Tenho
a impressão de estar cercado por sinais de morte. Vivo num
mundo atropelado por conflitos, sem que a dor das vítimas mereça
sequer uma flor anônima. No século XX, nada menos do
que 182 milhões de pessoas pereceram em guerras. E houve apenas
dois tribunais empenhados em punir os responsáveis: Nuremberg
e, agora, Haia, que apura os massacres ocorridos na Europa central.
Vivo num continente em que 221 milhões de habitantes padecem
fome. Aqui dizimaram cerca de 100milhões de indígenas,
escravizaram os negros trazidos da África e, como quem estupra
e, em seguida, aborta o feto a ponta de faca, arrancaram-nos o ouro,
a prata, a madeira, as matérias-primas, a terra.
Agora, praticam a mais vil extorsão, impondo-nos o jugo da
dívida externa e esfarelando, pelas trilhas tortuosas do nosso
futuro, o bagaço argentino do colapso de nações
inteiras, como se a docilidade do paciente à receita prescrita
transmutasse em veneno o remédio que deveria salvá-lo.
Vivo num país com 53 milhões de excluídos e 40
mil assassinatos por ano, sem contar as cifras superiores das vítimas
de trânsito e de acidentes de trabalho. Há medo em cada
esquina, as noites são tenebrosas, nunca se sabe quem será
a próxima vítima. Aqui, como há séculos
denunciava Bartolomeu de las Casas, morre-se antes do tempo. E tão
violenta quanto essa guerra civil não-declarada, medonha como
a ambição das elites, é o modo degradante como
a morte corrói corpos e mentes antes de levar os espíritos:
meninas prostituidas; crianças condenadas ao mercado de trabalho;
incontável exército de desempregados; camponeses sem
terra; jovens sem esperança, consumidos pelo ócio e
pela droga.
O Brasil deve, hoje, cerca de US$ 250 bilhões, uma fortuna
que, ao entrar no país, não foi aplicada em benefício
da maioria da população. Em novembro passado, o governo
brasileiro devia R$ 660,47 bilhões, o que corresponde a 53%
de toda a riqueza da nação ou ao PIB (Produto Interno
Bruto). Em 2000, a CNBB promoveu o plebiscito da dívida externa.
Votaram cerca de 6 milhões de pessoas. Dessas, 90% mostraram-se
favoráveis a que o governo suspendesse temporariamente o pagamento
da dívida de US$ 2 bilhões que saem do país todos
os meses até que uma auditoria investigue a origem e o destino
dos recursos, pois suspeita-se que parte considerável do dinheiro
tornado emprestado teria sido desviado pela corrupção.
Entre os sinais de morte que marcam a face sofrida do Brasil, estão
os 15 milhões de sem terra e os 20 milhões de sem-teto.
Isso porque, em nosso país, não há mecanismos
de distribuição de renda, incluindo a terra (reforma
agrária), embora o Brasil figure entre as dez nações
mais ricas do mundo. Basta lembrar que, em 2001, os assalariados pagaram
mais 4,16% de imposto de renda. As empresas, no entanto, pagaram menos
13% e, os bancos, menos 31,89%. Daí o rombo de R$ 13 bilhões
da Previdência Social.
Apesar de tudo, irrompe em mim, como um dom inexorável, a fé
na vida: É a Páscoa que me afasta do desespero e livra-me
da indiferença. Ao quebrar as cadeias da morte, Jesus partiu
todas as correntes que prendiam a injustiça às escarpas
íngremes da fatalidade. Cercado também de sinais de
morte enquanto viveu entre nós, Jesus demonstrou que a doença
não é nem vontade, nem castigo de Deus, e anunciou-lhes
a cura; a pobreza é filha da injustiça, e proclamou
bem-aventurados os que têm fome de justiça; a culpa não
se justifica quando se crê na misericórdia divina. Na
ressurreição do Filho, o Pai proclamou definitivamente
a soberania da vida.
Malgrado todos os sinais de morte, o dom maior de Deus há de
prevalecer, ainda que as guerras se mascarem com a caveira da perenidade
e a opressão cubra-se com a fantasia de eternidade. A invisível
semente da fé faz-me crer na força irreprimível
da vida.
Utopia? Longe disso. A Páscoa é como plantação
de melancia: viceja rente ao chão da vida e, de repente, apresenta-nos
um belo fruto. Ela está presente nas juras de amor dos enamorados
e na luta dos que teimam pelos direitos humanos; na solidariedade
dos que dão de si ao próximo e no cuidado dos que protegem
o meio ambiente; no sorriso de quem embriaga o coração
de misericórdia e no empenho incansável dos que fazem
da política a arte de servir a maioria.
Se olharmos em volta, veremos, surpresos, que os sinais de Páscoa
superam os sinais de morte. Não é uma maravilha que
condições naturais extremamente delicadas, como a exata
quantidade de oxigênio na atmosfera, tenham se reunido para
propiciar, neste planeta, o milagre da vida? Não é sintomático
que, apesar de tantos impérios, os pobres continuem a lutar
por seus direitos? Não é significativo que, ao menos
como força de lei, grande parte da humanidade tenha abolido
a escravidão, o trabalho infantil, a discriminação
racial, a submissão da mulher, proclamando a Declaração
Universal dos Direitos Humanos? Não é uma bênção
de Deus que haja, ainda hoje, homens e mulheres que, como Francisco
de Assis, Gandhi, Luther King e Teresa de Calcutá, continuem
a doar suas vidas para que outros tenham vida?
Celebrar a Páscoa é fazer valer o dom supremo da vida,
e vida em abundância para todos, como queria Jesus (João
10, 10). Portanto, ainda que haja tantos sinais de morte à
volta, a certeza de que Jesus vive naqueles que têm fome e também
em quem dá de comer; dos que têm sede e em quem dá
de beber; desafiando nossa capacidade de amar, é o que sustenta
o mundo e a minha esperança.
Como dizia santa Teresa de Ávila, tudo passa. E acrescento:
só a Páscoa não passa. Pois para quem soube fazer
terna esta vida, do outro lado ela também será terna
e eterna.
Frei Betto (retirado do Jornal Opinião) |