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Cartas de Paulo (7)
III A Conversão do homem
1- O processo de justificação do homem em particular
= observando o conjunto de cartas paulinas podemos compreender como
o homem, dominado pelo poder do pecado, destinado a morrer participa
na salvação operada por Cristo. Deus toma a iniciativa
e chama uma pessoa determinada por meio da pregação
do Evangelho, que é acompanhada por uma graça.
Se o homem aceita a palavra que lhe é proposta, faz um ato
de fé com a ajuda da graça e começa a crer
no poder salvador da Morte e Ressurreição de Jesus,
que opera mediante a fé da palavra que lhe é pregada.
O processo normal continua com o desejo e a recepção
do Batismo, pelo qual lhe são perdoados os pecados e renasce
para uma nova vida de união com Cristo, é
incorporado na Igreja, recebe o Espírito Santo com as virtudes
infusas e os dons, e é adotado como filho de Deus. A todo
este processo Paulo chama justificação. A culminação
deste caminho constitui a santificação do homem em
particular.
Convém sublinhar três considerações:
1- a justificação dá-se por iniciativa divina,
não é mérito das ações precedentes
do homem;
2- Deus tem uma vontade salvífica universal, quer que todos
os homens sejam salvos; 3- ainda que Deus tenha a iniciativa da
graça e leve a cabo a parte principal na justificação,
o homem concreto deve pôr também a sua parte.
2- A fé = Paulo fala reiteradamente da fé. "É,
portanto, pela graça que estais salvos, mediante a fé.
E isto não é a vós que se deve; é dom
de Deus" (Ef 2,8)
Por parte do homem que recebe o dom da fé, esta continua
sempre a ser um ato livre, pelo que meritoriamente o homem adere
e obedece ao que lhe é proposto da parte de Deus ou através
do Evangelho de Jesus.
3- Conteúdo da fé = o que há de crer aquele
que correspondeu ao dom divino da fé não é
uma teoria pessoal de Paulo nem de nenhum outro, mas a doutrina
comumente ensinada pelos doze, testemunhas da vida, morte e ressurreição
de Cristo; numa palavra, o conteúdo dos artigos da fé
que se resumem no Credo ou Símbolo, que tem as sua origem
nos Apóstolos.
Paulo transmite o que havia recebido: "Cristo morreu pelos
nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou
ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e apareceu a Cefas, depois,
aos doze. Em seguida, apareceu a mais de quinhentos irmãos
de uma só vez, maioria dos quais ainda existe, enquanto alguns
faleceram" (1 Cor 15,16).
4 Exigências morais da fé = era preciso muita graça
de Deus e grande generosidade por parte dos convertidos para abandonar,
de fato, muitos dos seus antigos costumes pagãos. A conversão
a Cristo comportava sérias e difíceis exigências
morais; mas é um fato que os primeiros cristãos puderam
cumpri-las, não certamente pelas suas meras disposições
humanas, mas pela vida divina enxertada neles.
IV A existência cristã em Cristo
Não existe no ensino Paulino um nível moral rebaixado
para as massas do Povo de Deus e outro mais alto para umas poucas
almas seletas. A todos aqueles primeiros cristãos, há
pouco vindos do paganismo, apresenta o mesmo alto ideal e as mesmas
exigências morais e espirituais da comum fé cristã.
1- A filiação divina = sentir que somos filhos de
Deus é algo pelo qual clama a nossa fé cristã.
Em Cristo, isto é, ao aderirmos a Ele pela fé, tornamo-nos
filhos de Deus mediante a graça. Esta qualidade de ser filhos
de Deus, ainda que tenha o seu cumprimento perfeito só no
Céu, contudo já nesta vida é uma realidade
palpitante que, por meio da fé, devemos captar e sentir:
"Ao chegar, porém, a plenitude do tempo, enviou Deus
Seu Filho, nascido duma mulher, nascido sujeito à Lei, para
resgatar os que estavam sujeitos à Lei, a fim de recebermos
a filiação adotiva. E a prova de que sois filhos é
que Deus enviou aos nossos corações o Espírito
de Seu Filho, que clama"Abá! ó Pai". De
modo que já não és escravo, mas filho; e, se
és filho, também és herdeiro, por obra de Deus"
( Gl 4,4-7).
Ao afirmar "Já não sou eu que vivo, é
Cristo que vive em mim" (Gl 2,19-20) É claro que o apóstolo
não quer dizer que, depois de ter sido feito cristão,
não vive a sua própria vida, mas que está configurada,
animada por uma força vital que vem de Cristo. Ele está
no cristão com uma presença que é muito mais
que o sentimento da recordação entre os que se amam;
trata-se da presença do Espírito de Cristo o próprio
Espírito Santo na alma do cristão.
