "Amai-vos uns aos outros"
(Jo 15,12). "Acreditem em Deus e acreditem também em mim"
(Jo 14,1). A presença por excelência de Jesus entre nós
é a presença na Eucaristia, o grande sinal que seduziu
santas e santos. Como amostra, gostaria de lembrar aqui uma das convicções
do "homem de Assis" acerca da Eucaristia. Para enaltecer
a dignidade dos sacerdotes, Francisco, no seu testamento, realça
o grande valor da Ceia e escreve "... do mesmo altíssimo
Filho de Deus, nada enxergo corporalmente neste mundo senão
o seu santíssimo Corpo e Sangue que eles (os sacerdotes) consagram
e somente eles administram aos outros".
Toda vocação é um dom de Deus e isso nos lembra
que cabe a nós valorizá-lo com responsabilidade. Uma
boa sugestão é deixar-se acompanhar por Maria, Mãe
das vocações.
Qualquer que seja a nossa vocação, Deus queira que nossa
resposta possa sempre inspirar-se na Eucaristia, na páscoa
de Jesus. Haurindo desta fonte, nossa missão terá mais
sentido, e o nosso "sim" terá o calor do amor-doação
à semelhança da resposta positiva de Jesus de Nazaré.
Questionamentos
1. Até que ponto minha resposta vocacional consegue inspirar-se
na Eucaristia?
2. O estilo de vida de Jesus se resume no serviço e na doação:
é um anúncio e uma denúncia ao mesmo tempo. Converse
com alguém sobre isso.
Padre André Agazzi, sss - inte-grante da Equipe de Retiros
Espirituais dos Religiosos Sacramentinos - Paróquia da Ressurreição,
Uberaba/MG - Do jornal Opinião |