2- O dom do Espírito = já no Batismo o crente recebe
junto com a graça e as virtudes infusas, o Espírito
Santo e os Seus dons. Foi Jesus Cristo que, com a Sua Morte e Ressurreição
gloriosa, nos mereceu o envio do Espírito. O Espírito
de Jesus, que nos foi dado, coopera para nos tornarmos conformes
a Cristo, de maneira que o Pai possa reconhecer em nós a
imagem do Seu Filho Unigênito, e adotar-nos como filhos no
Filho.
3- Valor do sofrimento = a esperança da glória futura
faz suportar com alegria a dor, inclusivamente desejá-la:
"Por isto não nos deixamos abater. Pelo contrário,
embora em nós o homem exterior vá caminhando para
a sua ruína, o homem interior se renova dia-a-dia. Pois nossas
tribulações momentâneas são leves em
relação ao peso eterno de glória que elas nos
preparam até o excesso" (2 Cor 4,16-17).
O Apóstolo, durante o seu primeiro cativeiro romano, escreve:
"Agora rejubilo no meio dos sofrimentos que suporto por vós
e completo na minha carne o que falta às tribulações
de Cristo, em benefício do Seu Corpo, que é a Igreja"
(Cl 1,24). Quer isto dizer que os padecimentos de Cristo, a Sua
Paixão, de alguma maneira se perpetuam até ao fim
deste mundo nos cristãos que sofrem à imitação
de Cristo e juntamente com Ele. Portanto, a dor continuará,
como penhor da glória eterna, enquanto durar o mundo presente;
mas, ainda que possa parecer um paradoxo , precisamente na dor,
levada pela Igreja juntamente com Cristo, há uma profunda
felicidade do cristão na vida presente.
4- A luta ascética = o cristão não pode adormecer
sobre os louros da fé e do dom da graça. Deve fazer
frutificar os dons preciosos recebidos: "É como Seus
colaboradores que também vos exortamos a não receberdes
em vão a graça de Deus"( 2Cor 6,1). Não
por ter recebido a graça e a fé e os dons do Espírito
e a filiação divina está concluída a
corrida do cristão. Este continua a viver na carne, que tentará
reconquistar os seus antigos foros; a concupiscência borbulha
nos seus membros... Deve, portanto, não baixar a guarda:
"Vede , pois, cuidadosamente como andais : não como
tolos, mas como sábios, aproveitando bem o tempo atual, porque
os dias são maus." (Ef 5,15-16)
5- O fruto do amor = o amor perfeito de Deus por nós foi-nos
revelado em toda a vida de Cristo, "que nos amou e Se entregou
por nós a Deus, como oferta e sacrifício de odor suave"
(Ef 5,2). Paulo sente profundamente esse amor de Cristo por cada
um de nós, amor que O levou à morte.
O amor de Deus e de Cristo exige correspondência por parte
do cristão. O Espírito Santo derrama em nós
o amor a Deus e a Cristo: "Porque o amor de Deus se encontra
derramado em nossos corações pelo Espírito
Santo, que nos foi concedido" (Rm 5,5).
Em última análise, é o amor a Deus que nos
mantém firmes nas exigências da fé, apesar de
todas as dificuldades, e está por cima de todas as outras
virtudes e carismas, é o que vemos no belíssimo Hino
à Caridade que encontramos em 1 Cor 13,1-13.
A Eucaristia é o sacramento por excelência do amor
a Deus e do amor fraterno: por ela, pela comunhão com o Corpo
de Cristo, unimo-nos a Ele, e nEle aos outros irmãos. A caridade
fraterna não se limita a um belo e alto sentimento. Deve
ser ativa, deve traduzir-se em fatos.
V A Igreja
De todos os escritores inspirados do Novo Testamento, Paulo é
o que mais vezes fala da Igreja, o que sondou com maior profundidade
no seu misterioso ser e o que nos deixou uma doutrina eclesiológica
mais rica.
A penetração de Paulo no mistério da: Igreja
começa já no momento da sua conversão, quando
ouviu do próprio Jesus, que lhe aparece ressuscitado no caminho
de Damasco, a misteriosa identidade entre Cristo e os cristãos:
"Saulo, Saulo, por que Me persegues?" (At 9,4). Com efeito,
Saulo não perseguia Cristo, que para ele não era senão
um homem morto. Paulo perseguia somente os cristão, que eram
para ele os que viviam e propagavam perniciosos ensinamentos. À
revelação primeira e direta de Cristo vão se
acrescentando outras revelações e outras experiências,
que irão completando e aprofundando a visão paulina
do mistério da Igreja.
Nas cartas escritas da década dos anos 50 e 60 ( Ts, Gl,
1 e 2 Cor e Rm) Paulo designa geralmente por Igrejas as comunidades
cristãs locais reunidas em cidades ou pequenas regiões,
contudo não deixa de ter presente a visão de uma Igreja
única.
1- Unidade da Igreja = tendo consciência da unidade da Igreja
(é una) e da sua unicidade(não há mais que
uma ) Paulo nos mostra que os cristãos todos formam um só
corpo, cuja vida e união é realizada e mantida pela
comunhão com o Corpo e o Sangue eucarísticos de Cristo:
"Por ser um só pão, nós, que somos muitos,
constituímos um só corpo, visto participarmos todos
do único pão."( 1 Cor 10,17).
Nos anos do primeiro cativeiro romano (61-63) o termo Igreja é
preferentemente empregado para designar a Igreja universal, na qual
foram congregados, pelo chamamento divino, judeus e gentios, livres
e escravos, homens e mulheres " há um só Corpo
e um só Espírito... há um único Senhor,
uma única fé, um único Batismo. Há um
só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, atua
por meio de todos, Se encontra em todos." (Ef 4,3-6).
2 A Igreja, Povo de Deus = juntamente com as notas de unidade da
Igreja e de união dos cristãos com Cristo e entre
si, nas cartas paulinas encontramos a concepção, profundamente
arraigada, de que a Igreja é o povo de Deus.
A característica sublinhada por Paulo é que os pagãos
que abraçam a fé em Cristo passam a fazer parte da
Igreja em paridade de condição, de direitos e deveres,
com os procedentes do judaísmo.
Os últimos tempos (o eschaton) foram inaugurados com a primeira
vinda de Cristo e terminarão com a Sua segunda vinda ou Parusia.
Durante este tempo o Evangelho é pregado em todo o mundo
e desenvolve-se nele a Igreja. Esta dimensão escatológica
da Igreja confere aos cristãos o caráter de caminhantes
de modo que toda a Igreja é como o Povo de Deus em marcha,
à espera que venha o Senhor, para a pátria celestial,
que é a definitiva.
3 A Igreja, Corpo de Cristo = Nas epístolas do cativeiro
Paulo identifica a Igreja com o Corpo de Cristo. Tal identidade
não se deve entender em sentido absoluto: propriamente falando,
Cristo e a Igreja não são exatamente a mesma coisa.
Poder-se-ia dizer que a Igreja é Cristo no Seu corpo.
Em Colossesnses e Efésios não fala da Igreja só
como Corpo de Cristo, mas a esta visão sobrepõe a
imagem de Cristo como Cabeça da Igreja: Cristo é diferente
da Igreja, mas está-Lhe unida como a sua cabeça, mostrando
que a Igreja, em relação a Cristo, tem a condição
de subordinada.
O cristão participa realmente do Corpo do Senhor na Comunhão
eucarística, assim, todos os cristãos ficam constituídos
em membros do Corpo de Cristo, e cada um é membro do outro.
Trata-se, pois, de uma união estreitíssima, na qual
cada cristão se une a Cristo, e em Cristo aos outros cristãos.
A concepção da união dos cristãos e
da unidade da Igreja como Corpo de Cristo não contradiz a
diversidade de dons e graças. Cada fiel recebe graças
específicas, das quais deve ser fiel administrador para glória
de Deus. Dentro dessa diversidade de graças realiza-se a
unidade profunda, porque todas procedem do único Espírito.
4 A Igreja, instrumento universal de salvação = a
questão é que o corpo físico de Cristo, formado
nas entranhas virginais de Maria, morto na cruz e sepultado, carregou
com os nossos pecados, e Deus reconciliou-nos na Sua carne, sendo
o verdadeiro cordeiro pascal, e pela oblação desse
corpo fomos santificados de uma vez para sempre. Este corpo físico
de Cristo, unido à divindade do Verbo, foi, pois, o instrumento
da nossa salvação.
Depois da Sua glorificação, o Corpo físico
de Cristo tem uma existência celeste, mas também se
torna presente na terra pela Eucaristia, no meio da Igreja. Esse
Corpo eucarístico de Cristo é também instrumento
de salvação e de união dos cristãos
em Cristo e entre si. Pela comunhão com o Corpo de Cristo,
glorioso nos Céus e presente na terra, a Igreja associada
de maneira íntima e real ao Corpo de Cristo, unida e diferente
ao mesmo tempo, é constituída também em instrumento
universal de salvação.
A união e diferença, ao mesmo tempo, entre Cristo
e a Igreja encontra explicações noutras imagens paulinas
além de Cabeça e Corpo, como a da Igreja Esposa de
Cristo (cf. Ef 5,23-32).
Que possamos aprender com São Paulo a sermos humildes e fiéis
e ardorosamente "apaixonados" por Cristo.
Continua no próximo número
Jane do Térsio
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